O já conhecido CarnaLopo, o Carnaval da Cidade Baixa, é uma festa de rua, que acontece no bairro desde 2022, por iniciativa dos comerciantes locais que se organizaram propondo uma alternativa para celebrar o Carnaval de maneira aberta e democrática. Mas neste ano, o evento vem enfrentando diversos entraves por parte do Poder Público.
Segundo uma das sócias do Povoada Gastrobar, um dos estabelecimentos envolvidos na organização, Clauciane Santos, já no primeiro ano de realização do evento a Prefeitura de Porto Alegre divulgou o CarnaLopo como o Carnaval da Cidade Baixa. Contudo, a estrutura montada pelos pequenos comércios não recebeu nenhum apoio da gestão municipal e o evento que era previsto para umas 200 pessoas – por conta dessa divulgação teve quase 6 mil participantes, o que ocasionou diversos transtornos.
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No segundo ano, os bares decidiram por melhorar o evento: foi montada uma estrutura maior, com três atrações, mais banheiros, mais segurança e gradis para contenção do público. Mais bares da Cidade Baixa entraram como parceiros e o evento foi um sucesso.
Um destaque da edição foi a feira das afroempreendedoras. O público era formado por moradores do bairro e arredores, famílias com crianças e idosos. A festa encerrou às 22h30, pois o alvará da casa permite som até as 23h. Nesta edição, novamente o CarnaLopo entrou como ‘Carnaval da Cidade Baixa’ no calendário da Prefeitura de Porto Alegre.
Nesta, que seria a terceira edição do evento, a organização tem encontrado várias dificuldades para a realização e informações desencontradas vêm dos diversos setores da gestão pública.
Demora nas respostas
Clauciane afirma que o pedido de liberação do alvará para realização de eventos foi solicitado há 90 dias e até agora, véspera da festa, não houve nenhuma resposta por parte da secretaria. Ela desconfia que uma resposta não virá até a data do evento. Segundo afirmou ao Brasil de Fato RS, acredita ser uma estratégia para impossibilitar qualquer pedido de recurso ou adequação após uma negativa.
Ela destaca que a estrutura do CarnaLopo não depende de recursos públicos. “Os quase R$ 12 mil de custo operacional são rateados entre os próprios empreendedores locais.”
Clauciane diz que o grupo acredita que a Cidade Baixa é um bairro que merece ser mais bem-visto aos olhos da prefeitura, com o direito a ter uma vida noturna como qualquer outro bairro da cidade. A CB, como é conhecido, sofreu sérios impactos com as enchentes de 2024 e que “essa seria uma oportunidade de trazer público de outros bairros para o local”.
“A gente foi diretamente afetado [pela enchente], porque a gente ficou quase dois meses com o bar fechado. Não entrou água no nosso estabelecimento, mas a gente perdeu o nosso estoque por causa da luz. Ficamos dois meses fechados, sem poder trabalhar. As meninas que são as afroempreendedoras, a maioria mora na zona Norte, nos bairros Sarandi, Rubem Berta, Humaitá. Elas foram afetadas diretamente, inclusive, elas estão fazendo produção para esse evento desde setembro, sabe? É uma grana muito boa que entra para elas. Por quê? Porque é um grande número de pessoas que estão vendo o trabalho delas.”
O que diz a Prefeitura
Procurada pela redação do Brasil de Fato RS, o escritório de eventos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (SMDET) relatou que, neste ano, o Carnaval de Rua da Cidade seria viabilizado via edital da Fumproarte. No entanto, o edital, que visa a realização dos desfiles de blocos de rua, porém em outra data, fora da semana do Carnaval, teve seis inscritos e apenas três habilitados. Ele se adequava a blocos de rua e desfiles, mas não houve nada que fizesse menção ao apoio de bares, pontos de cultura e estabelecimentos comerciais da região.
