Recife voltou a vestir o figurino de “cidade-laboratório” e, com ele, reaparece o ritual performático do alegado maior festival de inovação em linha reta. A cidade é tomada por painéis, pitches e palavras de ordem que prometem futuro, mas, quando examinadas com lupa, reiteram o passado: mais do mesmo, com luz neon – e não é o boi neon dos filmes de Mascaro.
O enredo é conhecido: “reproduzir a receita do vale do silício”, como se a cartilha clonada em inglês resolvesse desigualdades históricas do nosso território, numa espécie de livro sagrado da verdade evolutiva que todo o planeta deve seguir. O nosso sotaque emerge, marcado em seus Ts, fricativo, elisivo e sincopado, mas com ele vem algo de estranho: o vetor de um pensamento colonial.
Chama atenção a liturgia dos curadores e patrocinadores. Eles insistem na ideia de “tripla hélica de inovação”, que você leitor não é obrigado a saber do que se trata, mas te garanto, instaura e sustenta relações de desigualdade. Uma ideia da década de 1940 do século passado, vendida agora como se fosse vanguarda. Universidade-empresa-governo, linear e hierárquica, reaparece como se ecossistemas fossem tubos de ensaio e cidadãos, meros insumos.
A tríade, contudo, ignora as tramas reais da cidade: economia popular, redes de cuidado, cultura de reparo, saberes indígenas e afro-brasileiros, a inteligência comunitária que tece sobrevivências onde a “disrupção” só chega de helicóptero ou para fazer video bem marketeiro de campanha política em instagram – vale até dançar o passinho!
O festival de inovação mais badalado do Recife promete diversidade, mas pratica um pluralismo ornamental. Captura repertórios e palavras como diversidade, “feito por pessoas”, inclusão e participação, incorporando-as à embalagem publicitária, sem efetivamente pensar a tecnologia fora da caixa tecnoexclusivista. O resultado é um alívio de consciência para elites conectadas e nenhum deslocamento real de poder. Que inovação é essa?
No plano base do conhecimento, a máquina gira com combustível epistemicida. O repertório de referências, modelos mentais e indicadores é importado, homogeneizante e varre a rua com o mesmo algoritmo que recomenda séries. Esse jogo de gato e rato, da cultura que emerge e é pasteurizada tem um quê de eterno no capitalismo.
Em vez de pluralizar mundos, o cardápio reduz experiências àquilo que cabe no dashboard. A epistemologia dominante confunde escala com verdade e taxa de conversão com impacto social. Ao fim, a “inovação” coloniza a imaginação: só vale o que cabe em “sandbox regulatório”, “contrato de aceleração” e “release para investidores” e toda essa parafernalha vazia de sentido e pedaço de engrenagem de economias especulativas.
Some-se a isso o coro dos “especialistas” que, sob a toga do futurismo, desmobilizam a praça pública. Painéis sobre “governança responsável” começam e terminam nos mesmos cinco nomes, enquanto sindicatos, movimentos populares, bibliotecas comunitárias, coletivos de pessoas com deficiência e redes de mães periféricas entram pela porta dos fundos (se é que entram).
O conflito, como ambiência para novas sínteses, vira coffee-break patrocinado, tudo ao som de Nação Zumbi: computadores não fazem só arte, eles são instrumento para fazer muito dinheiro.
Há ainda uma política de linguagem que não é detalhe: terminologias anglófilas são empilhadas como se mudar o rótulo mudasse a estrutura. Fala-se em “literacy digital” quando nosso desafio é letramento enquanto disputa de sentidos, não apostila técnica para que sejamos apenas operários em um mercado que só nos entende enquanto subalternos.
O vocabulário higienizado substitui nomes concretos de opressão por slogans neutros. A palavra “inovação” cobra pedágio de conformidade: só entra no palco quem promete crescer “rápido, escalável e investível”.
A cidade, entretanto, nos oferece outra pedagogia: o ventilador reparado no conserto da esquina, a gambiarra que vira método, a cooperativa que reinventa logística com bicicleta e afeto, o terreiro que organiza dados sem nuvem, o mutirão que repara telhados e dignidade. Essa gramática de inovação contra os “dogmas do inovar” não precisa de holograma: precisa de orçamento, escuta e tempo — o que as agendas aceleradas e amontadas de festivais do tipo raramente concedem.
Defensores dirão que o evento atrai investimentos e “oxigena o ecossistema”. Mas oxigênio para quem? Sem redistribuição material, sem governança com maioria popular, sem critérios que priorizem o comum sobre o capital, o que se chama “ecossistema” é, na verdade, um viveiro fechado.
A lógica da governança tecnoexclusivista aparece nos convites, nos crachás, nos salões vip e nos editais cujo idioma tácito é o da escassez planejada: muitos candidatos, poucos vencedores, todos agradecidos.
A tríplice aliança universidade-empresa-governo, reeditada como promessa, também faz um truque de mágica ao ocultar duas dimensões urgentes: a sociedade e o meio ambiente, na forma dos sujeitos que compõem esta realidade. Assim, quando a crítica é convidada a “compor a mesa”, geralmente é para legitimar o cardápio já decidido.
Não se trata de negar a importância de encontros, nem de demonizar quem trabalha com tecnologia. Trata-se de escolher critérios: se a bússola é o comum, a agenda muda.
Em vez de perseguir “unicórnios”, perseguimos políticas de cuidado e orçamento; em vez de “hubs” blindados, abrimos laboratórios de bairro; em vez de medir sucesso por valuation, medimos por redução de sofrimento social. E, sobretudo, deslocamos o centro de gravidade: das big techs para as pequenas gentes, dos painéis para as cozinhas coletivas, do pitch para a assembleia, essa ágora que nos forma enquanto humanos.
Há caminhos, portanto. Uma virada possível passa por declarar obsoletos os fetiches da década de 40 vestidos de hype e simulacro de “carnaval digital”. Desfetichizar a palavra “inovação”, instituir conselhos que definam prioridade e partilha de recursos públicos, transparência sobre para onde vai o dinheiro da cidade do Recife e do Governo de Pernambuco.
Podemos colocar a inteligência coletiva, que não entra em planilha, como régua de validação. Passa por abandonar a ilusão de que “reproduzir a receita do vale do silício” é atalho de desenvolvimento. Não é. É contínuo de dependência.
Cabe a nós sabotar, com gentileza, mas também com inflamação arretada que nos é típica, esse script algorítmico: devolver à linguagem suas arestas políticas, recolocar o conflito onde ele foi pasteurizado, insistir que técnica sem justiça é apenas eficiência da desigualdade.
Recife pode mais do que ser vitrine: pode ser oficina mesmo, pensando no artesanal e no tão propagado “ancestral” – que já vai pela linha da captura. Lembrar que o vento que refresca não vem, em sua maioria, do ar-condicionado das salas todas iguais de escritórios no bairro do Recife, mas do ventilador consertado em comum, ali na periferia.
Vem também de ideias geniais que nos compõem, mesmo vindo de uma elite, como cobogós que são permeáveis ao seu contexto, são transparentes e deixam ver e ser visto e, amontoados uns sobre os outros, criam uma rede de tecnologia – de técnicos-acadêmicos, para prédios de governo, para a simbologia de uma cultura, para a sociedade em convivência com o ambiente.

