Brasil na China

Portinari na China: primeira exposição do artista em Pequim concretiza sonho iniciado em 1952

Mais de 50 obras do pintor brasileiro, falecido em 1962, ficarão em cartaz no Museu Nacional da China até 10 de outubro

No audio source provided.
Cartazes da exposição "O Brasil de Portinari" no Museu Nacional da China. 10 de junho de 2026
Cartazes da exposição “O Brasil de Portinari” no Museu Nacional da China. 10 de junho de 2026 | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato

O Museu Nacional da China, em Pequim, recebe a primeira exposição de Candido Portinari na Ásia. “O Brasil de Portinari” reúne cerca de 50 obras originais do pintor brasileiro, em cartaz de 9 de junho a 10 de outubro, dentro da programação do Ano Cultural Brasil-China 2026, iniciativa bilateral estabelecida pelos governos de Xi Jinping e Luiz Inácio Lula da Silva. A inauguração, na terça-feira (9), contou com a presença do secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares, e da presidenta do Instituto Brasileiro de Museus, Fernanda Castro.

Localizado na Praça Tiananmen, o Museu Nacional da China está entre os museus mais visitados do mundo, ao lado do Museu do Louvre, e deve receber cerca de 4 milhões de visitantes durante o período da exposição, segundo o Ministério da Cultura. O museu tem capacidade para receber 10 milhões de visitantes por ano.

O acervo exposto em Pequim resulta do Projeto Portinari, criado em 1979 pelo matemático João Candido Portinari, filho do pintor e diretor-geral da instituição. Até então, boa parte da obra de Candido Portinari estava dispersa em coleções particulares e praticamente inacessível ao público. 

Um sonho antigo

João Candido contou que a ideia de levar Portinari à China não é recente. Segundo ele, a primeira proposta surgiu em 1952, três anos após a fundação da República Popular da China, por iniciativa do poeta espanhol Rafael Alberti, que vivia exilado no Uruguai durante a ditadura de Francisco Franco e era amigo de Candido Portinari. João Candido afirmou ter recuperado uma carta em que Alberti descrevia o projeto de trazer a obra do pintor brasileiro para a China.

A ideia foi retomada, segundo João Candido, pelo poeta cubano Nicolás Guillén e, mais tarde, por Jorge Amado, em um intervalo de mais de 50 anos. A proposta só foi formalizada em 2004, durante uma exposição na Fundação Proa, em Buenos Aires. “Essa preparação não foi fácil”, afirmou João Candido, citando o custo do seguro das obras, que considera ter aumentado por conta dos ataques não provocados de Estados Unidos e Israel ao Irã, e a complexidade logística do transporte.

A mostra em Pequim conta com obras dos acervos de museus brasileiros e de coleções privadas: o MASP emprestou “Os Retirantes”, a Pinacoteca de São Paulo emprestou “Mestiço” e o Museu Nacional de Belas Artes emprestou “Café”. 

Mais de quatro décadas de catalogação

O Projeto Portinari identificou mais de 5.200 obras e reuniu mais de 30 mil documentos, entre cartas, recortes de jornal, fotografias e depoimentos. O programa de história oral do projeto registrou 70 depoimentos e 130 horas de gravação, com nomes como Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Luís Carlos Prestes e Carlos Drummond de Andrade.

A organização também foi responsável por coordenar a restauração dos painéis “Guerra e Paz”, pintados por Portinari para a sede da ONU em Nova Iorque. As telas foram recuperadas em ateliê aberto ao público no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, e depois exibidas no Rio (2010), em São Paulo (2012), em Belo Horizonte (2013) e em Paris (2014). O Projeto Portinari manteve a guarda dos painéis por seis anos e os devolveu à ONU em 2015.

Da sala de aula de matemática ao acervo digital

João Candido Portinari é professor do Departamento de Matemática da PUC-Rio há quase seis décadas. Na entrevista com o Brasil de Fato, ele afirmou que precisou abrir mão da docência regular para se dedicar ao Projeto Portinari, mas que aplicou ao acervo do pai os mesmos métodos quantitativos de sua formação: desde os anos 1990, o projeto usa ferramentas computacionais para catalogar, cruzar e digitalizar as milhares de obras e os documentos do acervo.

Essa abordagem também sustenta o “Projeto Pincelada”, dedicado a identificar falsificações da obra de Portinari, e que reuniu pesquisadores de diferentes áreas de ciência e tecnologia da PUC-Rio. 

O público chinês

No dia seguinte à abertura, João ministrou uma palestra sobre a vida do pai e o processo de recuperação de sua obra. O Brasil de Fato conversou com algumas das chinesas presentes na atividade.

Xiong Ran foi ao museu para ver a exposição e ali descobriu sobre a palestra. Professora de caligrafia, uma arte milenar na China, ela acabou fazendo uma pergunta a João Candido durante a palestra.

“Quando fazemos arte, muitas vezes achamos que é preciso esperar a inspiração chegar para criar. Mas não é bem assim. Muitas vezes, na arte, é preciso trabalhar como um operário, como um trabalhador. É preciso explorar com muitas perspectivas”, refletiu Xiong Ran sobre a conversa.

“Com esta exposição, percebi que, seja caligrafia, seja pintura, a arte não tem fronteiras. Consegui sentir, através da obra do autor, o que ele queria retratar. Isso me emociona muito”, disse a jovem.

Já Jing Limei destacou o conteúdo das telas. “Nas obras dele, podemos ver a aversão desse artista à guerra, seu desejo pela paz, e também uma compaixão pelo sofrimento e pela vida pobre das pessoas naquela época, tanto no Brasil quanto no mundo”, disse. “Por isso gostei muito desse artista. Quero visitar a exposição de novo”.

Pontes com universidades chinesas

João Candido afirmou que o Projeto Portinari já desenvolve atividades educativas em parceria com universidades em outros países e que gostaria de ampliar essa atuação com universidades chinesas. Segundo ele, a exposição já gerou um primeiro contato nessa direção: durante uma visita guiada, foi procurado por um matemático, membro da Academia de Ciências da China.

O pesquisador chinês foi convidado a visitar a exposição pelo professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro Nelson Maculan, ao saber da mostra em Pequim. “A gente tem que encontrar uma maneira de fazer um entrelaçamento com as universidades chinesas”, afirmou João Candido, “porque é ali que estão também os jovens, que a gente quer aproximar”.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter