A China apoia os países do BRICS a desempenharem um papel maior na governança global da Inteligência Artificial (IA) e está disposta a trabalhar com todas as partes para contribuir para diminuir a desigualdade na inteligência artificial, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, ao Brasil de Fato/ TVT em coletiva realizada nesta quinta-feira (27), em Pequim.
Lin fez o comentário em função da proposta do Brasil – anunciada ontem pelo presidente Lula –, de lançar este ano a Declaração dos Líderes sobre Governança da Inteligência Artificial para o Desenvolvimento. Lula fez o anúncio nesta quarta (26), durante a sessão de abertura do primeiro encontro de sherpas sob a presidência brasileira do Brics deste ano.
Em tom com o discurso de Lula realizado na quarta na reunião de sherpas, o porta-voz da chancelaria chinesa disse que “a inteligência artificial é uma riqueza comum da humanidade, não deve e não pode ser reduzida a uma ferramenta para manter a hegemonia e buscar vantagens”.
Lula por sua vez disse ontem que “essa tecnologia não pode se tornar um monopólio de poucos países e poucas empresas”.
Big Techs
O presidente brasileiro também criticou a ingerência das Big Techs – que até a recente emergência da DeepSeek dominavam completamente a tecnologia da IA – na política interna de países.
“Grandes corporações não têm o direito de silenciar e desestabilizar nações inteiras com desinformação”, disse Lula.
Como exemplo desse tipo de uso da tecnologia, em 2021 trabalhadores da Google e da Amazon publicaram uma carta aberta denunciando o contrato do chamado Projeto Nimbus para fornecer infraestrutura de computação em nuvem, IA e outros serviços de tecnologia a Israel.
“A tecnologia que nossas empresas contrataram para construir tornará a discriminação sistemática e o deslocamento realizados pelo exército e pelo governo israelenses ainda mais cruéis e mortais para os palestinos”, manifestaram os trabalhadores dessas Big Techs na carta.
Governança da IA como uma das bandeiras do multilateralismo
A governança da inteligência artificial é um dos seis temas prioritários para a presidência brasileira dos Brics deste ano. Os outros são: cooperação em saúde global; comércio, investimento e finanças; combate à mudança do clima; reforma do sistema multilateral de paz e segurança; e desenvolvimento institucional do Brics.
O Secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros e Sherpa do Brasil no Brics, o embaixador Mauricio Lyrio, disse neste momento “em que há dificuldades na operação da governança global por questionamentos a algumas organizações que são centrais”, a posição do Brics é: “queremos ter um papel construtivo, positivo, no sentido de reforçar essas instituições e não enfraquecê-las”.
Lyrio ofereceu uma coletiva de imprensa sobre a Primeira Reunião de Sherpas da Presidência Brasileira do Brics nesta quarta (26). Ele também afirmou que não se trata de uma visão contra nenhum país, confrontacional, “é uma visão que tem a ver com o DNA do Brics, que é: ter uma governança global mais representativa e mais forte”.
Lula diz que o BRICS “precisa assumir” a tarefa de colocar o Estado de volta no centro dos debates para uma governança “justa e equitativa” dessa tecnologia, sob o amparo das Nações Unidas.
“[É preciso] garantir direitos, oportunidades e regras iguais para todos os países, trabalhar em conjunto para criar um ambiente aberto, inclusivo, equitativo e não discriminatório para o desenvolvimento da inteligência artificial e deixar que suas vantagens beneficiem todos os países”, disse Lin Jian na coletiva do Ministério de Relações Exteriores da China nesta quinta (27).
Iniciativas
O governo chinês vem desenvolvendo diferentes iniciativas em relação ao assunto. Em 19 de julho de 2024, criou o Centro de Cooperação e Desenvolvimento de Inteligência Artificial China-Brics, sediado em Xangai. Também lançou em 2023, a Iniciativa para a Governança Global da IA, que afirma a necessidade de “manter uma abordagem centrada nos povos no desenvolvimento da IA”.
A cooperação bilateral entre Brasil e China também vem acontecendo nessa área. Em setembro do ano passado a Academia Chinesa de Tecnologia da Informação e Comunicação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil realizaram um seminário com o objetivo de apoiar o trabalho do Subcomitê de Indústria, Tecnologia da Informação e Comunicações do Comitê de Alto Nível de Coordenação e Cooperação China-Brasil.