Jovens, aposentados, estudantes, famílias, sindicalistas, integrantes de movimentos sociais e parlamentares ocuparam as ruas de Porto Alegre na terça-feira (13) em um ato de pouco mais de três horas em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais de 50 mil pessoas participaram da caminhada, a maior da campanha, que integra a mobilização de “vira-voto” do segundo turno e aconteceu na véspera da vinda de Flávio Bolsonaro ao Rio Grande do Sul.

A bateria da Turucutá e um coletivo de bandas animaram o percurso, e o vermelho das bandeiras e camisetas deu o tom da noite. A “maré vermelha”, expressão repetida ao longo do ato, também foi citada pelo ex-governador Tarso Genro ao discursar. Segundo ele, é o que o jornal estadunidense The New York Times, e outros jornais pelo mundo dizem que “toma conta das ruas do Brasil”.
Atos em outros estados
A caminhada da capital gaúcha não foi um fato isolado. Manifestações em apoio a Lula também ocorreram em outros estados nos últimos dias, e a mobilização ganha corpo em diferentes regiões do país. A próxima grande demonstração está marcada para domingo (18), quando está previsto um ato nacional, a uma semana do segundo turno, em 25 de outubro. As cidades de Pelotas e Santa Maria também realizaram atos nesta terça-feira.

No Rio Grande do Sul, a mobilização também avança fora da capital. Edegar Pretto (PT) afirmou que a virada acontece “nos quatro cantos” do estado. “Vocês viram hoje Pelotas. Nós tivemos no litoral norte, nós fomos no Planalto Médio, todo mundo está andando, se mobilizando. E esta onda vermelha do 13 do Lula, ninguém segura. Até dia 25. É 13. É Lula presidente outra vez”, disse.
“A maior caminhada dessa eleição”
Manuela d’Ávila (Psol) definiu o ato como “a maior caminhada dessa eleição, talvez a maior de todas que todos nós tenhamos participado nas nossas vidas”. Segundo ela, a mobilização seguirá até o dia 25, “nos encontrando entre nós, ocupando a cidade da zona norte à zona sul, do centro à cidade baixa”.
Manuela defendeu a ampliação do campo de apoio à candidatura. “Nós precisamos manter as nossas cores, todas elas. Todas. Já viram aquele adesivo esquerda e direita contra o Bolsonaro? Nós somos todas, todos que quiserem se somar para salvar o nosso país. A nossa tarefa é salvar o Brasil, salvar o Brasil da milícia, salvar o Brasil do Trump, salvar a nossa soberania, as nossas riquezas, salvar as nossas crianças, as nossas mulheres”, declarou.
A deputada federal Maria do Rosário (PT) lembrou a tradição de mobilização da capital gaúcha. “Porto Alegre também é a cidade onde nasce a resistência democrática, porque essa é a Porto Alegre que ocupou as ruas pelas Diretas, que ocupou pela Legalidade, que fez o orçamento participativo”, afirmou. Ao fim do discurso, puxou o coro: “Eu digo Lula, vocês dizem presidente”.
Virar voto, urna por urna
O principal chamado das lideranças foi para que cada participante converse com eleitores indecisos ou que votaram em outro candidato no primeiro turno. O deputado estadual eleito Humberto Matos, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), disse que o desafio é virar “de quatro a cinco votos por urna”. “As pessoas que votam na nossa urna são pessoas que a gente conhece, são pessoas do nosso bairro, são pessoas que a gente sabe qual é o rosto. Então, são essas pessoas com quem a gente pode conversar sem arrogância, sem soberba, com muita calma”, afirmou.
Segundo Matos a conversa deve tratar das propostas de Flávio Bolsonaro. “Nós temos que dizer para as pessoas que aquilo que o Flávio Bolsonaro está prometendo vai acabar com a vida das pessoas. Nós temos que perguntar onde que vai ser o tesouraço. Nós temos que divulgar para as pessoas, dizer para elas que o corte vai ser no salário mínimo, dizer para elas que o corte vai ser na educação, na saúde. Nós temos que alertar as mães e pais atípicos que o Flávio Bolsonaro está prometendo desvincular o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e isso significa que as pessoas vão ter mais dificuldades na sua vida”, defendeu. O deputado também afirmou que Jair Bolsonaro “vai continuar preso” e concluiu: “Os comunistas estão de volta, minha gente. A luta continua até a vitória. Nós vamos vencer”.

