Impulsionadas pelo sonho de uma sociedade mais justa, cerca de 600 lutadoras populares se reuniram na Escola Parque, em Salvador (BA), para o 14º Acampamento Estadual das Mulheres do Campo e da Cidade. Com o lema “Mulheres em luta, em defesa dos nossos corpos e territórios, contra o agronegócio e pelo Bem Viver”, o encontro foi realizado entre os dias 28 e 30 de março e debateu temas como saúde mental, violência, agroecologia e organização popular.
Mais de 20 movimentos sociais e entidades se articularam na construção do encontro, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Levante Popular da Juventude, Marcha Mundial das Mulheres, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Em unidade, as mulheres buscaram expressar a força da luta popular frente a desafios comuns, como o enfrentamento ao agronegócio, ao racismo e à violência de gênero.
“Nós ousamos em construir esse espaço coletivo e unitário das lutas das nossas mulheres. Somos mulheres urbanas, mulheres rurais, mulheres das águas e mulheres das florestas. E entendemos que toda violência do patriarcado nos atravessa historicamente e atinge a todas nós”, aponta Jaziam Mota, do setor estadual de gênero do MST-BA.
Fabya Reis, Secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da Bahia, também ressalta a pluralidade de vozes e a força das comunidades que compõem o acampamento.
“Quando nos reunimos, formamos uma grande teia: as mulheres sem terra, as mulheres da cidade e das periferias, a rede de mulheres negras, o movimento negro unificado, nossas companheiras indígenas e as mulheres evangélicas. Somos diversas, vindas de diferentes realidades, e é nessa diversidade que construímos nossa luta todos os dias”, salienta.
Terra para quem nela vive e trabalha
A discussão sobre defesa da terra e dos territórios foi um dos temas centrais do encontro, sobretudo no contexto de aumento da violência no campo em todo o estado. Enquanto as mulheres davam início à atividade, na sexta-feira (28), fazendeiros armados atacaram um acampamento do MST em Guaratinga, extremo-sul da Bahia. Dias antes, indígenas ocupavam rodovias no sul do estado denunciando a violência contra suas comunidades e as prisões arbitrárias realizadas durante operação policial na semana anterior.
Diante desse cenário, Josi Pataxó, professora e representante dos povos indígenas de Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, salienta a relação de pertencimento dos povos indígenas com seus territórios e alerta para a necessidade de demarcação de terras.
“Nós não somos nada sem nossos territórios. Nós não produzimos, nós não colhemos sem nossos territórios. Minha fala não é só pelo meu povo, mas por todos aqueles que precisam de sua terra.”
Já Mariely Oliveira, do Coletivo do Plano Nacional de Plantio de Árvores (BA), também destacou o papel do agronegócio e da expansão da monocultura para o avanço do desmatamento e, por consequência, da aceleração das mudanças climáticas. Segundo o último Relatório Anual do Desmatamento, lançado pelo MapBiomas, a Bahia foi o segundo estado com a maior área desmatada do país em 2023. Dos dez municípios que mais desmataram neste ano da pesquisa, quatro são baianos – Barreiras, Cocos, Jaborandi e São Desidério, que alcançou o topo da lista.

Para enfrentar esse problema, Oliveira destacou a urgência da democratização da terra no país e investir em formas mais saudáveis de produção de alimentos, como, por exemplo, a partir da agroecologia. “Há saídas coletivas para reverter esse cenário, começando pela reforma agrária. O acesso à terra é essencial para cuidarmos das águas e das florestas, pois somos protagonistas no cuidado com os bens naturais, especialmente por meio da produção agroecológica.”
No entanto, a dirigente também ressalta que enfrentar o modelo de produção de alimentos também precisa passar pelo enfrentamento ao machismo. Afinal, segundo ela, são as mulheres que mais têm contribuído com a construção de novas formas de viver e que têm criado sistemas produtivos mais resilientes.
“Nós extrapolamos essa ideia de que a mulher só produz no entorno da casa. Nós estamos envolvidas em todo sistema produtivo da terra, o problema é que os recursos financeiros advindos disso ficam a cargo dos homens. Isso é algo que precisa ser superado. As produções diversas das mulheres são sistemas resistentes aos efeitos das mudanças climáticas.”