Favorecimento
Essa semana, o site Matinal divulgou que a Secretaria de Cultura de Porto Alegre deixou de executar R$ 2,8 milhões em recursos oriundos de emendas parlamentares e que pouco se fez pela retomada das atividades culturais dessa região da cidade. O bairro onde cresceu Lupicínio Rodrigues hoje luta contra a especulação imobiliária e para manter sua principal atividade, com pouco ou nenhum incentivo da gestão atual.
O mesmo não parece ocorrer em outros bairros da cidade. No 4º distrito, bares já fazem a divulgação das atividades de Carnaval, como também já garantiu o alvará para sua realização. Um deles é o Larica, estabelecimento de propriedade de Eduardo Baldasso, que até poucos dias atrás ocupava o cargo de diretor financeiro da Secretaria de Desenvolvimento e Economia Criativa da Porto Alegre.
A assessoria de imprensa do escritório de eventos da Prefeitura também foi questionada pela nossa redação quanto aos critérios de liberação do alvará. Num primeiro momento alegaram que a ocorrência de diversas obras no Centro Histórico inviabilizaria a realização dos eventos. Em seguida, passou a responsabilidade aos órgão de segurança.
“A segurança e o bem-estar dos cidadãos sempre foi e sempre será prioridade. A decisão de, provisoriamente, interromper a realização de eventos de rua no bairro Cidade Baixa foi tomada pelos órgãos responsáveis pela segurança do espaço. Devido à alta demanda de eventos e à concentração de pessoas no local, seria necessário reforço no efetivo, questão que está sendo analisada e estudada uma solução.”
Cabe relatar que o mesmo batalhão da BM é responsável pelo patrulhamento de ambos os locais. Contatadas pela redação a BM diz não saber do que se trata a decisão.
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Providências
Os organizadores do CarnaLopo protocolaram no dia 20 de fevereiro um pedido de providências junto ao gabinete do vereador Giovani Culau. O grupo ainda está promovendo um abaixo-assinado com a expectativa de que mais pessoas tomassem conhecimento da situação.
Para Clauciane, todos os bairros da cidade são iguais. “O mesmo imposto que é pago no 4º Distrito é pago aqui. Queremos entender o motivo do tratamento ser diferente.”
Outro possível entrave seria a recusa da Associação de Moradores da Cidade Baixa, por conta do barulho. No entanto, Clauciane afirma que foram atrás de uma associação de moradores e descobriram que não existe associação atualmente no bairro. “Existe um decreto de 2016 que a Prefeitura aceitou, que foi uma reclamação do Ministério Público assinada por seis moradores. E desde então a Prefeitura se vale disso para não permitir mais Carnaval na Cidade Baixa. A gente está com mais de mil assinaturas, quer dizer que as nossas mil assinaturas valem menos do que aquelas seis assinaturas lá de 2016?”
Ela ainda destaca a importância de ter movimento na região. “A gente percebe que existe uma vontade de fechar os bares da CB. Mas quando os bares aqui estão fechados, ali no meio da quadra, para baixo, em direção a Lima e Silva, o bairro fica muito perigoso, com alto índice de assaltos. A gente vê os moradores falando que foram assaltados, que carros foram arrombados. Porque não tem iluminação, não tem segurança. A gente, estando ali, a gente está fazendo aquele ambiente mais seguro, tendo movimentação, tendo pessoas na rua.”
Dentre os organizadores do evento, estão os estabelecimentos: A Vida É Uma Festa, Sirène, Cervejaria DaLuz, Oito Cervejaria, Conexões Afrotéia, Narrativas Negras do Sul – essas duas são um conjunto de 15 a 20 afroempreendedoras – a Feira reúne mais ou menos 20 expositoras, seis foods trucks, e as artistas Roberta Moura e Trio Mande e o Bloco Axé Que Enfim. A estimativa é que o evento gere cerca de 100 empregos diretos.
Uma reunião da Procuradoria Geral do Município com o Ministério Público está agendada para o final da tarde desta quarta-feira, para discutir o caso.
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