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80 anos de Leminski: não só a obra, mas sua inspiração segue viva

A força de comunicação dos seus poemas se alia com a própria admiração da forma como viveu

Paulo Leminski completaria hoje 80 anos de seu nascimento, não só mantendo uma obra provocativa. Mas, aliado a isso, a memória de uma vida que não perdeu na capacidade de inspiração.

A força e capacidade de comunicação dos seus poemas se alia com a própria admiração da forma como viveu: o descendente de poloneses e negros, como se reivindicava, foi despojado e conectado; aliou o imediatismo da publicidade com a profundidade da tradução dos autores clássicos; transitou por várias profissões e linguagens, em algum momento apostando suas fichas na rebeldia da MPB, no contexto de rebeldia da poesia marginal dos anos 60 e 70. Escreveu ensaios biográficos simplesmente sobre o poeta negro e simbolista Cruz e Sousa, sobre Jesus Cristo, sobre o revolucionário Leon Trotski e sobre o poeta japonês Matsuo Bashô.

Seus poemas hoje são lembrados de cor, seus livros são acessíveis ao grande público, em um país de vendas limitadas, Leminski é pop. De alguma forma, ele fez com a sua obra o que vaticinava para a poesia no final do século vinte: ela não está apenas na página dos livros, mas num filme, numa música, numa exposição de arte.

Ao lado de seus haicais curtos, muitas vezes estampados em stencil em algum muro ou na parede de um bar, está a imagem icônica do escritor bigodudo. Leminski, aliás, fez uma síntese interessantíssima entre os versos curtos do hai cai japonês e adaptou-os a uma brasilidade malandra, tornou-os particulares e brasileiros:

“Cinco bares, dez conhaques/

atravesso São Paulo/

dormindo dentro de um táxi”,

Nesta "República de Curitiba", "Cidade Modelo", "Capital Europeia" e tantas classificações conservadoras que Curitiba recebeu nas últimas décadas, certamente Leminski é um contrapeso progressista, que influencia os jovens, que rompe limites, que propõe uma rebeldia avessa ao conservadorismo. Fica sempre a pergunta: o que o samurai zen estaria aprontando nos dias de hoje? Se não tivesse uma vida relâmpago, de quem se consumiu e faleceu aos 44 anos.

Paulo Leminski Filho nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 24 de agosto de 1944. Era filho de Paulo Leminski, de origem polonesa, e Áurea Pereira Mendes, afrodescendente.

Em um estado e capital onde figuras de destaque artístico não necessariamente tinham uma visão progressista das coisas – recordemos do arquiteto Jaime Lerner, antipopular e de direita enquanto governador, combatendo o MST -, e mesmo de Dalton Trevisan, cuja maestria dos contos transparece, por outro lado, uma fixação por uma Curitiba antiga e conservadora, contraditoriamente, Leminski, trotskista na juventude, furou a bolha, mas não é possível imaginá-lo em um lado que não seja a esquerda. Contraditoriamente porque, em uma de suas teses mais interessantes e hoje polêmicas, sobre literatura e linguagem, o poeta pop era defensor intransigente de que a obra não teria um cunho social e político, mas sobretudo estético e hedonista.

O debate não é novo e, talvez, com as lentes de hoje, certamente teríamos contribuições a dar na mesa de um bar: a obra do artista é determinada por uma série de fatores, e o momento social é um deles. Quantos artistas e autores no Brasil, após a ascensão do neofascismo bolsonarista, não passaram a se posicionar politicamente? E quantas obras hoje não têm destaque justamente com a temática social? Ao mesmo tempo, a transgressão na vida e na linguagem, era uma transgressão avessa ao que o conservadorismo, as estruturas sociais e o legado da ditadura militar traziam: recordo de uma entrevista na qual Leminski comparava o crítico literário Wilson Martins ao "Ney Braga (governador durante a ditadura militar) da crítica literária". Reivindicar Joyce, Guimarães Rosa, Maiakovski e tantos autores experimentalistas era reivindicar a rebeldia.

Talvez em algum momento, a geração que aprendeu e se influenciou com o legado de Leminski – a minha de alguma forma, embora tenha começado a escrever em 1997 – precisou também criticar a poesia de Leminski e recusar a sua poderosa influência para poder seguir em frente.

Afinal, com tanta capacidade de aderência, era inevitável que a poesia leminskiana começasse a se tornar uma fórmula pronta e fácil. O verso curto. A rima previsível. Recusamos Leminski, mas para poucos anos depois voltarmos a nos deleitar com alguma de suas sacadas que ficam martelando na cabeça, ou que retiram de nós o que ele mais almejava: o prazer, o deleite com a obra de arte.

Perceber hoje a obra de Leminski – e aqui este ensaísta refere-se aos poemas e ensaios, uma vez que ainda desconheço os dois romances, Catatau e Agora é que São Elas – é talvez pensar que a sua chave de leitura está na totalidade.

Leminski nos deixou fragmentos provocativos em todas as linguagens: na poesia, na prosa, no ensaio, nas letras de música, nas biografias, nas entrevistas, ele começou, com meios precários, a se aventurar inclusive na linguagem do clipe nos anos 80.

Não teve tempo de focar numa única técnica e se afirmar nela (digo isso pensando no romance, por exemplo). Mas talvez a admiração que desperte esteja justamente nesse “relaxo”, nesse “desleixo”, nessa multiplicidade de quem, de alguma maneira, brincou com as linguagens e as esparramou em cima da mesa, como uma criança. Em tempos de produtivismo e rigor acadêmico, talvez o que mais encante as novas gerações com o "polaco", como era apelidado, é a capacidade daquele encanto de uma brincadeira, de um tesão, de um momento poético, na vida, que refletia sua obra. Capacidade de encantamento que, fato é, hoje perdemos.

 

 

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