RECONHECIMENTO

Medalha Preta Roza homenageia cerca de 400 mulheres negras no RS e reforça luta por poder, memória e igualdade

Evento em Porto Alegre reuniu lideranças de 72 municípios em celebração ao protagonismo das mulheres negras

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Laura Sito ressaltou que a medalha busca valorizar mulheres negras que seguem construindo transformações em seus territórios
Laura Sito ressaltou que a medalha busca valorizar mulheres negras que seguem construindo transformações em seus territórios | Crédito: Alex Garcia

Cerca de 400 mulheres negras de 72 municípios do Rio Grande do Sul foram homenageadas neste sábado (13) com a Medalha Preta Roza, iniciativa da deputada estadual Laura Sito (PT). A cerimônia, realizada em Porto Alegre, integra a programação do Julho das Pretas e chega à sua segunda edição com o objetivo de reconhecer trajetórias marcadas pelo protagonismo, pela resistência e pela contribuição social em diferentes áreas, como saúde, educação, movimentos sociais, liderança comunitária, artes, entre outras.

Na abertura do evento, a psicóloga, escritora, coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), conselheira dos Conselhos Estadual e Municipal do Povo de Terreiro e vice-presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Ìyá Sandrali Bueno, destacou que a luta das mulheres negras vai além da representatividade e envolve a transformação das estruturas de poder.

Segundo ela, apesar da presença crescente das mulheres negras em diferentes espaços sociais, ainda persistem desigualdades na distribuição de funções, salários e acesso à tomada de decisão. “O trabalho mais pesado, recebendo menos e tendo menor poder de decisão. A presença das mulheres negras nas organizações precisa vir acompanhada de participação real, de autoridade, de recursos, de segurança e de poder”, afirmou.

Sandrali ressaltou que a organização das mulheres negras não se limita a ocupar estruturas existentes, mas também questiona como o poder é produzido e distribuído. “Queremos saber quem decide, quem fala, quem recebe recursos, quem aparece e quem realiza o trabalho invisível. Não queremos apenas entrar em espaços de poder, queremos discutir como esse poder é produzido, distribuído e exercido.”

A liderança também relacionou a luta das mulheres negras ao enfrentamento simultâneo do racismo e das desigualdades sociais. “Não existe democracia plena enquanto mulheres negras são constantemente desumanizadas”, afirmou. Ao comentar a homenagem coletiva, definiu o momento como um gesto político e de memória. “Esse não é apenas um ato de homenagem. É um gesto político que nos emociona. E a nossa emoção também é política, porque carrega a trajetória de todas nós.”

A cerimônia, realizada em Porto Alegre, integra a programação do Julho das Pretas  | Crédito: Alex Garcia

Reconhecimento e memória histórica

A honraria foi criada para reconhecer mulheres que atuam em áreas como política, educação, cultura, saúde, segurança pública, educação, assistência social e movimentos comunitários. A cerimônia também marcou o lançamento da cartilha Preta Roza, que resgata a trajetória da líder quilombola que dá nome à medalha.

Ao explicar o significado da homenagem, Laura Sito destacou que a iniciativa faz parte de um esforço para recuperar a memória de personagens negros que tiveram suas histórias invisibilizadas no Rio Grande do Sul.

“A Preta Roza foi uma líder quilombola que viveu no século 19. Desde que assumimos na Assembleia Legislativa temos nos dedicado a resgatar a história do povo negro gaúcho. Assim como reconhecemos Manoel Padeiro como o primeiro herói negro do estado, estamos trabalhando para reconhecer Preta Roza como a primeira heroína negra da história do Rio Grande do Sul”, afirmou Sito.

De acordo com a parlamentar, a líder quilombola teve papel estratégico nas lutas pela liberdade da população negra escravizada. “Há registros de que ela se vestia de homem para circular entre diferentes grupos e coletar informações importantes para a luta pela libertação. Recuperar essa história é fundamental.”

Sito ressaltou ainda que a medalha busca valorizar mulheres negras que seguem construindo transformações em seus territórios. “Quando promovemos igualdade, direitos e acesso a serviços, criamos condições para a mobilidade social e para que essas trajetórias tenham visibilidade.”

Descendente de Manoel Padeiro e uma das autoras da publicação lançada durante o evento, Vera Macedo afirmou que escrever sobre Preta Roza significou dar continuidade a uma história preservada pela tradição oral. “Não foi difícil escrever sobre Preta Roza porque é uma história de luta. Eu cresci ouvindo falar de Manuel Padeiro e das mulheres valentes que faziam parte do grupo dele. Contribuí com os conhecimentos que vieram da oralidade, enquanto a pesquisa histórica aprofundou esse trabalho.”

Para ela, a publicação ajuda a preencher lacunas deixadas pelo apagamento histórico da população negra. “Existem muitas perguntas que ainda não conseguimos responder, mas poder contribuir para recuperar essa trajetória foi um grande prazer.”

Medalha chega à sua segunda edição com o objetivo de reconhecer trajetórias marcadas pelo protagonismo, pela resistência e pela contribuição social em diferentes áreas | Crédito: Fabiana Reinholz

Reconhecimento de trajetórias

Entre as homenageadas estava a bibliotecária Michele Fernanda Silveira da Silveira, de Panambi, presidenta do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do Instituto Federal Farroupilha. Emocionada, ela destacou a importância de conhecer histórias que não aparecem nos currículos escolares.

