Motoboys e entregadores de aplicativos de todo o Brasil paralisaram suas atividades na segunda-feira (31) e nesta terça-feira (1º) para reivindicar melhores condições de trabalho e aumento na remuneração. A mobilização, chamada de “breque dos apps”, acontece em 59 cidades e tem como principais pautas o aumento da taxa mínima por entrega, reajuste no valor pago por quilômetro rodado e a limitação do raio de atuação para ciclistas.
O protesto ganhou força especialmente em São Paulo, onde centenas de trabalhadores se reuniram para cobrar mudanças das plataformas de delivery, como iFood, Uber Flash e 99 Entrega.
Em Belo Horizonte, a adesão foi menor, mas ainda assim significativa. Segundo os organizadores do movimento, a greve busca pressionar as empresas a reconhecerem os direitos dos trabalhadores e melhorar as condições de trabalho.
Contradições
Em nota enviada à imprensa, o iFood afirmou que respeita o direito à manifestação pacífica e disse estar estudando a possibilidade de um reajuste nas tarifas para 2025.
Para os trabalhadores, no entanto, essas medidas são insuficientes. Tárcio Batista, conhecido como Tarciano Motoboy, entregador do iFood, questiona a posição da empresa e vê poucas chances de um reajuste significativo.
“A resposta deles foi que simplesmente eles iam abaixar a quilometragem das rotas de bike. Até então, não teve outra resposta. E essa possibilidade de reajuste, eu acho que é bem baixa, mas não é impossível. Não é à toa que 95% dos ‘motocas’ da pista realmente estão parados em prol dessa melhoria”, comentou, ao Brasil de Fato MG.
“O iFood gasta milhões para artistas divulgarem a empresa, paga milhões para uma prova no Big Brother Brasil para levar a marca da empresa. Mas e para os trabalhadores? Para nós, a conversa é outra”, continua o entregador.
O iFood argumenta que, nos últimos anos, promoveu reajustes na taxa mínima de entrega e instituiu um adicional para pedidos agrupados. Mas, segundo Tarciano, essa estratégia só beneficia a empresa e prejudica os entregadores.
‘Eles lucram em cima de nós de forma absurda’
“Com certeza, esses aumentos não são suficientes. Por exemplo, tocamos uma corrida de 5 km e recebemos R$ 10 por ela. Depois, a plataforma adiciona mais 5 km. Ela deveria pagar o dobro do valor, mas não é assim. O iFood paga apenas mais R$ 5, ao invés de pagar o preço justo por cada uma das corridas. Isso é inadmissível. Eles lucram em cima de nós de forma absurda”, denuncia.
Outro ponto essencial para os trabalhadores é o valor mínimo por entrega. Hoje, a tarifa base é de R$ 6,50, e os entregadores afirmam que esse valor não cobre os custos do serviço.
“Ao meu ver, a mais urgente das reivindicações é o aumento da taxa mínima. A maioria das entregas paga R$ 6,50, mas a gente perde tempo esperando o pedido ficar pronto e depois esperando o cliente retirar. Tem corrida que dura até 50 minutos e continua valendo apenas R$ 6,50. Isso não dá”, explica o motoboy.
Riscos e a falta de apoio
Além da baixa remuneração, os entregadores enfrentam riscos diários no trânsito e dificuldades financeiras quando sofrem acidentes. O iFood afirma que oferece um seguro gratuito, mas Tarciano contesta.
“Nunca ouvi falar de alguém que realmente conseguiu usar esse seguro. Plano de saúde e apoio psicológico também são coisas que só existem no papel. Se um motoboy sofrer um acidente e a moto for destruída, ele fica no prejuízo”, denuncia o entregador.
A luta por organização e reconhecimento
A mobilização dos entregadores tem ganhado força, mas ainda enfrenta desafios para se consolidar como um movimento organizado em todo o Brasil, de acordo com especialistas. Enquanto em São Paulo há uma forte união entre os trabalhadores, em outros estados a adesão ainda é menor.
“O protesto aqui em Minas Gerais não chega nem aos pés do de São Paulo. Lá, os caras realmente fazem acontecer. Aqui, infelizmente, não temos a mesma força. Cada cidade tem seus representantes, mas a eficácia varia muito. Mesmo assim, acredito que devemos continuar lutando”, afirma Tarciano.
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A falta de uma representação formal da categoria é um dos principais obstáculos para avanços concretos, segundo o pesquisador Paulo Antônio Romano, do Centro de Estudos Urbanos da UFMG.
“Esse é um processo complexo e histórico. Não se resolve no curto prazo. A construção de uma organização, a filiação a sindicatos ou federações leva tempo. Cada cidade experimenta diferentes formas de organização e algumas já possuem associações mais consolidadas, como Campinas e São Paulo. Mas, no geral, os entregadores ainda enfrentam dificuldades para estruturar um movimento nacional unificado”, explica.
Para o pesquisador, um dos fatores que pode fortalecer a luta dos entregadores é o apoio da sociedade.
“O primeiro ‘breque dos apps’, em 2020, durante a pandemia, já mostrava que a solidariedade dos usuários pode ser um fator importante. Deixar de pedir delivery nos dias de mobilização e avaliar negativamente os aplicativos ajuda a pressionar as empresas. É uma luta que não é apenas dos entregadores, mas da sociedade como um todo, porque envolve o futuro da organização do trabalho”, finaliza Romano.