A casa oferece preservação ambiental, com combustíveis fósseis, agronegócio, extrativismo e subcelebridades. E, ainda assim, é um sucesso.
.Vendendo o verde. As disputas na segurança pública fizeram com que a COP 30 tivesse que duelar para ser a pauta número um da semana. Lula projetava que os eventos ambientais deveriam ser o ponto alto de sua agenda externa este ano. Porém, eles começaram em clima morno. A ausência de Trump na Cúpula do Clima já era esperada, e a única vantagem foi abrir espaço para a presença de políticos norte-americanos que se opõem ao republicano. O problema é que os chefes de Estado dos BRICS (China, Rússia, Índia e África do Sul) também não deram as caras. Com isso, a Cúpula virou palco para subcelebridades ovacionadas pela mídia brasileira, como o príncipe William e Emmanuel Macron. Depois veio a COP 30, que ficou marcada pelas contradições da política ambiental brasileira. Afinal, as grandes apostas do governo Lula dependem do malabarismo de compatibilizar energias fósseis e renováveis, financeirizar a preservação, defender o agronegócio e investir em grandes obras de infraestrutura. Justamente aquilo que os movimentos reunidos na Cúpula dos Povos denunciam como “falsas soluções” para os problemas ambientais. Em resumo, sem chegar a acordos no que realmente importa, a COP oficial é vista, sobretudo, como uma ótima oportunidade para fazer negócios e “atrair investimentos” para o Brasil, nem sempre tão “verdes” assim. É o caso dos minerais críticos, estratégicos para a corrida tecnológica, como lítio, grafita, níquel e terras raras usados na fabricação de baterias, turbinas e veículos elétricos. Apesar dos limites, Lula conseguiu dar projeção mundial à pauta ambiental, deu destaque para a ministra Marina Silva, compensando a punhalada de ter autorizado a exploração de petróleo na margem equatorial do Amazonas, e ele mesmo se fez presente diariamente na mídia doméstica, o que não é de se desprezar a menos de um ano das eleições.
.Notícias de uma guerra particular. Como todo mundo já previa, a pesquisa Quaest apontou um freio no crescimento da aprovação do governo, principalmente no eleitor menos identificado com o lulismo ou o bolsonarismo, ainda que a percepção sobre a queda da inflação e as negociações com Trump tenham favorecido o governo. A pesquisa também revelou a percepção confusa dos entrevistados sobre a segurança pública, aprovando a ação no Rio, mas não desejando que ela aconteça em seus estados e defendendo a classificação do tráfico como terrorismo, mas descartando a ação dos EUA no país. Ainda assim, a violência saltou entre as preocupações dos brasileiros, deixando a economia bem para trás. Mas nem tudo são más notícias para o governo. A avaliação do Consórcio da Paz dos governadores de extrema-direita também foi negativa e o Planalto teve vitórias num terreno mais hostil, o Congresso. Numa queda de braços com o secretário de Segurança de Tarcísio, Guilherme Derrite, de volta à Câmara apenas para relatar o projeto anti facção, o governo levou a melhor e conseguiu impedir que o movimento da extrema-direita de contrabandear a ideia de narcoterrorismo fosse incluída no projeto. Para isso, contou com as tradicionais oscilações de Hugo Motta, o mesmo que pediu a volta de Derrite, e com um recadinho da Faria Lima contra o projeto. Supostamente, o mercado financeiro teme que a legislação internacional que proibe investimento em países com terrorismo afastasse o capital externo. Mas, na prática, com os efeitos da Operação Carbono Oculto, o temor era ver as fintechs associadas ao terrorismo. O que também não significa que as coisas estejam pacificadas no Complexo do Centrão, já que diante da iminente derrota, os governadores de extrema-direita pediram para retirar o projeto da pauta e ele pode ir à votação só no final do ano legislativo e depois da PEC da Segurança. A bancada da bala e a do boi, sempre juntas, também pretendem derrubar o Plano Nacional de Proteção a Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, enquanto o setor mais malandro do centrão desengavetou a proposta do voto distrital “como forma de combater facções” e quer pôr na conta das negociações. E, no meio disso tudo, a CPI do Crime Organizado, mesmo com o tema do momento, continua procurando um rumo, com propostas para ouvir líderes de organizações criminosas e até o presidente de extrema-direita de El Salvador, Nayib Bukele.
.Arroz com feijão. Enquanto todos os olhos estavam voltados para Belém, o quotidiano da política seguia em Brasília. Guilherme Boulos assumiu a Secretaria Geral da Presidência e começou a mostrar trabalho com o lançamento do Governo na Rua, um esforço de reaproximar o Planalto de suas bases populares. Porém, enquanto Lula fazia as honras da casa para os líderes estrangeiros, o centrão aproveitou para inflacionar o preço da indicação de um novo ministro para o STF. É que, como se sabe, o favorito de Davi Alcolumbre é Rodrigo Pacheco, e não Jorge Messias, como prefere Lula. E, como é de praxe, as negociações poderão envolver a concessão de cargos para o centrão, no Banco do Nordeste, no CADE e na Caixa. Aliás, vale salientar que o governo Lula entra em sua reta final sem resolver um dos problemas centrais de sua governabilidade, justamente o aumento do poder econômico do centrão. No caso das emendas, a PGR e o STF até têm tentado moralizar a transparência na destinação dos recursos, mas a verdade é que as emendas viraram mania nacional, chegando até os estados e municípios, que já movimentam cerca de R$12 bilhões sem qualquer fiscalização. E o problema vem sendo empurrado com a barriga pelo governo e só é lembrado quando o valor da fatura aumenta. Outro tema que promete virar o ano pendente é a relação do Planalto com o Banco Central. A dúvida permanece: Galípolo decidiu mesmo fazer carreira solo como gestor acima de qualquer suspeita e agradar o mercado, ou está aguardando uma correlação mais favorável dentro do Copom? Até agora, tem prevalecido o melhor perfil tecnocrático, aumentando os juros com a justificativa de que “não se pode brigar com dados”. Mas a maturidade do “menino de ouro”, deve frear o crescimento do PIB sem resolver a inflação, enquanto o ministério da Fazenda precisa fazer ginástica para manter o compromisso do governo com a estabilidade e reduzir a dívida pública.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Exageros, utopias e especulações: o que CEOs de Big Techs dizem sobre IA. O Núcleo Jornalismo descobriu que eles não sabem o que dizem nem pra onde estamos indo.
.Aves infectadas com vírus teriam sido testadas pelos EUA como armas biológicas no Brasil. A descoberta da historiadora Laura de Oliveira Sangiovanni de testes dos EUA em território brasileiro na Guerra Fria. Na Agência Pública.
.Na Cúpula dos Povos, o prato é político. Para os movimentos sociais, o que está em disputa é o modelo de produção e a soberania alimentar. N’O Joio e o Trigo.
.Florestas Tropicais para Sempre, ou até o próximo crash. O Joio e o Trigo explica como funciona o Fundo do governo brasileiro, que não recebe doações, mas “empréstimos” com promessa de retorno financeiro.
.Gravidez na infância, notificação policial e mulheres presas. Frentes parlamentares, desinformação e atuação nos estados e municípios fazem parte da estratégia antiaborto da extrema-direita. No Brasil de Fato.
.Entrevista com Atef Abu Saif. O escritor e ex-ministro da cultura palestino é o entrevistado do A Terra é Redonda.
.Muito além da classe média branca na oposição à ditadura. Na Jacobina, Pablo Pamplona reflete sobre cinema brasileiro e classes populares na resistência à ditadura.
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
