Enquanto comemorava a boa fase, o governo foi surpreendido por uma nova sabotagem do centrão.
.Tudo ia bem… Até quarta-feira (9), o clima no Planalto era de “já ganhou”, pois os problemas pareciam ter ficado para trás. Faltando apenas um mês para a COP 30, Lula conseguiu apaziguar as relações com Trump com uma conversa telefônica. O gesto simples sugere que há divisões internas na Casa Branca que podem favorecer o Planalto e os sinais são promissores. A revogação do tarifaço não está à vista e certamente dependerá de negociações que envolvem questões geopolíticas de alcance estratégico, além, é claro, dos interesses comerciais. Mas os ministros do STF podem comemorar a abertura do diálogo, o isolamento de Eduardo Bolsonaro e a possibilidade de uma derrubada das sanções pessoais impostas pelo governo americano. A segunda boa notícia veio com a aprovação da isenção do Imposto de Renda na Câmara semana passada. Além de 79% dos eleitores concordarem com a medida, e 64% aprovarem a taxação dos super-ricos, segundo a última rodada da pesquisa Quaest, o número de eleitores pessimistas em relação à economia caiu de 48% para 42% ao longo do último mês. Não é um resultado extraordinário, pois somente 21% dos entrevistados avaliam que a situação melhorou, mas mostra que Lula está no caminho certo. Tudo isso gerou um clima geral favorável que se reflete na recuperação da popularidade, com 48% de aprovação, 7% a mais do que em março. É verdade que o quadro segue polarizado mesmo com o naufrágio do bolsonarismo, mas o Planalto conseguiu recuperar o apoio de setores que foram estratégicos para a vitória de Lula nas últimas eleições, como as mulheres e a população nordestina, sem contar a significativa melhora entre os eleitores do sudeste. Mantendo-se o quadro atual, estaria bem pavimentado o caminho para 2026. A boa fase do governo também rachou o centrão. Nesse caso, o afastamento de André Fufuca do PP em resposta à sua insistência em ficar no Ministério do Esporte, e a divisão interna do União devido à permanência de Celso Sabino na pasta do Turismo, dizem mais sobre os erros de avaliação dos caciques do centrão, Ciro Nogueira e Antônio Rueda, do que dos acertos do governo.
.Surpresa! Com o governo se fortalecendo, o cenário melhorando, e os adversários desorientados e divididos, sobrou para o centrão um único trunfo: sabotar os projetos do Planalto na Câmara. Como se viu esta semana com a MP do IOF caducando graças aos parlamentares e ao lobby das bets. Mesmo que o governo possa responder cortando as emendas, o tema vai exigir uma proposta alternativa, novas negociações e congestionará a pauta da casa. Além disso, às vésperas da COP 30, o aliado Davi Alcolumbre resolveu encaminhar a pauta-bomba do PL da Destruição Ambiental engatilhado para o plenário do Senado. Isso sem contar a Reforma Administrativa, alicerçada pelos “aliados” Hugo Motta e Arthur Lira, que põe o Planalto no meio da disputa entre o Congresso e os servidores públicos, base importante do governo. Tudo isso mostra que o clima do “já ganhou” é precipitado. Parte das apostas do governo seguem na mesma linha da isenção do Imposto de Renda, buscando o eleitor de classe média que, em outros momentos, já descarregou suas frustrações econômicas no antipetismo. Por exemplo, com a faixa do Minha Casa, Minha Vida para este setor batendo recordes de adesão e uma área do programa para reformas de casas de baixa renda a caminho. A outra boa notícia é que depois de três anos batendo cabeça, o Planalto parece ter aprendido que a internet e as redes sociais fazem parte do jogo político, com uma evidente mudança de quem levou uma goleada no caso do Pix no começo do ano para quem dominou a narrativa no tema dos super-ricos e do Imposto de Renda. As manifestações de setembro, além de derrotarem o centrão, também ajudaram a levar o governo para a esquerda e agora se fala publicamente no Planalto em pautas como a tarifa zero para o transporte e o fim da escala 6 x 1, que tocam diretamente na vida de milhares de trabalhadores. Se ainda não há sinais de tempestade no horizonte, isso não significa vida fácil. O governo não pode subestimar a capacidade da Faria Lima em sabotar a economia em nome da moleza do rentismo, em especial quando ela joga combinada com a mídia e ressuscitando o fantasma da crise fiscal. E, por mais que a fase seja boa, em algum momento o governo vai ter que enfrentar o problema dos juros estratosféricos que freiam a economia e que, hoje, estão sob proteção do suposto aliado Gabriel Galípolo.
