Às vésperas das eleições e com escândalos para gerir, os poderes deixam a colaboração e a etiqueta de lado.
.Tudo quase igual. A mais recente pesquisa de intenção de votos divulgada pelo Atlas/Bloomberg mostra um cenário mais ou menos estabilizado para as eleições de outubro. A novidade é que, pela primeira vez, Flávio Bolsonaro aparece empatado com Lula no segundo turno, mas ainda é cedo para considerar este quadro consolidado. Ainda mais levando em conta o fogo cruzado dentro da própria direita. Eduardo Bolsonaro, agora empoderado pelo irmão como possível futuro chanceler, ataca Nikolas Ferreira e Michele, enquanto seu irmão Carlos faz questão de queimar pontes com o cacique do PL, Valdemar Costa Neto. E é neste clima de tapas e beijos que deve ocorrer a manifestação dos bolsonaristas no início de março, da qual ninguém sabe muito bem o que esperar. Tudo isso não só dificulta a consolidação das alianças e palanques estaduais, como também compromete a difícil tarefa de apresentar Flávio como um bolsonarista moderado. Como o próprio Flávio admitiu por escrito num bilhete esquecido num restaurante, incluindo um pedido de 15 milhões do deputado Marcos Pollon (PL-MS) “para não ser candidato”. Apesar disso, a variável mais importante para a disputa eleitoral não vem da direita, mas do próprio governo. O envolvimento de Lulinha na CPI do INSS pode levar o Planalto a sangrar com um escândalo que envolve diretamente a família do presidente e dar aquilo que a direita quer. Mas o principal problema continua sendo a baixa aprovação e nenhum esforço até agora conseguiu revertê-la. Vide o caso da isenção do Imposto de Renda, que ainda não rendeu apoio político. A verdade é que até agora Lula tem tido mais sucesso em neutralizar as insatisfações da elite do que em agradar ao povão. Assim, depois do governo ter conseguido abrir um importante mercado de carnes no oriente em sua viagem à Coreia do Sul, o agronegócio talvez se torne menos arredio ao líder petista. Outra vitória do Planalto foi obtida em relação ao tarifaço de Trump. As tarifas impostas arbitrariamente foram declaradas ilegais pela Suprema Corte e passou a valer uma quota geral de 10% sobre os produtos importados – que pode chegar a 15% -, mas que para o Brasil representa uma redução significativa. Mesmo assim, Trump continuará como um fantasma capaz de assombrar as eleições brasileiras até a hora derradeira.
.A turma do deixa disso. A condenação unânime dos irmãos Brazão a 76 anos de prisão encerra um dos capítulos mais dolorosos da história brasileira, respondendo a uma pergunta que foi propositalmente silenciada por oito anos: quem mandou matar Marielle Franco? A decisão histórica, neste momento, ajuda a diminuir a pressão e recuperar o protagonismo do STF depois dos episódios do Banco Master. A decisão de Gilmar Mendes de suspender os penduricalhos dos super-servidores do Judiciário também melhora a imagem da Suprema Corte. E o estilo até então discreto de André Mendonça, em comparação à algazarra de Dias Toffoli – além de desfazer as medidas, digamos, “incomuns” do seu antecessor – contribuem bastante para baixar a temperatura. Porém, bastou que as CPIs do Crime Organizado e do INSS quisessem ouvir os envolvidos no caso do Master para que Mendonça entrasse em campo. Sem rumo do começo ao fim, a CPI do INSS pretendia recuperar alguma relevância, antes de terminar de forma melancólica, convocando Daniel Vorcaro. Entretanto, uma decisão de Mendonça desobrigou o comparecimento do banqueiro. Na sequência, o ministro do STF, em decisão monocrática, também desobrigou os irmãos de Dias Toffoli de comparecerem na CPI do Crime Organizado. Mesmo que boa parte do Congresso esteja interessado numa Operação Abafa do Master, a decisão pode azedar o clima já ruim entre os poderes. Principalmente depois que a Operação Vassalos, executada pela PF e autorizada pelo STF, atingiu em cheio o coração do Congresso – o uso de emendas – além de mexer com um tradicional bunker do centrão, a Codevasf.
.Sem pele de cordeiro. Não durou um dia o plano de Hugo Motta e do centrão de aprovar um pacote de bondades na volta ao trabalho para também limpar a barra do Congresso. No caso do fim da escala 6 x 1, o clima político dava a impressão de que a aprovação era inevitável. Mas as confederações patronais e a grande mídia atacaram a medida com força, com a tradicional ameaça de que o Brasil vai quebrar”. E o centrão acabou rachando. O PL e o União Brasil fecharam acordo com o empresariado para derrotar a proposta a qualquer custo. Mas outros setores, como o próprio Hugo Motta e o senador Cleitinho, contabilizam que é melhor pegar carona numa medida popular e tentar capitalizar uma possível aprovação. Daí a escolha do deputado Paulo Azi (União Brasil-BA) para a relatoria do projeto. Outro sinal de que o projeto deve ser aprovado é a insistência do empresariado em ressuscitar a proposta da desoneração da folha de pagamento como “compensação” ou moeda de troca pelo fim da 6×1. A próxima “bondade” a ser disputada no Congresso deve ser a Tarifa Zero. Enquanto o governo ainda espera pelos estudos de compensação econômica do Ministério da Fazenda, a Câmara dos Deputados já aprovou o regime de urgência na análise do projeto que institui o marco legal do transporte público coletivo urbano, criando uma rede única e integrada de transporte, envolvendo União, estados e municípios. Mas, que ninguém espere mudanças estruturais significativas com o aval do Congresso, como se viu na aprovação do PL Anti Facção. Apesar do acordo com o governo, o relatório de Guilherme Derrite aprovado pela Câmara retirou R$30 bilhões do fundo, com a exclusão da taxação sobre as bets que financiaria a implantação do projeto. Com tudo isso, a principal lição da semana veio dos indígenas do Pará que, depois de 30 dias ocupando o terminal da Cargill em Santarém, conseguiram reverter o decreto de privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, provando mais uma vez que só a luta social garante direitos no Brasil.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Marco Rubio expõe o projeto de recolonização. A defesa do neocolonialismo e do imperialismo dos EUA aplaudido de pé pelas elites europeias. No Outras Palavras.
.Cuba, a Espanha do século XXI. Gabriel Cohn compara a defesa de Cuba à Guerra Civil Espanhola para frear o fascismo. Em A Terra é Redonda.
.IA: A chance desperdiçada na Índia. A farsa e a cilada do documento sobre Inteligência Artificial e o Sul Global assinado na Índia. No Outras Palavras.
.‘Brasil não pode ser um anão diplomático’. Em tempos de Trump, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. conclama o Brasil a ter coragem nas relações internacionais. No Correio Braziliense.
.Ives Gandra Martins e filha apoiam rede católica conservadora contra aborto e questões de gênero. Como o Opus Dei e uma rede católica conservadora tentam influenciar os três poderes. No Intercept.
.Extrema direita vai tentar ampliar bancada feminina, afirma cientista política. O Brasil de Fato entrevista a cientista política Flávia Biroli sobre a ofensiva de mulheres ultraconservadoras nas eleições.
.Supersalários: conheça 5 ‘penduricalhos’ inacreditáveis do funcionalismo. Escala 3×1, auxílio educação para filhos com 24 anos e outros privilégios do Judiciário e do Ministério Público.
.ICE de Floripa? Uniformizados e hostis, como agem os voluntários sem poder de polícia da Prefeitura de Florianópolis.
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