Manuela d’Ávila fez pedido semelhante à militância. “Conversem com uma dessas pessoas por dia. Gravem um vídeo nas redes de vocês. Gravem, escrevam, falem, telefonem. Nós precisamos de todas e de todos vocês”, disse. Edegar Pretto convocou os presentes a usar a própria comunicação. “Faz o teu vídeo, manda pro grupo da família. E aquele cunhado, aquele tio, vai para cima dele, gente. Bata no peito e diga: ‘Eu sou Lula’. Cada um faz a sua parte. Porto Alegre de novo está fazendo a sua parte”, afirmou.
O ex-governador Tarso Genro pediu que a mobilização chegue a quem votou em outro candidato. “Esta maré vermelha que toma conta das ruas de Porto Alegre que se espalhe por todo o Rio Grande e acorde muita gente que foi enganada, muita gente que foi seduzida pelas mentiras que eles propagaram nas redes durante meses e meses. Agora chegou a hora da virada. Agora chegou a hora da decência. Agora chegou a hora de afirmar a liberdade”, declarou.
Estudantes nas ruas e nas vilas
A coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (DCE/UFRGS), Niara Dy Luz, contou como a mobilização começou no estado. “Nós começamos essa mobilização aqui no Rio Grande do Sul na quarta-feira passada, quando o movimento estudantil convocou os estudantes da UFRGS, o que acabou resultando em uma grande assembleia dos estudantes e em uma forte mobilização. Daqui até lá nós saímos com brigadas da esperança, que são brigadas nos bairros e nas vilas para virar voto.”

Para ela, o resultado de 25 de outubro tem efeito direto sobre a universidade. “A eleição do Lula significa a democracia. Vai ser muito difícil, muito mesmo. Mas a reeleição do Lula é a garantia de que a gente possa ter eleição daqui a quatro anos. A eleição do Lula é a garantia de orçamento para a universidade”, disse.
A educação também foi o motivo apontado por Diego Vargas, que foi ao ato com a esposa, a assistente social Kelly Farias, e as filhas. “Garantir todos os direitos que foram conquistados até agora. Eu sou filho do ProUni e quero que as minhas filhas e quem tiver direito consigam também fazer uma faculdade gratuita de qualidade. Educação é tudo”, contou. Kelly afirmou que está “em busca de mudança, de continuação” e que não quer que acabem os direitos das filhas.
Da fronteira do interior ao centro da capital
A família levou ao ato a sobrinha de Kelly Farias, Laura Farias, que mora no noroeste do estado, na região de Cruz Alta, e estava em visita a Porto Alegre. “No lugar onde eu moro não tem nenhum ato, e eu queria muito vir aqui poder protestar, porque no lugar onde eu moro é direita. Lá é uma parte bem mais de direita, a gente não consegue manifestar. Eu vim visitar minha família e pedi para eles me trazerem, para a gente poder vir aqui protestar e lutar pela nossa democracia.”

