Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Pierrot, Arlequim e Colombina

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Na foto (da esquerda para a direita): deputado federal, Odair Cunha (PT-MG); presidente do Senado Federal, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP); presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o Senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG)
Na foto (da esquerda para a direita): deputado federal, Odair Cunha (PT-MG); presidente do Senado Federal, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP); presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o Senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) | Crédito: Ricardo Stuckert / PR

Mais do que unidade no palanque nacional, a estratégia de Lula e do PT é garantir a neutralidade do centrão na disputa presidencial

Olá!

Passadas as aventuras de Carnaval, o centrão terá que decidir a quem entregar seu amor.

.Vamos ser outra vez nós dois. Depois que Eduardo Bolsonaro deu um empurrãozinho para que Lula recuperasse a popularidade e a bandeira do Brasil, foi a vez de Flávio dar uma mão para o que parecia impossível há um ano: trazer o centrão para o palanque de Lula. 

A candidatura de Flávio não só derrubou o favorito do centrão e da Faria Lima, Tarcísio de Freitas, como oferece tudo o que a direita não quer, ou seja, mais quatro anos de dependência da família Bolsonaro. O resultado foi a movimentação de MDB, PSD, União Brasil e PP em direção a Lula, com direito a sinalizações também por parte do PT e do próprio Lula.

Mesmo o boato que circulou de que Lula toparia trocar seu vice não deixou de ser um afago ao MDB. Na prática, Alckmin vem bem escudado pelo PSB, uma máquina eleitoral no Nordeste, e oferece mais unidade e segurança do que o fratricida agrupamento de Renan Calheiros. Mais do que unidade no palanque nacional, a estratégia de Lula e do PT é garantir a neutralidade do centrão na disputa presidencial e contar com as divisões dos próprios partidos para amarrar os apoios estado por estado. Não só do MDB, mas também do PSD, eventualmente apoiando candidaturas destas legendas, como Eliziane Gama (PSD-MA).

E se a sinalização de Ciro Nogueira, que está disposto a conversar, surpreende, o que dizer do apoio de Lula à candidatura de Rodrigo Pacheco (atualmente no PSD) em Minas Gerais pelo União Brasil? Outro motivo para a estratégia funcionar é que, além do centrão, o bolsonarismo também vive suas divisões. E sempre entre os filhos e a esposa do ocupante da cela VIP da Papudinha.

Além da briga com Carlos em Santa Catarina, onde Michelle preferia Carol de Toni, e da discreta rejeição da madrasta à candidatura de Flávio, a briga ainda respinga e se espalha pelo PL e dentro do núcleo evangélico do bolsonarismo. De qualquer maneira, Lula tem razão em se apressar para fechar os palanques.

Nos cálculos de José Roberto de Toledo, as pesquisas apontam que estas eleições terão um número recorde de eleitores já decididos desde agora, mesmo meses antes do pleito. O que pode ser medido pelo alto número de votos espontâneos nas pesquisas, sem necessidade de apresentar ou induzir candidatos. Apenas um quarto dos eleitores ainda não sabe em quem vai votar, o que também torna a disputa pelos votos de fora das bolhas como o centro da tática eleitoral.

.Sem pingos de amor. Não é apenas o medo de ficar refém da família Bolsonaro por mais quatro anos que levou o centrão a reconsiderar sua relação com Lula. Contou também o instinto de autopreservação num cenário que cheira cada vez mais à crise institucional.

Diferentemente das aventuras de 2016 e 2018, quando o centrão apostou no caos ao lado de Temer e de Bolsonaro, agora ele calcula que pode perder mais do que ganhar. Até agora, a CPI do Master não saiu do papel, e o presidente da CPI do Crime Organizado insiste em vetar a convocação de ministros do STF. Porém, as novas revelações sobre o envolvimento do ministro Dias Toffoli foram suficientes para afastá-lo da relatoria dos inquéritos.

Já Davi Alcolumbre teme que as investigações sobre o envolvimento do Fundo de Previdência do Amapá com o Master possam atingi-lo. Lula, pelo contrário, segue tranquilo, o que serve como uma demonstração de força frente a aliados pouco confiáveis.

Vale lembrar que o Planalto beneficia-se também da atuação de Flávio Dino, que poupou o Planalto de enfrentar sozinho os interesses corporativos da Câmara, quando esta aumentou o salário de seus servidores para além do teto constitucional.

Mas não é novidade que, na Câmara, o movimento é mais truncado devido ao jogo duplo de Hugo Motta. Com uma das mãos, Motta destravou o projeto de fim da escala 6 x 1, que passará a ser apreciado pela CCJ. Mas, com a outra, flerta com o bolsonarismo e ainda pode (quem dúvida?) tentar derrubar o veto de Lula ao projeto da dosimetria. Há também fortes expectativas para ver se o presidente da Câmara cumprirá o acordo de apoiar o candidato governista para dirigir o TCU.

Claro, o centrão também tem um bilhão e meio de motivos para colaborar com o Planalto, a nova cifra recorde de emendas liberadas no início deste ano. Mesmo assim, nada está garantido e a proposta de fim da escala 6 X 1, prioridade de Lula, sofre resistência do empresariado, que pretende aprová-la sem a redução da atual jornada de trabalho de 44 horas semanais. Por isso, e também porque interessam mais à direita, talvez os projetos sobre segurança pública andem mais rápido no Congresso que as pautas trabalhistas.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Deixem Cuba Viver: artistas, intelectuais e ativistas denunciam asfixia energética dos EUA como forma de ‘terrorismo’. Carta aberta lançada nos Estados Unidos denuncia a política criminosa de Trump. No Brasil de Fato.

.Do bolsonarismo ao cristofascismo: como a extrema-direita transforma o mercado em religião e prepara seus herdeiros no Brasil. No Jornal Opção, Giovanna Campos apresenta o conceito de cristofascismo, desenvolvido pela pesquisadora Gabriela Segura-Ballar.

.Rede de extrema-direita impulsiona candidatura de Aldo Rebelo a presidente. O ex-comunista agora é apoiado pela Nova Resistência, um grupo neofascista ligado à Rússia. Na Lupa.

.Como a Selic a 15% inviabiliza o investimento produtivo no Brasil. No GGN, Luís Nassif mostra como a taxa de juros elevada impulsiona a crise econômica brasileira.

.Ser branco no Brasil: entre o desejo da França, o medo do Haiti e o triste fim. Luiz Antonio Simas reflete sobre o apagamento da Revolução Haitiana nos livros de história. No ICL Notícias.

.O rock pró-apartheid? Na Jacobina, Fergal Kinney analisa os diferentes posicionamentos das estrelas e bandas de rock frente ao genocídio palestino.

.Já ouviu a trilha sonora de “O Agente Secreto”? Conheça a mistura de composições originais, canções pernambucanas, brega nordestino e hits internacionais. Na Gama.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Geisa Marques

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