Lula, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e deputado federal constituinte, em 1987: “Unir a classe trabalhadora. Se a gente não fizer isso, não estaremos colocando em prática essa frase histórica, repetida por nós em quase todos os discursos, que é a chamada unidade. Estamos no caminho certo. Hoje, a classe trabalhadora começa a perceber que a Constituinte poderá abrir um pouco de espaço, mas os grandes problemas da classe trabalhadora, da distribuição de renda, não serão resolvidos na Constituinte. Formar a classe trabalhadora. Estou dizendo isso para mostrar que nós precisamos, enquanto partido político, ter a capacidade de utilizar todos os mecanismos possíveis à nossa disposição para tentar fazer com que a classe trabalhadora se transforme em uma classe trabalhadora socialista”. (1917*1987. SOCIALISMO em debate, Instituto Cajamar, p. 258 e ss).
Luiz Carlos Prestes, ex-Secretário Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1987: “Atravessamos um momento muito delicado da história do nosso povo. A situação das massas é de miséria cada vez maior. A política do governo é de descarregar todas as dificuldades da crise nas costas da classe trabalhadora. Portanto, nada mais importante do que compreender a necessidade da luta por uma outra ordem social, em que se assegure realmente a liquidação da exploração do homem pelo homem também em nosso país”. (Idem, p. 226 e ss).
Clara Charf, membro do Diretório regional do PT de São Paulo, em 1987: “Nós, da velha geração, fomos educados de maneira muito idealista na concepção da transformação da sociedade. Tão idealista que nós achávamos realmente que fazer a revolução resolvia todos os problemas. Isso marcou tanto a nossa formação, que nós temos dificuldade, às vezes, para aceitar determinadas críticas, porque comparamos e vemos que o socialismo é incomparavelmente melhor que o capitalismo”. (Idem, p. 104 e ss).
Olívio Dutra, deputado federal constituinte, em 1987: “Creio que nós, comunistas, socialistas, cristãos, marxistas, todos os matizes de revolucionários, teríamos de construir uma proposta de novo Estado. E essa é uma tarefa que se faz a partir do aqui e do agora. O socialismo não é apenas a sociedade dos homens livres. É isto, e muito mais: se o socialismo não possibilitar que todos os homens se realizem e que o homem todo também se realiza, ele não vai ser o socialismo. Como não diluir, não eliminar no coletivo o indivíduo, a pessoa, essa é uma questão-chave na luta e na construção do socialismo”. (Idem, p. 55 e ss).
Leonardo Boff, teólogo franciscano, em 1987: “Teologicamente, o socialismo cria condições econômicas, políticas e sociais melhores que o capitalismo para o cristão poder viver a sua utopia, os seus ideais religiosos. É muito mais fácil ser cristão num regime socialista do que no regime capitalista. Aqui você é cristão na contradição, na profecia, na mentira, no protesto, ou então se sujeitando a espiritualizar todos os valores cristãos. Como dizia Fidel Castro, num diálogo longo com alguns teólogos da libertação: `Em Cuba é mais difícil fazer pecados mortais do que no sistema capitalista”. (Idem p. 24 e ss).
O livro 1917*1987, SOCIALISMO em debate, do Instituto Cajamar, de agosto de 1988, diz na sua Apresentação: “Ao promover o Seminário Internacional 70 anos de Experiências de Construção do Socialismo, o Instituto Cajamar comemorou estas sete décadas de história discutindo e avaliando a trajetória concreta da luta pelos ideais socialistas. Para este debate foram convidados líderes sindicais, lideranças populares e dirigentes partidários brasileiros, durante anos impossibilitados de conhecer e debater os diferentes processos de luta e construção do socialismo desenvolvidos em outros países”. (1917*1987 SOCIALISMO EM DEBATE, Instituto Cajamar, Coleção Universidade Livre dos Trabalhadores, agosto de 1988).
Além das presenças e participação de Lula, Prestes, Clara, Olívio e Leonardo, referidos acima com trechos de suas falas no Seminário, acontecido entre 20 a 24 de novembro de 1987, no Instituto Cajamar, em São Paulo, estavam presentes e participantes dezenas de dirigentes e militantes: Paul Singer, Apolônio de Carvalho, Aloísio Mercadante, Jacó Gorender, Wladimir Pomar, Emir Sader, Gilberto Carvalho, Eduardo Suplicy, Jair Meneguelli, Marco Aurélio Garcia, Paulo Vanuchi, Vicente Paulo da Silva, Luís Gushiken, José Dirceu, Clóvis Ilgenfritz, Marcos Arruda. Participei como deputado estadual do Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul. Eram os debates que eram feitos no final dos anos 1970 e nos anos 1980 Brasil afora.
Escrevo e faço esta memória num tempo e ano especial. Há 50 anos, no final de 1975, fui expulso da PUCRS, sendo representante geral dos alunos, em nome do DCE, junto à Reitoria, Reitor Irmão José Otão. Há algumas semanas, via o Escritório Vecchio/Emerim Advogados, entrei com processo de anistiado político, segundo prevê a Lei de Anistia. Além disso, agora no final de fevereiro, através de Portaria do Ministério da Saúde, fui indicado membro titular do Comitê da PNEP-SUS, Política Nacional de Educação Popular em Saúde, SUS, em nome do CEAAL Brasil, Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe, do qual Paulo Freire foi o primeiro presidente, e da ONG CAMP, Centro de Assessoria Multiprofissional.
Estamos em 2025, tempos de uma grave crise climática, de guerras, de violência de todos os tipos, de neoliberalismo ultraneoliberal, com paz, direitos e democracia ameaçadas.
Mais que nunca este é um tempo de retomar estudos, debates e ações de um projeto estratégico de sociedade, como o realizado pelo Instituto Cajamar em 1987. É fundamental recuperar os valores e construir uma Sociedade do Bem Viver, uma sociedade socialista, com distribuição de renda, igualdade social, políticas públicas com participação popular. Relembrar, sim, com saudade o ontem, mas principalmente fazer do hoje um tempo de futuro e esperança. Freireanamente, ESPERANÇAR.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.