Natural de Fortaleza e morador de Porto Alegre há quatro anos, Antônio Flávio da Silva, que trabalha com missões, disse que a decisão de ir às ruas é uma questão de direitos. “Eu acredito que a população realmente tomou uma decisão pelos direitos. Não é uma questão de PT ou não, é uma questão de direitos. Eu acho que o que está em jogo são os direitos da população. Quantas conquistas foram conseguidas ao longo do tempo. E isso está em jogo”, afirmou. Para ele, os nordestinos “tomaram a consciência de ter uma vida mais fraterna, mais solidária”, e Lula, que é do Nordeste, “entendeu isso como a gente, que trabalha preocupado uns com os outros”.
Saúde, ciência e meio ambiente
Aposentada de 71 anos, Maria Finger atuou na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e disse ter ido ao ato pela continuidade dos investimentos em educação e saúde. “Eu estou aqui pela continuidade do investimento em educação, pela continuidade do investimento no SUS, pelo Brasil soberano, pela democracia e por tudo que o Lula já fez. Eles vão entregar o Brasil aos Estados Unidos. Esse é o pior problema. E o meio ambiente, para mim, deveria ser prioridade de qualquer governo. Sem isso, nós não vamos ter nada”, disse.
A cientista e reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, afirmou estar na rua “lutando pela ciência, pelo conhecimento e pela democracia”. Segundo ela, esse movimento representa a garantia da democracia na sociedade brasileira. Ela acrescentou: “Nós, cientistas, não podemos deixar isso acontecer”.
Mulheres e violência política
Em seu discurso, Maria do Rosário citou a violência contra as mulheres. “Nos últimos dias, oito mulheres foram mortas por feminicídio no Rio Grande do Sul.” A deputada afirmou que isso ocorre quando “o ódio contra as mulheres se transforma em força política e diz que o feminicídio não existe, que a violência contra a mulher não existe e que a Lei Maria da Penha é um mero papel a ser rasgado”. E completou: “Nós estamos aqui por todas nós, porque não admitimos a violência como uma lógica política”.
Cultura e arte na rua
Artistas e trabalhadores da cultura marcaram presença. O cineasta Luiz Alberto Cassol disse que vê “algo extraordinário” acontecendo no país. “É o povo, de forma orgânica, vindo para a rua, e é estudante, é gente de tudo que é idade. A virada já está acontecendo, a vitória será nossa”, afirmou. Para ele, a cultura, “como um bem maior, como um bem simbólico, só é representada pela esquerda”. “Para nós, do cinema, do audiovisual, do teatro, das artes como um todo, a vitória do Lula é a continuidade da possibilidade de existir na arte.”

O atuador Paulo Flores, do grupo de teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, lembrou que a companhia atua desde 1978 na luta pela redemocratização. “A gente está lutando hoje porque mais uma vez nós estamos numa encruzilhada: ou é a democracia, ou não se sabe o que vai acontecer com a ascensão do pensamento fascista no mundo inteiro”, acredita.
A trilha sonora do ato ficou a cargo da Muralha Antifascista Porto Alegre, que reúne coletivos de percussão e sopro. O percussionista Moreno explicou a origem do grupo. “Diversos coletivos, farras e blocos de Porto Alegre, de percussão e sopro, se reuniram e, inspirados em outras experiências, de São Paulo e do Rio de Janeiro, que é a Muralha Antifascista, criaram um grupo que está se colocando à disposição para tocar em todos os atos possíveis, seja onde for. São diversos coletivos que defendem a cultura, a arte na rua, o carnaval, mas também a liberdade de a gente poder mostrar a arte e a cultura na rua. E a gente achou melhor mostrar, com o nosso instrumento, com os nossos metais e com a nossa percussão, a disposição dessa luta.”
Próximos passos
A agenda da campanha segue intensa até o segundo turno, marcado para 25 de outubro. No domingo (18), está previsto um ato nacional pró-Lula, quando outras capitais e cidades do país devem repetir a mobilização.
No sábado (17), em Porto Alegre será realizado o ato “Mulheres nas ruas e redes”, a partir das 15h30, com concentração na praça do Aeromóvel, próximo à orla do Gasômetro, e no domingo (18), a mobilização acontece a partir das 11h, no Largo Zumbi dos Palmares, além de chamadas em diversos bairros da Capital.

