Na última semana, as redes sociais foram inundadas por uma série de vídeos nos quais agricultores do agronegócio estariam supostamente jogando alimentos no lixo para forçar o aumento dos preços, uma prática já divulgada em outros momentos. Por outro lado, movimentos populares utilizaram o assunto em evidência para reforçar a necessidade de reconhecer a comida como alimento e não apenas como um produto para geração de lucro.
Com um novo período de disparada dos preços dos alimentos, o Brasil voltou ao debate sobre o contraste entre a produção de grãos para exportação, onde o país ocupa a quarta posição, e a produção de alimentos da agricultura familiar, que perde cada vez mais espaço de plantio, dando lugar às commodities.
“A lógica do alimento tem que ser produzir para sustentar o povo brasileiro, essa é a função e a missão da agricultura familiar brasileira, não simplesmente para o lucro. É justo que os camponeses, que os produtores recebam pelo seu trabalho, mas o objetivo principal é sustentar e garantir dignidade para a classe trabalhadora brasileira”, explica Paulo Mansan, idealizador e coordenador do programa Mãos Solidárias.
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Apesar da incerteza da origem dos vídeos que circulam nas redes sociais, a prática de jogar fora parte do cultivo é historicamente adotada pelo agronegócio quando há aumento da oferta de determinado alimento, o que causa baixos preços nas prateleiras e, segundo produtores, torna inviável a venda.
No entanto, Paulo Mansan lembra que a produção, mesmo em larga escala, só é possível graças a investimentos públicos, por meio de créditos e financiamentos, a exemplo do Plano Safra, para o qual o governo federal anunciou extraordinários R$ 4 bilhões para o ano de 2025.
“A nossa comida não pode servir simplesmente para a especulação, inclusive produção de comida financiada com dinheiro público, com empréstimo dos bancos. Lugar de alimento é na mesa do povo brasileiro. Lugar de alimento não é no lixo”, pontua Mansan.
Em contraponto à prática de descarte, iniciativas do campo popular realizam doações de alimentos excedentes da produção para quem não tem o que comer.
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Uma dessas iniciativas é o projeto Mãos Solidárias, onde alimentos das áreas de reforma agrária são recebidos por pontos como Cozinhas Solidárias e preparados para a montagem de marmitas que são doadas nas periferias das grandes cidades.
“Estamos com uma ampla rede de bancos populares de alimentos, onde pegamos doações de assentamentos da reforma agrária e unidades de agricultura familiar camponesa e distribuímos para dentro das cidades. Nós podemos dizer que em volta do MST temos mais de 250 cozinhas que fazem e distribuem comida para quem mais precisa nas periferias das grandes cidades”, explica Mansan.
Reconhecido internacionalmente, em 2024 o projeto Mãos Solidárias recebeu o prêmio Pacto Contra Fome, entregue pelas União das Nações Unidas (ONU), e foi integrado ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do governo federal, possibilitando assim o cadastramento de ações em todo o país.
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Na última semana, a Cozinha Solidária Casa do Povo, localizada em Maceió (AL), doou uma tonelada de alimentos para o bairro da Levada.
“Fazemos distribuição de alimentos para as pessoas em situação de rua e, agora, com a instituição das Cozinhas Solidárias como política pública, estamos fortalecendo a prática solidária […] no último dia 19 de fevereiro, distribuímos cerca de uma tonelada de alimentos. É o povo sendo solidário com o povo”, explica a coordenadora da Cozinha, Weldja Marques.
Responsável pela aquisição, armazenamento e políticas de acesso a alimentos no Brasil, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) fala sobre a alta nos preços dos alimentos e destaca que o desmonte do órgão no governo passado zerou os estoques públicos.
“A verdade é que o governo passado desmontou o Plano SAF da agricultura familiar, extinguiu o MDA, a Conab que encaminhava as funções, zerou os estoques públicos, fechou boa parte dos armazéns da Conab, que é a estrutura para fazer estoque, agora estamos remontando. Para todos os agricultores que optarem por produzir comida, a taxa de juros 3%, se for de produção orgânica, é de 2%”, explica o presidente da Conab, Edegar Pretto.
Para alavancar o estoque público de alimentos e atuar no combate à fome, a Conab anunciou uma chamada extra do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS) e o mínimo de 50% de participação feminina.
“O PAA voltou com muita força. São 2.900 cooperativas vendendo para o PAA e temos uma variedade de quase 400 tipos de alimentos ofertados, onde compramos direto do agricultor, sem atravessador, pagamos um preço melhor e essa comida simultaneamente ajuda a combater a fome não só na quantidade, mas também na qualidade, que é muito importante”, pontua Edegar.