Olá! A folia terminou, mas o desfile dos “Magistrados do Banco Master” continua na avenida.
.Inimigos do fim. Já era quarta-feira de cinzas para Dias Toffoli antes mesmo do Carnaval. Com as informações da PF de que o celular de Daniel Vorcaro comprovaria as conexões do banqueiro com o ministro do STF, a permanência de Toffoli como relator do processo ficou insustentável. Os ares de unidade e transparência que o STF pretendia dar à saída não duraram vinte e quatro horas, já que os ministros suspeitam que o próprio Toffoli vazou gravações da reunião para a imprensa no dia seguinte.
O ambiente deve ficar ainda mais tenso, porque as suspeitas indicam que Toffoli era mais do que sócio do banqueiro num resort e pode ter influência em dois processos na Corte que eram de interesse de Vorcaro.
Além disso, todo o episódio tem sido permeado por desconfianças e tensões entre a PF, o MPF, a PGR e o STF. Nos bastidores, Toffoli culpa Lula pelo vazamento das suas relações com o banqueiro. E a verdade é que o Planalto comemorou a troca de ministro no caso.
O primeiro efeito imediato da saída de Toffoli é que os holofotes se voltam agora para Alexandre de Moraes, cuja esposa tinha um contrato de R$ 130 milhões para defender o banco. E Moraes parece contaminado pela mesma falta de prudência de Toffoli, determinando a investigar auditores fiscais que teriam vazado informações sigilosas de ministros e familiares, supostamente ligado ao caso Master, usando suas atribuições no infinito inquérito das Fake News, aberto lá atrás pelo mesmo Toffoli para o STF investigar, julgar e punir.
O segundo efeito é colocar André Mendonça, que também é relator das fraudes do INSS, no centro do tabuleiro político. Caberá a ele decidir sobre o nível de sigilo do caso e sobre uma eventual devolução para a primeira instância na Justiça Federal.
Vale lembrar que Mendonça chegou ao STF como “terrivelmente evangélico” e que o caso Master envolve também a igreja Lagoinha Church, onde a irmã e o cunhado e sócio de Vorcaro são pastores, e que outro evangélico, o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, já interferiu nas investigações do Banco Central. Porém, o Planalto avalia que, se Mendonça passar o pano para o Master, a conta cairá no bolsonarismo, responsável pela indicação do Ministro.
.Ninguém segura a mão do STF. Enquanto o STF se abraça firmemente ao carro em chamas do Master rumo ao abismo, todo o restante da classe política envolvida prefere sair de fininho e fingir que não tem nada a ver com o assunto.
Como lembra Marina Amaral, além de completamente de direita, a lista de amigos do Master é longa: Ciro Nogueira, Antonio Rueda, Ibaneis Rocha, Davi Alcolumbre, Campos Netto, Filipe Barros, Claudio Cajado, Arthur Lira, Tarcísio Freire, Jair Bolsonaro.
Mais discreto que Toffoli – e tão comprometido quanto – Davi Alcolumbre não apenas vai garantir que nenhuma CPI seja instalada, como pretende colocar o Congresso para trabalhar em pautas mais populares como o fim do 6×1, a PEC da Segurança e o Acordo UE-Mercosul para gerar um grande “deixa disso”, enquanto o PL Anti Facção aguarda para ser votado na Câmara. O governo, é claro, pretende se beneficiar desse esforço de mudança da pauta política, avançando em seu próprio programa.
Alcolumbre também não deve mexer uma palha nos pedidos de impeachment de Dias Toffoli, um tanto por solidariedade, outro tanto para não abrir a porteira sonhada pelos bolsonaristas para fustigar o STF como vingança pelo julgamento dos golpistas e por expor a farra das emendas. E logo à frente, o presidente do Senado terá que enfrentar outro tema delicado que envolve o STF: a nomeação do ministro Jorge Messias para a vaga de Luís Roberto Barroso, que deve ser resolvida ao longo de março.