.Tem, mas acabou. O que deveria ser o ato bolsonarista para tirar da esquerda a última palavra sobre as ruas, reuniu em torno de duas mil pessoas, e foi a melhor expressão visual do que sobrou do bolsonarismo. Não só não foi capaz de arregimentar as massas, como nos bons tempos em que o agronegócio bancava os ônibus para Brasília, como levou para o palanque apenas os últimos fiéis, um desfile de subcelebridades do Congresso como Bia Kicis e Zé Trovão, cujo destino político está amarrado ao do condenado ex-capitão. Evidentemente, contribuiu para o desânimo que o mais recente a abandonar o barco tenha sido Donald Trump. Além disso, assim como a aprovação do governo Lula, a rejeição à Anistia também cresceu nas pesquisas de opinião. Considerando que pela segunda semana seguida ninguém falou em Anistia ou em PL da Dosimetria, fica evidente que qualquer possibilidade de liberdade de Jair Messias passa exclusivamente pela eleição de um candidato de extrema-direita. Mais precisamente Tarcísio de Freitas, já acomodado como mais fiel aliado, mas não necessariamente ainda como “o” candidato, afinal uma reeleição quase certa também atrai o governador paulista a ficar onde está. Especialmente, porque o desempenho de ambos na última pesquisa Quaest é de apenas 1% nas menções espontâneas. Além de avançar na simbiose com o padrinho, Tarcísio também tem gostado da disputa por liderar uma direita dividida e desorientada, orientando a oposição na MP do IOF, como fez antes com o PL da Anistia. Por outro lado, ao abandonar o figurino de um candidato de “centro” e professar a fé no bolsonarismo, Tarcísio também herda os erros da família e um aliado ou adversário incômodo, Eduardo Bolsonaro, considerado o maior responsável pelo crescimento de Lula e pela divisão da direita. Por fim, que ninguém confunda a derrocada do bolsonarismo com o fim da extrema-direita. Se eles estão longe do Planalto neste momento, a estratégia do centrão é de ampliar o domínio sobre os governos de Estado e sobre o Congresso.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.A Era do Neofascismo: Um Desafio Global. No Esquerda Online, Henrique Iglecio e Jean Montezuma refletem sobre a ascensão do neofascismo na última década.
.Genocídio: a mão oculta do sistema financeiro. Como bancos, fundos e seguradoras negociam títulos que alimentam a máquina de guerra israelense. No Outras Palavras.
.Como os erros de Trump estão criando uma oportunidade histórica para o Brics. Na Jacobina, Marco Fernandes e Juliane Furno analisam o papel de Trump no fortalecimento dos Brics.
.Sozinho, agro brasileiro emite mais que qualquer país da América do Sul. Com cerca de 238 milhões de cabeças de gado, o Brasil é um dos líderes na emissão de metano no continente americano. No InfoAmazônia.
.Mudanças climáticas desafiam Sairé, festa da fartura e tradição da Amazônia. Celebração milenar do Tapajós marcado historicamente pela fartura, sofre com a escassez. No Repórter Brasil.
.Raoni narra suas batalhas, espirituais e terrenas, pela preservação da Floresta. Um dos maiores líderes indígenas brasileiros lança livro de memórias. Na Sumaúma.
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
