Todo começo de ano, o mesmo fantasma ronda a vida de milhões de famílias brasileiras: o aumento da tarifa do transporte público. Mesmo com o salário mínimo acompanhando a inflação, a passagem sobe acima desse índice e impõe, logo em janeiro, um aperto imediato no orçamento de quem já vive no limite. É justamente essa diferença de tarifas crescendo mais do que a renda que pressiona o custo de vida e obriga as famílias a reorganizarem despesas essenciais.
Em média, o transporte urbano consome cerca de 3% da renda familiar. Parece pouco no papel, mas é um peso enorme na vida real. Quando a tarifa aumenta, o impacto é direto no custo de vida, sobretudo porque esse reajuste quase sempre supera o aumento dos salários. O resultado é simples e cruel: para pagar o ônibus, a família precisa cortar outra despesa essencial.
O primeiro efeito desse aumento é na distribuição de renda. O transporte público não atinge apenas o trabalhador formal que se desloca para o emprego. Ele afeta famílias inteiras: mães, pais, jovens, idosos, estudantes. O vale-transporte cobre apenas quem está no mercado formal, mas a maioria da população brasileira está na informalidade, é autônoma ou vive de pequenos empreendimentos. Para essas pessoas, cada centavo da passagem sai diretamente do bolso.
Esse impacto também alcança as culturas tradicionais. Em janeiro, por exemplo, grupos de folia de reis, que mantêm suas atividades ao longo de todo o ano, com ensaios, circulação dos grupos e deslocamento de integrantes e instrumentos, sentem diretamente o peso do aumento da tarifa. O transporte mais caro encarece a própria sobrevivência dessas expressões culturais, que já operam com poucos recursos e quase nenhum apoio público.
O segundo problema é que os reajustes das tarifas vêm acima da inflação oficial, que já não reflete o custo real de viver no Brasil. A inflação divulgada gira em torno de 4,4%, mas quem consome praticamente 100% da renda sabe que a conta não fecha. Educação, saúde, moradia e alimentação sobem muito mais do que isso. Só a moradia teve aumento médio de 8% no último ano, com faixas que ultrapassam esse percentual. Para quem vive do próprio salário, a inflação “oficial” é uma abstração distante da realidade.
Mas o debate sobre tarifa de transporte vai além da planilha doméstica. Ele impacta diretamente o acesso à cidade, à cultura e ao lazer. Famílias numerosas, com cinco, seis filhos, acabam praticamente apartadas dos centros urbanos. Ir ao cinema, a um parque, a um evento cultural ou mesmo a uma atividade pública se torna inviável quando o custo do transporte consome grande parte da renda. A cidade passa a ser um espaço segmentado, onde circular vira privilégio.
Há ainda um impacto pouco debatido, mas profundamente humano: o das famílias que visitam pessoas encarceradas. O aumento da tarifa dificulta essas visitas, que fazem parte do processo de ressocialização e da manutenção de vínculos afetivos. Quando o transporte se torna inacessível, a punição ultrapassa quem cumpre pena e recai também sobre mães, companheiras, filhos e familiares.
Por isso, discutir transporte público é discutir projeto de cidade e de país. O transporte organiza a ocupação urbana, influencia o meio ambiente e define quem pode acessar direitos básicos. Não é coincidência que o Brasil venha perdendo passageiros do transporte coletivo para o transporte individual, aprofundando desigualdades sociais e ambientais.
O preço da passagem é decisivo para quem depende diariamente do ônibus, mas a solução passa por financiamento público, subsídios e escolhas políticas claras. Não é à toa que as grandes manifestações de 2013 começaram justamente com o aumento da tarifa. O transporte público segue sendo um termômetro da injustiça social no Brasil.
Enquanto o aumento da passagem continuar sendo o primeiro susto do ano para milhões de brasileiros, seguiremos convivendo com esse fantasma. Enfrentá-lo exige coragem política e a compreensão de que mobilidade urbana não é mercadoria, é direito, é cultura, é acesso à cidade e é dignidade.
Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

