Por Justino Passos*
Há encontros que mudam a vida da gente. Alguns acontecem na correria dos dias, outros nos tomam de surpresa. O meu, com Lenira Carvalho, foi ambos. Foi breve e eterno. Foi a última entrevista dela — horas antes de sua morte — e, ao mesmo tempo, uma espécie de nascimento para mim. A partir daquele momento, entendi que não era apenas um entrevistador ou documentarista. Eu era, agora, uma testemunha.
Lenira falava com serenidade. Seus olhos, já marcados pelo tempo e pela luta, guardavam uma clareza que poucos têm ao fim da vida: a certeza de ter vivido com propósito. Ela contou sobre a infância, a primeira patroa, a luta para estudar enquanto limpava casas, a organização das companheiras, a igreja progressista, os encontros com feministas, os enfrentamentos com o Estado e a construção de um movimento que exigia o que parecia impossível: dignidade para as trabalhadoras domésticas.
Ali, diante de mim, ela não pedia aplausos. Ela contava. Como quem confia que a verdade não morre. Como quem sabe que o tempo não apaga o que é justo.
Depois de sua partida, o luto virou motor. Com a câmera de novo – mas dessa vez com o coração mais aberto.
Voltei aos bairros, ao sindicato, às casas simples onde as histórias dormem nas prateleiras e nos porta-retratos. Encontrei companheiras de Lenira, mulheres com vozes trêmulas, mas memórias firmes. Ouvi falas de fé, resistência, silêncio e coragem. Algumas, hoje, vivem em instituições; outras estão aposentadas. Mas todas carregam nos ombros a história de um Brasil que ainda insiste em fingir que elas não existem.
É assim que o documentário É Preciso Descansar se constrói. A partir de uma despedida, ele revela um começo: o da escuta verdadeira. Por meio da memória de Lenira e das tantas outras mulheres que dividiram com ela o fardo e o sonho, o filme desenha uma narrativa que é, ao mesmo tempo, pessoal, coletiva, política e profundamente afetiva.
Enquanto editava as imagens da entrevista que fiz três horas antes de sua morte, me dei conta de que não estava apenas homenageando uma mulher. Estava convocando outras. Estava sendo convocado também.
O legado de Lenira não cabe em um retrato biográfico. Ele transborda. Ele se ergue em cada trabalhadora doméstica que se recusa a aceitar o silêncio, em cada jovem que hoje aprende que sua avó não era apenas “a empregada”, mas uma militante, uma intelectual popular, uma construtora da democracia.
O título do curta vem do que parece ser um paradoxo: É Preciso Descansar. Mas a frase é menos sobre pausa e mais sobre justiça. O descanso só será possível quando todas puderem viver com dignidade. E, até lá, seguimos: filmando, escutando, contando — e lutando.
*Justino Passos é publicitário, jornalista e criador de conteúdo digital no Recife (PE), além de coordenador geral da ECOS Comunicação.
Os artigos de opinião não necessariamente representam a posição editorial do Brasil de Fato.
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