Nas eleições alemãs de domingo, as atenções se voltaram para o crescimento do partido de extrema direita. Compreensível, a “Alternativa para a Alemanha” (Alternative für Deutschland, AfD), teve 20% dos votos, dobrou de tamanho em relação ao último pleito e ficou em segundo lugar geral, atrás dos conservadores da democracia cristã, CDU, com 29%.
E na antiga Alemanha Oriental a AfD foi a mais votada, com 36,2% dos votos. A exceção foi a região de Berlim, metrópole cosmopolita. Em Berlim Oriental, A Esquerda venceu, em Berlim Ocidental, a CDU.
A Esquerda
Mas vale a pena ressaltar, também, o desempenho do partido Die Linke (A Esquerda). Renasceu, a partir de duas estratégias: 1) comunicação digital atraente, descontraída, que fala, sobretudo aos jovens, de coisas importantes como moradia e pobreza, em vez de querer lacrar com fake news; 2) trabalho corpo a corpo em que os militantes do partido, durante a campanha, bateram em mais de meio milhão de portas para conversar com as pessoas.
Na Alemanha, o partido que não alcance 5% dos votos totais não tem assentos no parlamento, a menos que eleja, no mínimo, três deputados pelo voto direto. Os votos dos partidos que não superem essa barreira são divididos entre os outros partidos, proporcionalmente à porcentagem que tiveram1.
Até poucos meses atrás, A Esquerda (Die Linke) estava ameaçada de não alcançar esse percentual2. Em dezembro último, as pesquisas lhe davam cerca de 3% das preferências. Em 2024, o partido sofreu um revés, quando a deputada Sahra Wagenknecht abandonou a agremiação, com mais dez colegas, e fundou a Aliança Sahra Wagengknecht (Bündnis Sahra Wagenknecht – sigla BSW). A BSW mistura pautas tradicionais da esquerda, como a defesa de políticas sociais e a denúncia do neoliberalismo, com posições que, supostamente, atrairiam um eleitorado mais à direita, como a crítica aos “excessos” do identitarismo e da política de imigração. Somente 4,97% dos eleitores escolheram a BSW que, assim, não atingiu a barreira dos 5% e não terá representantes no parlamento.
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Na véspera da eleição, as pesquisas, que basicamente acertaram o percentual dos principais partidos, davam, na média, ao partido A Esquerda 6 a 7% das intenções de voto. Teve 8,8%. Parece pouca diferença, mas foi 30 a 40% a mais do que as pesquisas previam.
Juventude, comunicação e política
“A Esquerda” ganhou entre os jovens: 25% dos votos entre os 18 e 24 anos, à frente da AfD e dos conservadores, que tiveram, nessa faixa etária, 21% e 13% respectivamente. E teve, ainda, 15% dos votos na faixa entre os 25 e 34 anos. O partido terá 64 assentos entre os 630 do parlamento alemão – mais de 10%, pois receberá proporcionalmente, como os outros, os votos que foram para os partidos que não alcançaram os 5%.
Será o quinto maior partido, o bastante para lhe garantir a sobrevivência e, mais importante, o futuro, um norte, um rumo: combater o neoliberalismo financeiro a partir da comunicação com o povo e com os jovens.
“Sim, vejam como a comunicação é importante para a política”, podem pensar alguns. É isso? Sim, mas é mais que isso.
Mais que “ser importante” para a política, a comunicação é parte integrante, inarredável da ação. Não há política sem comunicação. Não são, obviamente, dimensões idênticas, mas, como afirmam Juarez Guimarães e Venício Lima, em Liberdade de expressão: as várias faces de um desafio, “há uma relação fundante e incontornável entre elas”.
Não pode, portanto, haver uma “boa e eficiente política”, mas que tenha dificuldade em ser comunicada. Se uma atuação política se dá sem comunicação ou se esta é ruim ou insuficiente, ela não é, em si, uma boa atuação política.
A política e o poder, como dizia Gramsci, envolvem uma mescla dinâmica de força e de consenso: como se cria consenso senão por meio da comunicação? E essa dimensão constitutiva da comunicação para a construção de visões e consensos políticos não caracteriza somente a atualidade, em que nossas vidas são balizadas pelas mídias. Maquiavel, inspiração de Gramsci, também sabia disso – e em sua época não havia internet, TV, cinema, rádio, imprensa estava só no começo.
Exemplos como os de A Esquerda alemã, ou de Lopez Obrador e sua sucessora Claudia Sheinbaum, no México, nos mostram o caminho: não há política sem comunicação!
Rubens Goyatá Campante é doutor em sociologia pela UFMG e pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (CERBRAS)
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Leia outros artigos de Rubens Goyatá Campante em sua coluna no Brasil de Fato MG