Adriana Souza

Adriana Souza é a vereadora eleita mais bem votada de Contagem (MG), professora de História, ativista socioambiental do SOS Vargem das Flores e co-fundadora do Coletivo Com Elas

O filme, o banqueiro e o Brasil real: como a extrema direita corrompe e manipula narrativas

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O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro teria negociado com Vorcaro um total de 24 milhões de dólares, cerca de R$ 134 milhões à época, para bancar o filme biográfico Dark Horse, sobre seu pai | Crédito: Daniel Ramalho / AFP

A mentira virou método. A propaganda virou arma

A reportagem do Intercept Brasil, publicada em 13 de maio de 2026, traz revelações gravíssimas sobre as relações entre o clã Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento milionário de uma produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. 

Segundo a matéria, o senador Flávio Bolsonaro teria negociado com Vorcaro um total de 24 milhões de dólares, cerca de R$ 134 milhões à época, para bancar o filme biográfico Dark Horse, sobre seu pai. A reportagem aponta ainda que pelo menos 10,6 milhões de dólares, aproximadamente R$61 milhões, já teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025.

Eu li essa matéria com indignação, mas infelizmente sem surpresa. Porque quem acompanha a política brasileira sabe que a extrema direita sempre tentou se vender como “anticorrupção”, “antissistema” e “defensora da moral”. Mas, quando a cortina cai, o que aparece é uma velha política de bastidor, de banqueiro, de privilégio, de mentira organizada e de muito dinheiro circulando longe dos olhos do povo.

A reportagem mostra mensagens, áudios, cronogramas de pagamento, comprovantes bancários e diálogos que indicariam uma relação direta entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Não estamos falando de uma vaquinha popular, de apoio cultural transparente ou de incentivo público debatido democraticamente. 

Estamos falando de milhões de dólares movimentados para financiar uma narrativa política em forma de filme, enquanto o Brasil real enfrenta fila no posto de saúde, falta de vaga em creche, dificuldade para comprar comida e transporte público caro.

Por isso, essa denúncia não é apenas sobre Brasília. Fala sobre o modelo de país que está em disputa.

De um lado, há quem use poder político, relações financeiras e influência internacional para fabricar heróis de tela grande. Do outro, há o povo que constrói o Brasil todos os dias, sem holofote, sem banqueiro, sem jatinho. 

A matéria também revela algo profundamente simbólico: a preocupação central não é com o povo brasileiro, mas com a imagem política de uma família. Segundo o Intercept, Flávio Bolsonaro teria cobrado pagamentos para evitar atrasos com profissionais internacionais envolvidos na produção do filme. Ora, quantas vezes a extrema direita demonstrou a mesma preocupação com quem espera uma cirurgia pelo SUS? Com quem vive sem saneamento? Com quem perdeu renda? Com quem sofreu com a fome que voltou ao país durante o governo Bolsonaro?

Banqueiros, fake news e projetos pessoais

Essa é a contradição que precisamos denunciar com firmeza.

A extrema direita fala em “Deus, pátria e família”, mas na prática opera com banqueiros, fake news e projetos de poder pessoal. Fala contra a cultura, mas usa o cinema quando interessa à sua propaganda. Ataca artistas, professoras, movimentos sociais e universidades, mas se articula para financiar uma superprodução internacional. Critica a Lei Rouanet com mentiras, mas não vê problema em buscar milhões de dólares para transformar um projeto político autoritário em produto audiovisual.

A denúncia da reportagem do Intercept precisa ser investigada com rigor. Não pode haver blindagem. Não pode haver dois pesos e duas medidas. O Brasil já pagou caro demais quando setores da Justiça, da mídia e do poder econômico escolheram lado e ajudaram a destruir a confiança democrática do nosso povo. Investigação séria se faz com prova, devido processo legal, transparência e compromisso com a verdade — não com espetáculo seletivo.

Mas também não podemos tratar essa denúncia como um episódio isolado. Ela se insere em um projeto maior: o da extrema direita internacional, que usa dinheiro, redes sociais, religião instrumentalizada, medo e desinformação para disputar consciências. Vimos isso no bolsonarismo, vimos no trumpismo, vimos em várias partes do mundo. A mentira virou método. A propaganda virou arma. A política virou negócio para seitas de extrema direita.

A nossa resposta precisa ser organização popular e muita energia para dialogar com o povo esse ano. Temos  de reeleger o presidente Lula e construir uma bancada forte de senadores e senadoras,  deputados e deputadas federais e estaduais comprometidas com o projeto democrático e popular.

Adriana Souza é militante, mãe, professora de história e vereadora mais votada de Contagem.

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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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