O carnaval do Distrito Federal agoniza, mas não morre. Apesar das cifras milionárias e da vontade de artistas e carnavalescos de fazer acontecer, a folia da capital federal, que tem como principal marca a confluência entre expressões culturais de todo o país, sofre com a falta de planejamento governamental e o sucateamento da Secretaria de Cultura do DF (Secec-DF).
O Governo do Distrito Federal (GDF) parece ignorar a máxima de que a pressa é inimiga da perfeição e obriga os foliões a criarem verdadeiros milagres de carnaval, em cima da hora. O resultado final dos blocos que foram contemplados com o incentivo público do edital DF Folia 2025, por exemplo, foi divulgado no dia 31 de janeiro, apenas três semanas antes do início das festividades, que começou com o Pré-Carnaval. Já as Escolas de Samba do DF foram informadas no dia 20 de janeiro de que o desfile, mais uma vez, não aconteceria.
“A notícia foi recebida na comunidade como um balde de água fria”, conta Geovanny Silva, vice-presidente da Capela Imperial, escola de samba de Taguatinga, região administrativa do DF. “A decisão do GDF em não aportar os recursos suficientes para que tivesse desfile, para que todas as escolas tivessem na avenida, é algo lamentável. A cultura popular precisa ser mais respeitada. As tradições da cultura brasileira, do carnaval, do samba, são pilares importantes demais na nossa sociedade, e precisam ser valorizadas tais como as obras dos viadutos, em que são milhões e milhões gastos por aí”, lamenta o carnavalesco.
É que para os artistas e a comunidade envolvida, o Carnaval começa muito antes de fevereiro. São meses de preparação, de confecção de fantasias e de outros materiais, de ensaios e de montagem de repertórios musicais. Essa necessidade de planejamento, no entanto, parece ser ignorada pelo GDF.
“Há uma dificuldade de diálogo”, avalia Miranda Almeida, co-coordenador da Escola Carnavalesca, projeto produzido pelo Instituto No Setor. “Nós fazemos alguns milagres de rodar um carnaval de vários dias, às vezes, com pouquíssimo tempo de planejamento efetivo. Você pode planejar e pensar num ideal, mas isso tudo muda quando vemos o dinheiro que teremos acesso. Até ter a certeza de financiamento, de autorização e de editais, você fica um pouco de mãos atadas. E na hora de sair [com os blocos], normalmente temos que correr com algumas mudanças, impreterivelmente”, destaca Almeida.
Confluência no Carnaval do DF
A identidade carnavalesca do DF se confunde com a própria criação de Brasília: uma história escrita por muitas mãos e marcada pela mistura cultural de diferentes regiões do país. As primeiras experiências de folia local acontecem já na década de 60, junto com a abertura da cidade, com inspirações nas culturas carnavalescas de outros estados, como as celebrações do Rei Momo, tradição carioca.
Ao longo das décadas, a multiculturalidade se consolida, com a criação de blocos, fanfarras e escolas de samba. O resultado é uma folia que celebra a diversidade brasileira: para além do samba, o maracatu, o frevo, o coco de roda e tantas outras expressões culturais colorem o carnaval da capital federal.
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Para Miranda Silva, a principal característica da identidade carnavalesca do DF é a “confluência”. “O Cerrado já tem essa potência, um lugar do qual partem nascentes e biomas. Quando a gente fala do Distrito Federal, é um lugar que foi erguido por muitas mãos. Era um território já ocupado, antes de virem outras pessoas e subirem uma cidade. Todas as regiões conversam e estão nesse espaço. E isso se reflete no Carnaval, que é uma festa de tradições. É uma cultura que carrega várias outras culturas”, explica.
Além dos desafios impostos pelo governo, os fazedores de cultura entendem que ainda há uma falta de autoidentificação da população do DF com a cultura carnavalesca local. “Não é só o carnavalesco fazendo Carnaval, o próprio folião precisa ser educado quanto ao fazer carnavalesco”, afirma Silva.
É com essa proposta que surge a Escola Carnavalesca, um projeto gratuito produzido pelo Instituto no Setor com o objetivo de promover a cultura carnavalesca e a identidade cultural do DF, por meio da teoria e da prática. Com uma pedagogia lúdica, o curso rememora os marcos históricos, as personagens e os espaços que moldam a cena cultural de Brasília, além de perpassar as etapas da produção do carnaval.
“São pessoas que hoje são símbolos, são significativas, mas que às vezes o público que só festeja, que só está nesse momento da festa, que é muito importante, não vê esses bastidores. A gente começa, no curso, a se revisitar, a se reconhecer, a se rememorar. Porque o Carnaval é a mistura do sagrado com profano e é o momento de uma liberdade individual e coletiva”, relata Ava Scher, co-coordenadora da Escola Carnavalesca.
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Carnaval é direito à cidade
O Distrito Federal, apesar do impacto causado pela pandeia da Covid-19, tem forte tradição de blocos de rua. Para 2025, a Secretaria de Cultura do DF lançou o edital DF Folia com um aporte de recursos de R$ 7,575 milhões. Esse valor foi dividido entre 62 blocos de rua e três territórios carnavalescos, em fatias que dependem do tamanho do público de cada um.
A seleção dos blocos contemplados foi marcada por questionamentos e acusações de falta de transparência nos critérios adotados. Blocos tradicionais, como Suvaco da Asa, Baratona, Baratinha e Asé Dudu, não foram selecionados. O resultado foi revisto e alguns foram reintegrados. A seleção final foi divulgada no dia 31 de janeiro, pouco antes do início da festa. A Secec-DF anunciou que, após pedidos da comunidade, a folia duraria um mês, com início do Pré-carnaval no dia 15 de fevereiro.
