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Fespaco e Brasil: encontros de um cinema negro transatlântico

A cada dois anos, Ouagadougou, em Burkina Faso, se transforma no ponto de encontro para cineastas, pesquisadores e espectadores

O Fespaco não é apenas um festival de cinema, mas um espaço de celebração, intercâmbio e fortalecimento das relações Sul-Sul por meio do audiovisual. A cada dois anos, Ouagadougou, em Burkina Faso, se transforma no ponto de encontro para cineastas, pesquisadores e espectadores que compartilham a construção de imagens que desafiam narrativas coloniais e reafirmam a pluralidade das experiências negras.

Desde 1969, o Fespaco tem sido um catalisador da união nacional em Burkina Faso e um símbolo de afirmação da autonomia do cinema africano. Mas a descolonização das telas não acontece isoladamente. A presença da diáspora no festival fortalece conexões históricas e contemporâneas, e o Brasil, com sua profunda herança africana, encontra nele um espaço essencial para ampliar diálogos e colaborações.

O Prêmio Paul Robeson, criado em 1989, reforçou essa ponte transatlântica ao reconhecer produções da diáspora africana. Naquele ano, o documentário “Ôrí”, de Raquel Gerber, venceu o prêmio, trazendo a voz de Beatriz Nascimento para o centro do debate sobre identidade negra e resistência no Brasil. Em 2019, Meu Amigo Fela, de Joel Zito Araújo, também foi premiado, ampliando essa conexão ao explorar a vida do músico pan-africanista Fela Kuti.

O diálogo entre o cinema negro brasileiro e africano tem raízes profundas. Zózimo Bulbul foi uma figura essencial nesse intercâmbio, promovendo encontros que ampliaram o alcance do cinema negro brasileiro no cenário internacional. “Zózimo Bulbul, foi a primeira pessoa que eu ouvi falando sobre o Fespaco, ele foi, ou melhor, Zózimo É a ponte que ligou diretamente as pessoas negras do Brasil realizadoras de cinema com os realizadores de cinema do continente africano. Digo isso, pois foi Zózimo que apresentou o cinema feito por pessoas negras no Brasil para o mundo, pois, antes, os curadores brancos, que levavam filmes brasileiros para o continente africano e diáspora, afirmavam que não existiam pessoas negras cineastas no Brasil”, afirma Janaína Oliveira ReFem. “E para provar que existíamos ele criou os Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, Brasil, África, Caribe e Outras Diásporas em 2007, que apresentou ao mundo o cinema feito por cineastas negros no Brasil. O Fespaco era o festival de referência para o Zózimo”.

Além de apresentar o festival a cineastas brasileiros, Zózimo organizou missões que levaram nomes como Viviane Ferreira, Joel Zito Araújo, Jeferson De, Luciano Vidigal e Carmen Luz e a própria Janaína Oliveira ReFem a conhecerem o evento e a fortalecerem esse intercâmbio. Essas experiências não apenas proporcionaram a exibição de filmes, mas fomentaram colaborações e diálogos duradouros entre realizadores da diáspora e do continente africano.

Em 2023, o Fianb (Festival Internacional de Audiovisual Negro do Brasil) trouxe o tema “Transatlanticidades”, reforçando esse diálogo ao realizar um seminário internacional sobre o Fespaco e a presença da diáspora afro-atlântica no festival. Durante um dos painéis, a curadora e pesquisadora Janaína Oliveira exibiu uma foto de Lélia Gonzalez ao lado de Haile Gerima e Safi Faye, provavelmente tirada no Fespaco de 1989. Essa imagem simbolizou a conexão entre festivais e inspirou o tema do Fianb 2024: “Cinema em Pretuguês”.

Na edição de 2025 do Fespaco, o Brasil amplia sua presença com diferentes produções. Malês, de Antônio Pitanga, revisita a Revolta dos Malês na Bahia, destacando a ancestralidade e a resistência negra. Mariana Jaspe apresenta os filmes Deixa e Quem é essa mulher, ampliando a representatividade do cinema negro brasileiro no festival. Othelo, o Grande, dirigido por Lucas Rossi, também integra a seleção oficial, assim como Zion, de Licino Januário, reforçando a diversidade da produção cinematográfica do Brasil na programação.

Participar do Fespaco não é apenas uma oportunidade de exibição. É um compromisso com um cinema negro que se reconhece como parte de um movimento maior, que atravessa continentes e ressignifica histórias. O Brasil tem muito a ganhar ao se inserir ativamente nessa conversa, consolidando sua cinematografia negra como uma peça fundamental no fortalecimento das relações Sul-Sul e na construção de novas narrativas.

O Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine) tem produzido uma série de conteúdos sobre o Fespaco, disponível em: www.ficine.org.

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