“Porque você se veste de índio? Não entendo essa sua mudança, quando está lá é uma pessoa, quando está em Pesqueira é outra!”
Eu não consigo conter minha indignação diante de uma declaração tão absurda e preconceituosa. A declaração em si não foi direcionada a mim, mas ao Cacique Marcos. Porém, o que foi dito atinge não só ao cacique, mas a todo indígena. Sabe o que é pior? Esse discurso julgando, tentando descredibilizar e ridicularizar a identidade, vomitando preconceito, foi feito durante o período eleitoral por um oportunista que, até dias atrás, se dizia “índio” Xukuru: Rossine Blesamany.
Eu preciso frisar que a crítica que faço não se dá por ter sido adversário eleitoral deste oportunista, mas sim porque essa sempre foi uma das minhas principais pautas de luta. Eu não atendo a nada do que o folclore diz sobre ser indígena e isso me colocou em uma permanente militância contra as atitudes que fortalecem essa visão estereotipada.
Começo então explicando que o termo “índio” está totalmente errado. Ele é um rótulo imposto pelos colonizadores sem levar em conta a diversidade e a identidade dos povos. Esse termo generaliza uma enorme diversidade de povos e culturas – e há vários povos indígenas no Brasil, com diferentes costumes e tradições, cada um com sua identidade única e que não devem ser reduzidos a um único termo genérico e pejorativo.
O termo que reconhece a origem, o pertencimento territorial e respeita a diversidade, sendo mais inclusivo é o termo “indígena”. E mais adequado ainda é chamar pela própria denominação da etnia, que no meu caso é Xukuru do Ororubá. Esta é a forma que reconhece e respeita a pluralidade e as particularidades de cada etnia.
Essa visão simplificada e folclorizada começou a ser construída a partir do período colonial, que tratava a cultura indígena como inferior, primitiva, selvagem e, portanto, necessária de ser colonizado. No século 19, vários artistas e escritores ainda retratavam os indígenas associando-nos a um modo de vida primitivo, ignorando as realidades complexas e diversas dos povos, fortalecendo um estereótipo de pureza e ignorando toda miscigenação do período de colonização.
O cinema, a TV, a literatura, outras formas de entretenimento e o ensino nas escolas também ajudaram a manter essa visão folclórica, abordando os povos indígenas de maneira superficial. Tudo isso contribuiu para a formação de um imaginário coletivo que trata os indígenas apenas como figuras do passado ou como parte de uma história distante, desconsiderando as realidades atuais e a luta pelos direitos indígenas.
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Rossine fortalece essa visão exatamente por não ter buscado compreender essa realidade, por nunca ter se dedicado a essa luta. Essa postura de alguém que tentou “surfar” se colocando enquanto Xukuru invisibiliza a luta que muitas gerações travaram para conquistar respeito.
Como se não bastasse o uso errado de termo, ele ainda traz essa perspectiva de “se vestir”, como se fosse uma fantasia. Não é! E aí é onde está ainda mais evidente, a hipocrisia e a atitude oportunista de quem fez esse discurso. Se ele em algum momento utilizou qualquer elemento da identidade do Povo Xukuru do Ororubá foi nessa lógica de se vestir, porque é isso que foi dito por ele.
Nós utilizamos nos momentos que cabem. Se você não conhece ou não compreende os motivos, apenas respeite.
Ser Xukuru do Ororubá, segundo as cartas das assembleias do nosso povo, é muito mais do que ser família de algum outro indígena dessa etnia. Cada um dos elementos tradicionais do Povo Xukuru do Ororubá é utilizado pelo respeito que temos aos nossos ancestrais, pelo compromisso de continuidade com essa luta. A proteção dada pela barretina, pelos colares, os takós é uma questão religiosa e precisa ser utilizada com o máximo de respeito.
Ser Xukuru do Ororubá vai além de querer usar a identidade por conveniência. Ser Xukuru é muito mais do que ter o pai ou a mãe indígena. Ser Xukuru é ter, além do sangue, o compromisso de continuar mantendo e defendendo esse modo de vida e as nossas tradições.
Vamos continuar nos reafirmando nessa luta coletiva em defesa do nosso povo e da nossa ancestralidade. Em tempos em que tentam nos apagar e deslegitimar nossa história, seguiremos firmes, enfrentando discursos e posturas preconceituosas. E eu não tenho dúvidas que vamos continuar resistindo, porque como disse Xikão Xukuru: “Está no querer da natureza. A natureza quem disse. A gente não pode negar”.
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