Dos blocos anunciados em publicações da Secretaria a respeito da programação do DF Folia 2025, mais da metade desfilará pelas ruas do Plano Piloto, um total de 35. Outras regiões administrativas de destaque são Ceilândia, Águas Claras e Taguatinga, que receberão três blocos, cada uma. As ruas da Estrutural terão dois blocos.
Já São Sebastião, Gama, Vila Planalto, Paranoá, Riacho Fundo I, Guará, Samambaia, Varjão, Park Way e Núcleo Bandeirante terão, cada, um bloco de rua selecionado pelo DF Folia 2025. Os dados mostram que o carnaval de rua do DF ainda não alcançou a descentralização esperada.
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Para Rafael Reis, coordenador do Instituto No Setor, a realização do carnaval na região central é importante, desde que sejam garantidas condições para que pessoas de todas as regiões participem – por exemplo, com transporte gratuito.
“Ainda existe um estranhamento de se ver a periferia ocupando o centro da cidade durante Carnaval. O Instituto No Setor enxerga o Carnaval como esse instrumento de promover o encontro da cidade e garantir que quem vem durante a semana para trabalhar, para servir o café, para trabalhar no posto, na padaria, venha também no Carnaval, nos feriados, nos finais de semana, para ocupar a cidade e ter esse direito à cultura garantido”, destaca.
Segundo Reis, falta ao governo, mas também à população, reconhecer o potencial e a importância do carnaval para o impulsionamento econômico do DF.
“O carnaval é uma manifestação cultural que tem um poder de mobilização da economia criativa e das cadeias produtivas do Carnaval, que tem um potencial gigantesco de geração de emprego, de arrecadação de imposto, de atração de turista. E eu acho que o governo ainda não entendeu a importância. E por não entender a importância, não coordena o Carnaval como deveria ser coordenado”, avalia Reis.
“O desafio maior é a gente convencer a cidade de que o carnaval é importante. E eu sinto hoje que o brasiliense não está 100% convencido da importância do carnaval para o desenvolvimento econômico da cidade. Porque ganha o ambulante, ganha o dono do do restaurante, ganha o motorista de transporte por aplicativo, ganha a cidade como um todo”, pondera.
Mais um ano sem desfile de Escolas de Samba
Ano novo, decisões políticas repetidas. Como já havia acontecido em 2024, por mais um ano o GDF anunciou que não haverá desfile das Escolas de Samba no Carnaval. O anúncio foi feito no dia 20 de janeiro de 2025, após reunião da Secec-DF com representantes das escolas e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
“Depois de ouvir os pleitos da comunidade do Samba, ficou decidido que o recurso de R$ 4,5 milhões , que já foi liberado para este ano, será investido no Carnaval do Samba de 2026, garantindo um espetáculo ainda mais grandioso!”, anunciou a Secretaria em postagem em uma rede social.
A pouco mais de um mês do Carnaval, a preparação das escolas de samba já estava avançada, na expectativa do recurso prometido. A Capela Imperial, escola de Taguatinga com 49 anos de história, já realizava a confecção dos protótipos das fantasias que iriam para a avenida e o samba-enredo já estava na ponta da língua da comunidade.
“Já estávamos nos ajustes finais para colocar a escola na avenida. Então quando saiu a notícia, foi muito desanimador, a comunidade toda ficou muito triste”, conta Geovanny Silva.
“As Escolas de Samba são fundamentais para a cultura, para a identidade carnavalesca em Brasília e no Brasil. É uma das tradições reconhecidas mundo afora. Aqui em Brasília essa tradição é muito forte, desde a fundação da cidade. As escolas foram fundadas logo no início”, destaca o vice-presidente da Capela Imperial, fundada em 1976.
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Segundo União das Escolas de Samba e Blocos de Enredo do DF (Uniesbe-DF) a decisão de não realizar o desfile em 2025 foi motivada pela falta de recursos financeiros suficientes e de tempo hábil para a organização. “Solicitamos à Secretaria de Cultura e demais órgãos competentes a implementação de ações alternativas que garantam a continuidade das atividades carnavalescas, mantendo viva a chama do samba e proporcionando à população momentos de cultura e alegria”, afirmou a entidade em nota.
A Secec-DF prometeu que buscará apoio financeiro junto à Câmara Legislativa do DF (CLDF) para complementar os recursos destinados aos desfiles futuros. “Além disso, a Secec já está trabalhando em uma nova edição de Carnaval, que será realizada ao longo de 2025, com o objetivo de fortalecer as atividades das comunidades de samba durante todo o ano”, completou a pasta.
Para o vice-presidente da Capela Imperial, o cenário para 2026 ainda é de incerteza. “O governo falou que tem apenas cerca de 50% do [valor] necessário. Então ainda está muito nebuloso esse processo. Temos muita esperança, as escolas estão unidas, estão buscando alternativas para o seu próprio financiamento”, afirma.
O último desfile de Escolas de Samba do DF aconteceu em 2023, em um Carnaval fora de época realizado no mês de junho. Antes disso, o espetáculo passou por um hiato de quase dez anos, com uma longa tradição de desfiles que foi interrompida em 2014.
“Estamos buscando ajuda de todas as formas possíveis para concretizar esse retorno que é fundamental para a Brasília. E para as escolas estarem fazendo o que mais sabem: dar alegria para o povo, mostrar esse grande espetáculo artístico que reúne várias linguagens da nossa cultura”, promete Silva.
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