Minas Gerais está diante de uma decisão que vai muito além de um projeto de lei. O que está em pauta é o reconhecimento, pelo Estado, de uma história construída com fé, resistência e organização coletiva do povo negro mineiro.
A aprovação da Rota do Rosário (PL 2991/24) em primeiro turno na Assembleia Legislativa de Minas Gerais reconhece o Congado, o Reinado e as Irmandades do Rosário como aquilo que de fato são: patrimônio vivo, expressão profunda da identidade de Minas e parte inseparável da formação do nosso povo.
Durante séculos, essas manifestações foram mantidas pelas comunidades, muitas vezes sem apoio e, em diversos momentos, enfrentando preconceito, invisibilidade e até perseguições. Ainda assim, resistiram, se organizaram, cresceram e se fortaleceram.
Hoje, os congadeiros já fazem, na prática, aquilo que o Estado ainda não fez de forma estruturada: preservam a memória, sustentam tradições, movimentam a economia e formam redes de solidariedade e pertencimento. A Rota do Rosário reconhece essa realidade.
O projeto garante o direito das comunidades realizarem seus festejos e cortejos com respeito, assegura o uso de espaços públicos, protege territórios e lugares sagrados e estabelece um princípio fundamental: ninguém decide sobre o Rosário sem escutar quem faz o Rosário. A consulta prévia às irmandades e aos congadeiros é uma correção histórica.
O projeto também abre caminho para investimento público, fortalecimento do turismo cultural e da economia criativa, valorizando o artesanato, a culinária e as manifestações tradicionais que já geram renda em dezenas de cidades mineiras.
Uma experiência recente mostra o potencial das festas do Rosário. Na Romaria para Aparecida do Norte, na festa de São Benedito, cerca de 170 ônibus saíram de Minas Gerais, organizados pelas próprias comunidades. Um investimento coletivo de milhões de reais. Mesmo sem apoio do Estado, o Congado já movimenta uma economia robusta, com organização própria, gestão comunitária e profundo compromisso cultural.
O que falta não é capacidade. É reconhecimento institucional e investimento público.E esse projeto responde exatamente a isso. A Rota do Rosário também é resultado direto da mobilização das comunidades. Em audiência pública realizada na ALMG, representantes de cerca de 30 cidades vieram, presencialmente, defendê-la como estratégia de desenvolvimento econômico, valorização cultural e garantia de direitos.
Ao longo do nosso mandato, já demos passos concretos nessa direção: entregamos Casas de Congadeiros em Sabinópolis e São Domingos do Prata, reconhecemos territórios como o Quilombo de Justinópolis em Ribeirão das Neves, criamos editais inéditos de valorização das lideranças do Congado, produzimos um documentário que levou essa história para o mundo e garantimos, pela primeira vez na história de Minas, uma medalha Mestre dos Saberes Populares com o nome de uma mulher negra congadeira, Maria Cassimira da Dores.
Esse compromisso também se expressa de forma concreta no Triângulo Mineiro, onde temos atuado diretamente no fortalecimento das comunidades do Rosário por meio de emendas e ações do mandato. Realizamos oficinas de tambores em Uberlândia e Araguari, fortalecendo a transmissão dos saberes tradicionais entre gerações.
Destinamos recursos para o grupo Marujo Azul de Maio, garantindo condições de custeio e continuidade das atividades. Em Uberaba, o projeto “Fala, Mestre” alcançou terreiros, grupos de capoeira e congadeiros, valorizando lideranças e promovendo escuta ativa. Além disso, temos atuado institucionalmente no enfrentamento à intolerância contra o Congado, oficiando os órgãos responsáveis e exigindo respeito às manifestações culturais e religiosas. São ações que mostram, na prática, que a Rota do Rosário já está em movimento em todas as regiões de Minas.
A aprovação do projeto é a consolidação desse caminho que estamos construindo. Reconhecer que a cultura do Rosário não é apenas tradição religiosa, mas também identidade, memória, desenvolvimento e resistência. E, sobretudo, assumir que o Estado tem responsabilidade em proteger, valorizar e investir nessa herança.
Minas Gerais tem uma dívida histórica com o povo negro que construiu este território com trabalho, fé e cultura. A Rota do Rosário é um passo concreto no sentido de reparar, reconhecer e projetar o futuro.
Andreia de Jesus (PT) é educadora popular, advogada, mãe solo e deputada estadual em Minas Gerais
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