“Eu nem conhecia essa parte da nossa história. A gente não aprende isso na escola. Receber essa homenagem também significa assumir o compromisso de multiplicar esses conhecimentos e compartilhar essas histórias com outras pessoas.”

 Michele Fernanda Silveira da Silveira é presidenta do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do Instituto Federal Farroupilha | Crédito: Fabiana Reinholz

A professora aposentada Edith Ribeiro da Luz, de Erechim, relacionou a homenagem à sua própria trajetória de superação. “Entrei na escola aos 10 anos e enfrentei muitas dificuldades para permanecer estudando. Depois veio a luta para acessar a universidade. Essa homenagem representa o reconhecimento de muitas histórias semelhantes à minha, histórias de mulheres negras que precisaram lutar muito para garantir seu direito à educação.”

Edith Ribeiro da Luz é professora aposentada de Erechim | Crédito: Fabiana Reinholz

Representando a Comunidade Quilombola da Armada, em Canguçu, Márcia Quevedo destacou que o reconhecimento convive com problemas históricos enfrentados pelas comunidades rurais. “Foi muito gratificante receber essa medalha. Seguimos enfrentando desafios importantes relacionados ao transporte, à saúde e ao acesso à água potável.” Conforme relatou muitas famílias ainda dependem de cacimbas e de caminhões-pipa para o abastecimento.

  Márcia Quevedo representou a Comunidade Quilombola da Armada, de Canguçu | Crédito: Fabiana Reinholz

Integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Gilmara Ferreira Medeiros, de Porto Alegre, afirmou que a homenagem fortalece a autoestima e valoriza o trabalho desenvolvido nas comunidades. “O reconhecimento mostra que nosso trabalho não é em vão. Ele incentiva as novas gerações a terem orgulho de ser negras e fortalece nossa luta contra o racismo.”

 Gilmara Ferreira Medeiros é integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) | Crédito: Fabiana Reinholz

Educação, cultura e movimento negro

A pedagoga Ana Lúcia Machado Falcão, de Cachoeira do Sul, recebeu a homenagem pelo trabalho desenvolvido em projetos sociais e na promoção da igualdade racial. “Recebo essa medalha com muita emoção porque ela representa não apenas a minha trajetória, mas a luta das mulheres que vieram antes de nós.”

Também de Cachoeira do Sul, a professora, bailarina e coreógrafa Juliana dos Santos Noronha afirmou que a homenagem reconhece um percurso construído coletivamente. “É uma homenagem à ancestralidade e às mulheres que abriram caminhos para que pudéssemos seguir trabalhando pela educação antirracista e pela igualdade.” Segundo ela, a dança também pode ser uma ferramenta de transformação social. “O corpo é político. A arte tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa.”

Ana Lúcia Machado Falcão (esquerda) e Juliana dos Santos Noronha tmbém foram homenageadas | Crédito: Fabiana Reinholz

A ialorixá Flávia Andréia Padilha Lúcio, de Rio Grande, destacou a importância do reconhecimento às mulheres negras e ao papel histórico dos terreiros na preservação da cultura afro-brasileira. “O país tem uma dívida com as mulheres negras. Os terreiros foram espaços fundamentais de acolhimento, resistência e preservação cultural diante de séculos de apagamento.”

Para ela, o resgate da trajetória de Preta Roza ajuda a recuperar uma memória coletiva frequentemente silenciada. “Essa é apenas uma das milhares de histórias que foram apagadas. Recuperá-las é fundamental para compreendermos quem somos.”

Juventude e diversidade

Entre as homenageadas estava também Alana Cristhina de Amorim Resina, integrante do Levante Popular da Juventude. Natural de São Paulo e moradora de Porto Alegre, ela afirmou ter percebido de forma mais intensa as marcas do racismo ao viver no Rio Grande do Sul.

“Saber que pude contribuir para transformar o território que me acolheu é muito emocionante. Aqui percebi com mais força como a questão racial ainda marca profundamente a vida das pessoas.” Além dela, outras dez mulheres ligadas às cozinhas solidárias do movimento receberam a homenagem.

Alana Cristhina de Amorim Resina integra o Levante Popular da Juventude | Crédito: Fabiana Reinholz

A assessora parlamentar e militante LGBTQIA+ Camila da Silva Brites também esteve entre as homenageadas. Mulher trans, negra e periférica, ela destacou a importância da representatividade. “Me senti muito honrada. Como mulher trans negra, receber uma homenagem ligada à memória e à luta do movimento negro tem um significado muito especial. Ainda temos muitos avanços a conquistar, mas esse reconhecimento fortalece nossa caminhada.”

Camila da Silva Brites, mulher trans, negra e periférica | Crédito: Fabiana Reinholz

Manifesto defende direitos e participação política

Durante o evento, também foi lido o manifesto Por Mulheres Vivas, que defende o enfrentamento das desigualdades de gênero, raça e classe e a ampliação de direitos para as mulheres. O texto destaca a importância de políticas públicas voltadas à educação, saúde, moradia, trabalho digno e combate à violência, com ênfase na participação política das mulheres negras.

O texto afirma que não existe liberdade enquanto persistirem a violência de gênero, a fome e o racismo estrutural, e destaca o papel das mulheres negras na construção de alternativas coletivas em seus territórios.

Ao longo do documento, são defendidas políticas públicas voltadas ao combate à violência, à garantia de direitos sociais e à ampliação da participação política das mulheres, especialmente das mulheres negras, periféricas e trabalhadoras.

Editado por: Katia Marko

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