Cautela com o Master também é a palavra de ordem dentro do núcleo bolsonarista. Flávio Bolsonaro já foi aconselhado a não tocar no assunto, até porque seu pai recebeu polpudas doações eleitorais dos Vorcaro. Por isso também, parte do bolsonarismo tratou de abafar a convocação de Nikolas Ferreira para um ato “Fora Toffoli”. O medo é de que uma direita não-bolsonarista, como o MBL e Romeu Zema, tire a pauta da anistia do centro da direita e ganhe espaço com outras pautas.
.Carnaval em Nova Delhi. Em ano eleitoral, a política não poderia ficar fora do Carnaval. O desfile da Acadêmicos de Niterói homenageando Lula e escrachando Bolsonaro gerou controvérsias sobre o possível caráter de propaganda eleitoral antecipada. Mas a verdade é que a própria esquerda ficou receosa com o tom das críticas na avenida, como aquelas direcionadas à “família em conserva”, que engajou a direita e pode ter espantado a base evangélica, um dos setores considerados estratégicos para a vitória de Lula em outubro.
Seja como for, lembra Leonardo Sakamoto, o Carnaval no Brasil nunca decidiu eleição. Mesmo dando as caras na avenida, Lula estava mais preocupado com seu giro pela Ásia e em reposicionar o Brasil num cenário internacional cada dia mais conflituoso. A visita à Índia é vista como uma oportunidade de fortalecimento das relações do Brasil com os Brics para além do eixo Rússia-China.
A escolha busca evitar qualquer movimento que possa ser interpretado como uma afronta aos Estados Unidos, como ocorre também na política do Itamaraty em relação a Cuba. Ainda mais agora que Lula planeja uma visita à Casa Branca em março.
A vantagem é que a Índia é um país menos alinhado, com pretensões próprias, estratégico por seu peso econômico e com o qual o Brasil tem poucas relações comerciais. E todas as viagens são boas oportunidades para afagar o agronegócio, já que uma das principais pautas da comitiva brasileira é o aumento das exportações de algodão, sementes, óleo de soja e minerais para a Índia, e da carne para a Coreia do Sul.
O Brasil ainda pretende acelerar o processo de importação de medicamentos indianos, e a Índia discute a compra de aeronaves brasileiras. Outro tema central nas agendas é a Inteligência Artificial e o comércio de minerais críticos. Lula defendeu a regulação democrática da Inteligência Artificial, hoje dominada pelas big techs, para que não seja instrumento de desigualdade e de disseminação do discurso de ódio. Já o governo indiano tem interesse nas terras raras brasileiras, mercado hoje dominado pela China, e cuja exploração tem interessado cada vez mais o empresariado mundial. Aliás, as terras raras devem ser um dos pontos de negociação entre Lula e Trump em seu encontro em março.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Brasil perde 111 mil escolas do campo em 24 anos: ‘Estão matando a vontade do jovem ficar’. O Brasil de Fato faz um retrato da realidade da educação do campo no país, pressionada pelo agronegócio.
.Cuba e Gaza, faces da mesma moeda. No Terapia Política, Mihai Cauli denuncia as punições coletivas impostas pelo imperialismo na atualidade.
.SP: A água nas mãos de um monopólio privado. Bianca Caroline Bortolin e José Gilberto de Souza analisam os efeitos da privatização da Sabesp. No Outras Palavras.
.O racismo estrutural transformado em “política pública” em Santa Catarina. Do acesso à universidade ao mercado de trabalho, o Le Monde revela o teor racista do governo catarinense.
.Submundo da Sapucaí: trabalho precário afeta empregados das escolas de samba da ‘série B’ do RJ. Quando o carnaval é superexploração do trabalhador. No Repórter Brasil.
.Ano Novo Chinês: o que é o Horóscopo Chinês? Veja como o antigo calendário moldou a vida por séculos. A National Geographic explica o surgimento e a atualidade do horóscopo chinês.
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

