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 É hora de dar tchau

Agora, Bolsonaro volta a ser o que sempre foi: um político fisiológico e medíocre

Olá, o governo Lula não é lá aquela maravilha, mas somos gratos por assistir à lenta queda de Jair.
 


.Tá chegando a hora… O ciclo aberto pelas eleições de 2018 começa a se fechar com Bolsonaro e mais sete pessoas tornando-se réus por tentativa de golpe de Estado. Na época, o Mito emergiu como salvador da pátria num contexto de criminalização da esquerda e crise de hegemonia da direita. Agora, Bolsonaro volta a ser o que sempre foi: um político fisiológico e medíocre. Claro que muita água ainda vai rolar até uma possível condenação. Mas as chances do ex-capitão ser inocentado são pequenas, ainda mais com a deserção do mais forte aliado, Trump, que reconheceu que as eleições brasileiras são um exemplo para o mundo, jogando areia no plano de Eduardo de buscar apoio nos Estados Unidos. Agora, a única solução para o inelegível é se apresentar como vítima de uma injustiça e aguardar uma improvável reviravolta futura como aquela que levou para o lixo da história a Operação Lava Jato. Todas as chances de Bolsonaro passam pelas eleições de 2026, seja para fortalecer a direita no Senado e jogá-lo contra o STF, mas principalmente para eleger um aliado de olho num possível indulto. E os planos A, B e C têm um só nome: Tarcísio de Freitas, o que inflaciona o mercado eleitoral de São Paulo para a sucessão do atual governador. A dúvida é se o ex-Mito conseguirá resistir a um julgamento desgastante que deve durar meses, ou mais de um ano, atuando nas frentes jurídica e política, sabendo dosar o papel de vítima e as afrontas ao STF para manter o fã-clube mobilizado, mas sem comprometer sua própria defesa. Afinal, está em jogo também o futuro do bolsonarismo, já que uma prisão exemplar pode convencer até os extremistas mais exaltados a mudarem de ideia. A consequência imediata é o agravamento da fragmentação e da crise de hegemonia na direita, o que tende a intensificar os movimentos de fusão entre partidos. Vale lembrar que simbolicamente o julgamento dos generais Braga Netto e Augusto Heleno é ainda mais importante do que o de Bolsonaro. Afinal, mesmo que com poucas consequências materiais – as famílias continuarão recebendo gordas pensões – uma possível condenação representaria um ajuste de contas com uma longa história de impunidade dos militares no Brasil. 

.Do outro lado do mundo.Enquanto as manchetes no Brasil seguem dominadas pelas páginas policiais de Bolsonaro e amigos, Lula aproveita o tempo para reforçar as relações exteriores. Essa é a primeira volta internacional do presidente na nova Era Trump e o fato de Lula ter rumado para oriente tem um significado importante. Além de sinalizar uma política internacional multilateral e de não-alinhamento com o Ocidente, especialmente no Vietnã, Lula se sentiu à vontade para reposicionar-se no conflito tarifário com os Estados Unidos, dando um ultimato a Trump e ameaçando retaliação. Aliás, vale ressaltar que o julgamento de Bolsonaro, assim como a prisão do ex-presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, fazem parte de um movimento internacional para conter a ascensão da ultradireita e podem ter repercussões na política externa norte-americana. Tanto no Japão quanto no Vietnã, a ênfase da comitiva brasileira foi reforçar as relações comerciais, com ênfase nas energias renováveis, nas quais o grande beneficiário promete ser mesmo o agronegócio, com a exportação de mais carne e etanol. Vale questionar se essa política não é um tiro no pé de um governo que, internamente, está lutando contra a inflação dos alimentos. Mas Lula foi além, firmando com o Japão 10 acordos bilaterais e 80 instrumentos de cooperação nas áreas da agricultura, indústria, meio-ambiente, ciência e tecnologia, incluindo a venda de 15 aeronaves da Embraer para uma companhia japonesa. O presidente também aproveitou para envolver o Mercosul na conversa, reforçando o papel do Brasil na rearticulação do bloco, desta vez com o oriente, depois que a parceria com a União Europeia ficou aquém do esperado. E enquanto Lula estava em viagem, aqui no Brasil a Comissão de Relações Exteriores do Senado, dominada pelo PL, discutia uma estratégica moção de louvor ao coleguinha auto-exilado nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro.

.A batalha está perdida. Mais do que o estilo Sidônio de publicidade, o mote “O juro tá alto, pega o empréstimo do Lula” também é uma admissão silenciosa de que o governo jogou a toalha da batalha para baixar os juros. O próprio ministro Fernando Haddad admite que esta é a melhor aposta do governo – ou a última – para que a concorrência baixe a taxa pelo menos dos empréstimos para pessoa física, mesmo que o preço disso seja desviar a função do FGTS. O fator determinante da derrota, claro,  foi a conversão de Gabriel Galípolo num clone de Campos Neto. Como o próprio mercado financeiro reconhece: quase 50% da Faria Lima considera Galípolo como igual ao antecessor e 20% como ainda melhor. Assim, o novo normal não é uma reversão da taxa Selic, mas sua permanência na casa dos 15%. Obviamente, Lula não vai direcionar sua munição para o seu indicado como fazia com o antecessor. E também pesou a hostilidade do ataque com o dólar no fim do ano para mostrar que a Faria Lima não brinca em serviço e que, sem o Banco Central, o governo fica desprotegido. A rendição do governo, por outro lado, não significa que o mercado vai sossegar ou que o Planalto vai ter paz. Mesmo vencendo a batalha da Selic, a Faria Lima ainda quer se consagrar no tema do ajuste fiscal – ou seja, nada de gastos sociais que impeçam a farra do pagamento dos juros – e insiste que o governo apresente uma contenção maior do orçamento, em especial direitos, como a Previdência. Neste contexto, nem sequer o ajuste do Imposto de Renda e muito menos a taxação dos super ricos é aceitável. Nisso, o mercado tem o apoio do Congresso, seu sócio na divisão do orçamento, sequestrando R$50 bilhões em forma de emendas. Se faltam forças para o governo reagir, o mais grave talvez sejam os que endossam os argumentos do mercado, como Simone Tebet, e quando a derrota vem sem nem sequer lutar, como o congelamento dos gastos dos Ministérios no dia seguinte à aprovação do orçamento da União.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Therezinha Zerbini, ‘fazedora’ da Lei da Anistia na ditadura, terá vida contada em filme. Documentário aborda a trajetória da mulher que organizou o movimento pela libertação dos presos políticos da ditadura. Na Folha.

.Quem vê cara. No podcast da Rádio Novelo, os bastidores da investigação que desvelou  “o rei do carbono”, o maior vendedor individual de créditos de carbono do Brasil.

.Países não conseguem tributar os super-ricos. Não é só no Brasil que os super ricos escapam impunes da justiça fiscal. No Monitor Mercantil.

.Por que é tão difícil derrubar estátuas de escravizadores?. Na Agência Pública, porque há tanta resistência política em alterar ou proibir as homenagens aos escravagistas no Brasil.

.Luta pela repatriação: após 190 anos, crânio ligado a Revolta dos Malês pode retornar à Bahia. UFBA e Grupo Arakunrin se mobilizam para trazer restos mortais dos Estados Unidos. No Edgardigital, UFBA.

.‘Vitória’: conheça a história da mulher que enfrentou o crime e virou filme com Fernanda Montenegro. Fábio Gusmão, autor do livro que inspirou o longa, participou do Conversa Bem Viver. No Brasil de Fato.

Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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