Entregadores que trabalham por aplicativos protestaram, na manhã desta terça-feira (1º), na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A principal reivindicação do grupo é o aumento da taxa mínima por corrida de R$ 6,50 para R$ 10. O ato faz parte do Breque Nacional de 48h, que acontece em cerca de 60 cidades do Brasil, e começou com a paralisação das atividades nesta segunda (31).
“Já tem três anos que a taxa não aumenta, se mantém em R$ 6,50. E como a inflação subiu, combustível subiu, manutenção de moto subiu, está inviável hoje trabalhar calado”, afirmou Roberto de Oliveira, entregador que integra a Associação dos Trabalhadores de Aplicativos e Motociclistas do Distrito Federal e Goiás (Atam-DF/GO).
Segundo o motociclista que trabalha há cinco anos como entregador por aplicativo na região do Lago Sul e da Asa Sul, proprietários relataram que em média 100 pedidos deixaram de ser entregue por estabelecimento em função da paralisação desta segunda (31). A greve pretende atingir os principais aplicativos de delivery, como Uber Flash e 99 Entrega, mas tem como alvo central o iFood, hegemônico no mercado.
Além da taxa mínima, os trabalhadores reivindicam o aumento da remuneração de R$ 1,50 para R$ 2,50 a cada quilômetro rodado, o limite de um raio de 3 quilômetros para entregas feitas em bicicleta e o pagamento integral por corrida mesmo quando pedidos são agrupados na mesma rota.
“Além de diversas situações que a gente sofre com corrida dupla e você só recebe uma, o iFood soltou a nota dizendo que em 2024 teve um reajuste dando R$ 3 a mais pela rota agrupada. Mas o cliente paga a taxa cheia. Então, o que a gente quer é um equilíbrio nessa balança para que o trabalhador ganhe mais. Porque quem tá arcando com o perigo e o custo da operação, somos nós trabalhadores”, defendeu Abel Rodrigues dos Santos, diretor da Atam-DF/GO.
Welington Araújo, membro da Atam-DF/GO, relatou um exemplo da problemática em torno dos pedidos agrupados. Antes de ir ao ato na Esplanada, o motoboy fez a entrega de três pedidos. Por terem sido feitas em endereços próximos, em ruas paralelas, as entregas são computadas como uma só. Enquanto nas notinhas constava que o iFood cobrou R$ 12,99 de taxa de entrega para cada pedido, Welington recebeu apenas R$ 8,50 pelas três corridas.
Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa 99, Ifood, Uber, Zé Delivery, entre outras empresas, disse que a “renda média de um entregador do setor cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024, chegando a R$ 31,33 por hora trabalhada”, de acordo com o último levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
“Você entende a porcentagem de ganho dessa plataforma em cima da minha corrida? A moto é minha, a manutenção da moto é minha, a gasolina é minha, o telefone sou eu que compro, a internet sou eu que pago. Qual é a desculpa? E elas não ganham só com a nossa corrida, elas ganham com hospedagem das empresas nas suas plataformas, ganham com propaganda e tudo mais. Mas não tem a decência de nos tratar como parceiros”, afirmou Welington.
Falta de apoio
Os trabalhadores também denunciam a falta de respaldo das empresas diante dos riscos diários que enfrentam. De acordo com dados do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), 100 motociclistas morreram no trânsito do DF no ano passado, quatro a mais do que em 2023. A falta de atenção e o uso do celular por parte dos motoristas de carro foram apontados pelos entregadores como algumas das principais causas dos acidentes.
“Todo dia a gente vê motoboy no chão, vê motoboy morto, a cada dai que passa só piora. Os índices de trânsito estão aí, são mais de 10 acidentes por dia. E o apoio das plataformas é bem pequeno, se a gente não correr atrás da plataforma, ela não vem até nós”, lamentou Carlos Eduardo de Souza, jovem de 21 anos que há três trabalha como entregador por aplicativo em Brasília.
Os entregadores pediram maior apoio do governo na intermediação com os aplicativos. “O apoio do governo é essencial, sabemos que ele que controla todo o Brasil e precisamos desse apoio, tanto para lutar por nós, quanto para responder por nós quanto às plataformas, por essa escravidão moderna nesse processo de capitalização em que só as plataformas ganham”, destacou Carlos Eduardo.
O deputado distrital Fábio Felix (Psol-DF) participou do ato na Esplanada em apoio aos entregadores nesta terça (1º). “Os trabalhadores de entrega trabalham 12, 14 horas por dia. É mentira que não tem rotina de trabalho, porque se não tiver rotina e não trabalhar todos os dias, não paga as contas. Essa é a verdade”, destacou o parlamentar.

Segundo Felix, tanto os trabalhadores quanto o poder público são “reféns” dos aplicativos de tecnologia, que ameaçam deixar o país quando o estado começa a falar em regulamentação e direitos trabalhistas. “É chantagem o que eles fazem”, avaliou.
“É um segmento onde hoje os entregadores têm seus direitos negados. Para além dos direitos trabalhistas, sua dignidade. Nós temos grandes plataformas de tecnologia que acabam chantageando o poder público para que não haja nenhum marco regulatório e nem que trabalhadores tenham ganho a curto prazo. É uma negligência sistemática por parte dessas empresas que não garantem o mínimo”, destacou o deputado.
Felix foi responsável por propor projeto de lei para garantir a criação de pontos de apoio para descanso e suporte para os entregadores de aplicativos no DF. A lei nº 6.677 foi sancionada em setembro de 2020 e obriga a instalação de pelo menos um ponto de apoio por região administrativa, equipado com sanitários masculinos e femininos, chuveiros individuais, vestuários, sala de descanso com internet e pontos de recarga de celular, espaço para refeição e estacionamento para bicicletas e motos.