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Por que o Oscar de Orfeu Negro, um filme totalmente brasileiro, foi para a França em 1960?

Longa do diretor francês Marcel Camus foi um sucesso internacionalmente e depois refeito pelo brasileiro Cacá Diegues

Enquanto o Brasil vive clima de copa do mundo pela expectativa de um Oscar inédito, uma outra história revela que esse prêmio já podia ter sido nosso há mais de 80 anos.

Às vésperas da premiação, o programa Bem Viver realiza uma série de entrevistas sobre Orfeu Negro, um filme brasileiro que venceu o Oscar, em 1960, mas o prêmio foi pra França.

O longa foi dirigido pelo francês Marcel Camus, e levou a estatueta de melhor filme estrangeiro em 1960. A obra é inspirada na peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinicius de Moraes, que por sua vez adaptou o clássico conto grego de Orfeu e Eurípides para a realidade carioca, levando ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1956, um elenco composto integralmente pelo Teatro Experimental do Negro.

A história virou filme por uma proposta do próprio poeta brasileiro, durante uma das feijoadas que organizava periodicamente em Paris, quando morou na Europa no final da década de 1950.

Quem conta é Joel Zito Araújo, cineasta e pesquisador do cinema brasileiro.

“Reza a lenda que o Vinicius chamou o Marcel Camus para contar sobre essa peça que ele elaborou, e o Marcel ficou encantado, a ponto de ele decidir vir ao Brasil para acompanhar a peça”, conta Araújo em entrevista ao programa Bem Viver desta quarta-feira (26).“Ele decidiu fazer a adaptação da peça para o cinema e rodar tudo aqui no Brasil”, diz.

“Então esse é um filme muitíssimo brasileiro, porque ele nasce de um texto de um poeta brasileiro, Vinicius de Moraes, se inspira numa peça teatral protagonizada pelo Teatro Experimental do Negro, tem um elenco 90% de brasileiros, a atriz que disputou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes foi um atriz brasileira, a Léa Garcia…”

A razão de o Brasil não ter levado a estatueta para casa, porém, é culpa do próprio Brasil. No caso, da embaixada brasileira na França, segundo Araújo.

“Vinícius de Moraes contou em uma entrevista para o Pasquim, que a embaixada brasileira da França se recusou a inscrever o filme no Festival de Cannes como uma coprodução brasileira, italiana e francesa”, conta o pesquisador.

“O Vinícius crítica dizendo que o motivo que levou a embaixada brasileira e o Itamarati a fazer isso foi racismo, porque era um filme que, conforme a embaixada, representava o Rio de Janeiro de uma forma que eles não gostariam que o Brasil fosse apresentado, como se fosse um país negro, quando na verdade o Brasil é ‘um país branco’, do ponto de vista do Itamaraty”

Confira a entrevista na íntegra

Afinal, podemos dizer que foi injusto que o Oscar não veio pro Brasil?

Foi injusto ter ficado só como um filme francês, mas a culpa é nossa. A culpa não é dos franceses, não foi um roubo dos franceses.

Vinícius de Moraes contou em uma entrevista para o Pasquim, que a embaixada brasileira da França se recusou a inscrever o filme no Festival de Cannes como uma coprodução brasileira, italiana e francesa.

O Vinícius crítica dizendo que o motivo que levou a embaixada brasileira e o Itamaraty a fazer isso foi racismo, porque era um filme que, conforme a embaixada, representava o Rio de Janeiro de uma forma que eles não gostariam que o Brasil fosse apresentado, como se fosse um país negro, quando na verdade o Brasil ‘é um país branco’, do ponto de vista do Itamaraty.

Podemos dizer que Orfeu Negro é um filme anticolonialista?

Sim. A história de Orfeu Negro é muito interessante, ela é muito rica, muito detalhada.

Uma vez a Academia Brasileira de Letras me convidou para falar sobre cinema negro no Brasil e eu contei uma história, na qual estava o saudoso Cacá Diegues. De certa forma, foi um pequeno puxão de orelha nele.

Na verdade, não foi só o Itamaraty que recusou o Orfeu Negro como produção brasileira. O pessoal do cinema novo e a crítica de cinema chamou o filme de ‘macumba para turista’.

O filme foi muito criticado. Foi muito criticado no Brasil, mas virou uma unanimidade internacional. Era o filme favorito da mãe do Obama.

O grande impacto do Orfeu é mostrar um Rio bonito em que os negros são tratados de forma bonita. A nossa cultura racista brasileira demorou muito tempo a considerar que os negros possam ser tão bonitos.

Ser bonito ou feio não é uma questão de raça, você tem preto bonito, preto feio, japonês bonito, japonês feio, sabe? Mas no Brasil você tinha um hierarquia racial que colocava no topo da beleza os arianos, uma coisa até meio nazista.

Como foi esse processo da peça ter virado filme?

Essa é uma boa pergunta: o que levou Marcel Camus a pegar uma peça de Vinícius de Moraes, que já tinha sido apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com um elenco negro, com o elenco do TEN, o Teatro Experimental do Negro, criado pelo Abdias do Nascimento?

Reza a lenda que tudo começou em uma feijoada que o Vinícius de Moraes dava quando ele morou na França.

Paris naquele momento vivia uma efervescência da negritude mundial, muitos astros de países africanos e dos Estados Unidos estavam lá. E não só eles. Os encontros de arte envolviam Josephine Baker, Pablo Picasso, Jean-Paul Sartre, Simone Beauvoir…

O Vinícius adorava fazer feijoadas na casa dele, convidando brasileiros e artistas da França. O Haroldo Costa era uma presença constante e foi muito importante para a construção dessa peça que o Vinícius escreveu.

O Vinicius fez algo de vanguarda, de montar uma peça apenas com pessoas negras. Naquela época isso era impensável.

Mas tudo isso é verdade. O que reza a lenda de fato é que o Vinicius chamou o Marcel Camus para contar sobre essa peça que ele elaborou, e o Marcel ficou encantado a ponto de decidir vir ao Brasil para acompanhar a peça.

E de fato ele decide fazer a adaptação da peça para o cinema e rodar tudo aqui no Brasil. E o mais importante é que o Marcel Camus entende o espírito da peça e faz um filme que celebra a negritude.

Então esse é um filme muitíssimo brasileiro, porque ele nasce do texto de um poeta brasileiro, Vinicius de Moraes e se inspira numa peça teatral protagonizada pelo Teatro Experimental do Negro; o filme tem um elenco 90% de brasileiros. A atriz que disputou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes foi um atriz brasileira, a Léa Garcia.


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