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Artigo | Da nueva cancion à canção nova – o canto integracionista na América Latina

Os anos entre 1960 e 1970 foram determinantes à música popular latino-americana a partir do surgimento da Nueva Canción

12.abr.2021 às 18h10
Porto Alegre
Danilo Nunes

Nomes como Violeta Parra, Ángel Parra, Inti Illimani, Victor Jara no Chile, que integravam a Nueva Canción Chilena, foam fundamentais para o fortalecimento do movimento - Reprodução

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano…” como já dizia o nosso saudoso Belchior em sua canção, trazendo à tona todo o sentimento integracionista que pulsava no coração da América Latina na época. Um tempo onde o gênero musical que ficou conhecido como Canção de Protesto se fazia presente na vida e no cotidiano de muitas e muitos que sonhavam com uma América livre e integrada.

A Canção de Protesto latino-americana foi um marco entre as décadas de 60 e 70 do século passado e retratava a partir da crítica social e mais adiante da resistência, um período de regimes militares e autoritários que se fizeram presentes no continente, gerando golpes de Estado com o apoio dos Estados Unidos que vivia em combate ideológico em tempos de guerra fria contra outra potência mundial: a União Soviética.

A América do Sul foi tomada por um sentimento de liberdade e esperança que se intensificou a partir da Revolução Cubana (1959), gerando o combate contra o sistema imperialista. A mensagem integracionista já havia se feito presente historicamente em outros momentos como, em 1805 a partir do discurso de Simon Bolívar em Roma que ficou conhecido como Juramento do Monte Sacro onde prometeu, a partir de seus ideais de liberdade e descolonização, libertar a América do domínio espanhol. E conseguiu. Bolívar acreditava em nações livres e trazia consigo o ideal integracionista da América, sendo um dos fundadores da Primeira União das Nações na América Latina nomeada Grã-Colômbia da qual foi presidente de 1819 a 1830. As batalhas travadas por Bolívar e San Martin serviram e servem de inspiração a toda e qualquer luta por liberdade, independência e integração na América. 

Um ciclo histórico que se repete de tempos em tempos, intensificando a luta de classes e gerando guerras e conflitos em combate ao imperialismo norte-americano e ao fascismo que, vira e mexe surge como um vírus mortal, descarregando seu ódio e intolerância para com trabalhadores (as), operários (as), camponeses (as), corpos trans, movimentos LGBTQI+ e todas, todes e todos que caminham às margens da moralidade imposta por colonizadores ibéricos. Um povo que vive a todo o momento sob ameaças de perda dos seus direitos e repressões severas cometidas por autoritarismos que surgem e ressurgem do capitalismo nas nações latino-americanas.

É nesse cenário da nuestra américa que as formas mais simbólicas da cultura como a música, despertam como armas de combate às ditaduras e imposições apoiadas pelo imperialismo norte-americano, tendo como referências heróis libertadores como Bolívar, San Martin, Fidel Castro, Che Guevara, entre tantos outros que empunharam até o fim de suas vidas a bandeira da liberdade.

Os anos entre 1960 e 1970 foram determinantes para a música popular latino-americana a partir do surgimento da Nueva Canción, movimento musical que a partir de seus cantos, harmonias e melodias resgatavam a mensagem de integração e liberdade, incorporando as manifestações folclóricas das nações e dando todo o caráter de identidade que se organizava a partir daquele momento.

Preciso aqui destacar três pilares fundamentais para o fortalecimento e disseminação do movimento. São eles: Nueva Canción Chilena, Nuevo Cancionero Argentino e Nueva Trova Cubana.

A partir de então nomes como Violeta Parra, Ángel Parra, Inti Illimani, Victor Jara no Chile, Carlos Puebla em Cuba, Los Fronterizos, Los Chalchaleros, Atahualpa Yupanqui e Mercedes Sosa na Argentina, Alfredo Zitarrosa e Daniel Viglietti no Uruguai, Amparo Ochoa no México, Ali Primera e o grupo Madera na Venezuela, Carlos Mejía Godoy e Enrique Mejías Godoy na Nicarágua, Los Jairas na Bolívia, entre outros (as).

Um grande marco desse movimento foi o Primeiro Encontro da Canção de Protesto que reuniu músicos de toda a América Latina em Havana (Cuba). Dentre os participantes desse evento, podem-se citar: os chilenos Ángel Parra e Rolando Alarcón, os uruguaios Alfredo Zitarrosa, Daniel Viglietti, além dos integrantes do grupo Los Olimareños (Uruguai).

No Brasil, após o golpe militar de 1964 e suas consequências como repressão, exílios e censura, alguns artistas passaram a serem influenciados (as) por todo o movimento que vinha acontecendo na América Latina, fazendo de suas canções cantos de combate ao regime militar instalado no país. O palco para que tudo isso acontecesse foi o Festival da Canção que era televisionado e de onde surgiram muitos desses artistas como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Dércio Marques, entre tantos e tantas artistas que combatiam a censura.

Os (as) artistas eram muitas vezes exilados (as) e quem os (as) recebiam eram outras nações sul-americanas.

Os (as) artistas brasileiros (as) que durante a ditadura militar surgiram e se posicionaram, até hoje são fonte de referência e inspiração para muitos e muitas artistas da Canção Nova na atualidade.

Surgem de lutas e combates por empoderamento, direitos sociais, direito de classe, cantos que ecoam por toda a América a fim de combater a opressão disfarçada de democracia e fazer frente ao fascismo desenfreado e sem escrúpulo que teima em sair do armário e destilar seu ódio de tempos em tempos, gerando ciclos onde se fazem presentes ameaças de golpes de Estado, guerras civis, confrontos, atentados às vidas, religiosos egocêntricos e crises econômicas, sanitárias e sociais que desequilibram ainda mais o continente.

Hoje vivendo uma crise sanitária devido à covid e sobrevivendo com todas as limitações que tanto a crise quanto o sistema nos impõe, nós, artistas da Canção Nova vamos buscando alternativas de comunicação através das ferramentas que dia a dia aprendemos a usar. A internet sem fronteiras e capaz de colocar, simultaneamente num mesmo evento gente de todas as partes do planeta. A partir desse momento, vamos recuperando o ideal integracionista que explodiu nas décadas de 60 e 70 e criando canções que abordam questões reais do nosso novo momento. Assim são os (as) artistas e bandas como Chico César, Ana Cañas, Francisco El Hombre, Baiana System, Emicida, Liniker, Majur, entre tantas e tantos que fazem reviver os ideais das Canções de Protesto na sociedade contemporânea.

Fazer parte desse movimento e poder estar ao lado de artistas latino-americanos por meio do Soy Loco por ti America, encontro que acontece todo dia 18 de cada mês tem sido fundamental pra todos (as) nós.

Reinventamos-nos, nos (re)significamos e estamos com nossas armas (canto e violão) de prontidão para lançar ao mundo o grito de liberdade que nunca coube dentro de uma caixa, de uma cidade ou de um país, pois é infinito, assim como a música. Que possamos estar juntos (as) cada vez mais para a luta que está por vir. Queremos nuestro derecho de vivir em paz.

* Músico, ator, historiador e pesquisador de Cultura Popular Brasileira e Latino-americana.

Instagram: @danilonunes013
Facebook: @danilonunesbr

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko
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