Depois dos generais presos, a taxação dos super-ricos é o novo marco histórico do nosso tempo.
.O jogo virou. Depois da conturbada votação da PEC da Blindagem e do tensionamento em torno da pauta da anistia no Congresso, o governo finalmente deu a volta por cima com a aprovação da reforma do Imposto de Renda. Serão cerca de 16 milhões de beneficiados pela isenção de quem ganha até R$5.000 e pelo desconto de quem recebe até R$7.350. Tão importante quanto Lula cumprir uma promessa de campanha, é a contrapartida: a taxação de cerca de 141 mil super-ricos. É claro que a direita bem que tentou barrar a proposta. Aliás, para além de salvar Bolsonaro, a insistência na anistia serviu para travar ao máximo a pauta na Câmara. Ainda na votação de quarta (1º/10), a direita tentou sabotar economicamente a isenção no plenário, inserindo emendas que inviabilizariam o equilíbrio entre despesa e receita, criando uma armadilha para o governo. Ou ainda garantir que a isenção passasse a valer apenas em 2027, retirando malandramente o saldo político de Lula nas eleições de 2026. Mas, sob o comando do relator Arthur Lira, que continua se mostrando peça-chave para os interesses do governo frente às fraquezas e vacilações de Hugo Motta, o projeto passou na íntegra e com rara votação consensual. Para os otimistas que vislumbram uma nova era de paz e harmonia entre o Planalto e o Congresso, vale lembrar que pesou muito mais a mobilização popular nas ruas e nas redes do que a boa vontade do centrão.
.Falta pouco. A reforma do Imposto de Renda avançou e as eleições são daqui a um ano. Depois de passar pelo pior, o governo respira aliviado e o otimismo toma conta de suas fileiras. Mesmo longe de um quadro ideal, o Planalto conseguiu inverter a tendência de queda da popularidade e, desde julho, a aprovação vem aumentando e a desaprovação, diminuindo. O desempenho de Lula na ONU e até o aceno de Trump parecem ter contribuído para isso. E a expectativa é que o quadro melhore nas próximas semanas. Agora, o próximo passo seria avançar nas pautas que permaneceram travadas: PEC da segurança pública, nova lei de falências, a reforma da aposentadoria dos militares, a regulamentação das big techs, o Programa Gás do Povo e outro de reforma de casas voltado para os setores populares e a classe média e, quem sabe, um reajuste mais gordinho no Bolsa Família. O otimismo da esquerda já embala um movimento para unificar as pautas para 2026, com destaque para a luta contra a escala 6 x 1. Enquanto a derrocada do bolsonarismo abre espaço para ampliar as alianças com o centrão nos estados e visam o eleitor médio que não é fiel a nem à esquerda, nem à direita. O problema é que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Afinal, o precoce clima do “já ganhou” pode levar o governo a baixar a guarda cedo demais. Ainda mais se lembrarmos que o sucesso do Planalto é mérito tanto dos acertos de Lula, quanto das trapalhadas dos Bolsonaros. Isso pra não falar da possibilidade de novas traições do centrão. No cenário internacional, a suposta simpatia de Trump por Lula anunciada durante a assembleia da ONU não avançou até agora. Vale lembrar também que no meio do caminho tem uma COP 30, onde as contradições do Brasil na área ambiental ficarão expostas. Outro ponto-chave é a economia. Há um sentimento de que a inflação está controlada e otimismo em relação à queda do desemprego, mas a maioria do eleitorado continua com a sensação de que o governo está no caminho errado neste tema. Espera-se, é claro, que a aprovação da isenção do IR altere esse quadro. Por outro lado, vale lembrar que o governo não enfrentou o tema da precarização do trabalho, em especial o vínculo empregatício dos trabalhadores por plataformas, que começa a ser julgado no STF. Além disso, as pressões fiscais sobre o Planalto devem continuar presentes ano que vem, restringindo o orçamento e, por consequência, as políticas públicas, mesmo com a estabilização da dívida pública.
.Série B. Enquanto isso, pouco a pouco, o bolsonarismo vai ficando cada vez mais longe do centro da política e se reduzindo ao rodapé do debate. Teoricamente, o destino de Jair Messias ainda poderia mudar no caso de uma hipotética anistia. Mas a verdade é que o futuro do projeto continua incerto e a resposta pode mudar de acordo com o interlocutor. O próprio relator do agora chamado PL da Dosimetria, Paulinho da Força, ora diz que não há mais previsão para a votação, ao contrária das bravatas da semana passada de que o IR não seria votado antes da anistia, ora garante que já tem votos suficientes para aprovação. Otimistas do centrão afirmam que “só falta” convencer Alexandre de Moraes e Davi Alcolumbre, que é o mesmo que dizer que não tem nada certo. Na verdade, a lista deveria incluir o presidente Lula, já que o PT é contra, e o próprio Jair Bolsonaro, que é contrário à versão light da anistia, que não resolve a sua vida. Os rumos do projeto talvez sejam mais importantes para calcular qual será o futuro do que já foi chamado de “bolsonarismo”. Se por um lado, o centrão tocou a vida em frente e quer viver seu novo amor com Tarcísio, mesmo que Tarcísio não tenha certeza de que quer viver agora esse amor; por outro, até o núcleo duro e raiz da extrema-direita pode abandonar o ex-capitão condenado e se agarrar apenas ao filho Eduardo. Neste caso, Bananinha e asseclas formariam um grupo mais alinhado ao trumpismo, à extrema-direita global e, como eles próprio dizem, com o legado de Olavo de Carvalho. O problema é onde esta turma vai se estabelecer. Em choque com o pragmatismo do PL, Eduardo não encontra guarida em outras siglas de vulto e pode terminar, seguindo a tradição familiar, em alguma legenda de aluguel como PRD, PRTB ou DC. A sobrevivência dos Bolsonaros também depende da capacidade de retomarem às ruas, especialmente depois das manifestações da esquerda, mas isso esbarra no desânimo da militância e na divisão de direita. Por hora, pelo menos o mandato de Eduardo sobrevive apenas do desejo de vingança da Câmara contra o Senado, mas não o suficiente para que os parlamentares decidam comprar esta briga com o STF.
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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

