A primeira reunião de representantes, os chamados “sherpas”, dos países que fazem parte dos Brics, finalizou nesta quarta-feira (26), em Brasília (DF), após dois dias de debates. Desde janeiro, o Brasil assumiu a presidência rotativa do bloco. Em coletiva de imprensa, após o encerramento do encontro, o secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério de Relações Exteriores (MRE), o embaixador Maurício Lyrio, afirmou que houve convergência sobre a possibilidade de levar à Cúpula de Líderes, marcada para os dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro (RJ), propostas para uma declaração conjunta sobre as mudanças climáticas e as ações necessárias para o enfrentamento da crise.
“Nós ficamos muito satisfeitos com a boa a reação que tivemos no caso de mudança do clima também. O próprio presidente da COP [André Corrêa do Lago] fez uma apresentação das prioridades brasileiras, que também foram muito bem recebidas. Inclusive iniciando a negociação de uma declaração específica sobre o tema para a Cúpula dos Líderes, pensando que essa é uma mobilização que o governo brasileiro vem fazendo com vistas a uma COP muito bem-sucedida no final do ano”, disse embaixador, em referência à COP30, que será realizada em Belém (PA), no mês de novembro.
Lyrio fez um resumo positivo dos temas debatidos no fórum. “A avaliação da presidência brasileira é de que a reunião foi muito boa ou, pelo menos, foi exatamente como nós gostaríamos que tivesse ocorrido. Houve amplo apoio às prioridades que o Brasil estabeleceu e à linha das prioridades que o Brasil estabeleceu para a presidência brasileira”, destacou o embaixador.
Indireta a Trump
Em outra seara, o embaixador destacou que a construção de uma aliança para a erradicação de doenças socialmente determinadas e doenças tropicais negligenciadas é prioridade máxima da presidência brasileira no bloco. “Da mesma maneira que nós tivemos a Aliança Global Contra a Fome no G20, essa aliança ou parceria na área de saúde, justamente centrada em doenças que incidem mais sobre os países emergentes e é uma das mais altas prioridades do grupo, e isso foi muito bem acolhido”, disse Lyrio, ressaltanto a necessidade de fortalecimento das organizações multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Pela manhã, em declaração aos sherpas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a enviar indiretas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que anunciou a retirada do país norte-americano da OMS. “Sabotar a Organização Mundial da Saúde é um erro com sérias consequências”, disse o mandatário brasileiro. Entretanto, Lyrio evitou atribuir a priorização do tema a uma resposta à medida de Trump. “Não é uma visão contra nenhum país, não é uma visão confrontacional”, disse o diplomata.
Outros temas
De acordo com o sherpas brasileiro, houve pleno apoio dos representantes dos países membros do Brics a uma revisão da chamada parceria estratégica na área econômica, sobretudo na avaliação de novos mecanismos que facilitem o intercâmbio comercial. Ele afirmou ainda que houve um consenso sobre a necessidade de uma governança global em relação ao uso da inteligência artificial e dados.
“Também houve amplo apoio a ideia de que o Brics trabalhe por uma governança de inteligência artificial, que seja o mais inclusivo possível, tendo as Nações Unidas no centro dessa governança. Existe um diagnóstico mais ou menos consensual de que o tema da inteligência artificial tem que ser tratado como um tema de governança global, mas com uma visão inclusiva, e não exclusiva e fragmentada. Então houve acordo inclusive para que nós tenhamos também documentos ou princípios para governança de inteligência artificial”, afirmou Lyrio.
Finalmente, um último tema de debate foi o próprio funcionamento do bloco, com a indicação de revisão dos termos, e a definição de uma regra para a presidência rotativa do Brics, a partir da entrada de novos membros. Segundo o embaixador, a proposta brasileira é que se esgote a rotação entre os membros originais e, somente após isso, se iniciaria um novo cronograma, de acordo com a ordem alfabética dos membros.
“A avaliação da presidência é que o grupo realmente se mostrou muito coeso na reafirmação da importância da centralidade do multilateralismo, do direito internacional, das normas internacionais dos regimes internacionais”, declarou Lyrio. “Nós queremos mais multilateralismo”, completou.
Próximos encontros
Em abril, haverá a reunião de chanceleres do Brics, para dar encaminhamento às propostas surgidas da reunião de sherpas. Até lá, foram criados grupos de trabalho para discutir os diversos temas relacionados aos ministérios do governo. Já a Cúpula de Chefes de Estado ocorre nos dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro.
Além do Brasil, o bloco é composto também por Rússia, Índia, China e África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos. Outros nove países participam do Brics na categoria “parceiros”, sendo eles, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Nigéria.