Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Sete meses de agonia

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a cerimônia de abertura do ano do Judiciário.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a cerimônia de abertura do ano do Judiciário. | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os ventos desfavoráveis estão cada vez mais fortes e as fundações construídas pelo governo nos últimos quatro anos podem não aguentar

Olá, a oposição cresce nas pesquisas eleitorais e o governo padece com dificuldades econômicas, entraves no Congresso e escândalos que afetam as instituições.

.Jogo de azar. O resultado das eleições são sempre a mistura de fatores de longo prazo, estratégias eleitorais e os imponderáveis da política. Acontece que as últimas pesquisas mostram que os ventos desfavoráveis estão cada vez mais fortes e que as fundações construídas pelo governo nos últimos quatro anos podem não aguentar. É verdade que o bolsonarismo ficou desmoralizado depois da prisão de seu líder. No entanto, os escândalos recentes envolvendo ministros do STF acabaram pesando favoravelmente para a direita. Foi assim que a candidatura aparentemente inviável de Flávio Bolsonaro ganhou fôlego a ponto de chegar a um empate técnico nas projeções para o segundo turno. Mas, pior do que o crescimento de Flávio é a percepção da população de que a economia está piorando. Para 66% dos pesquisados, a isenção do Imposto de Renda não trouxe nenhum benefício. E a explicação pode estar no fato de que 80% dos brasileiros – ou 4 em cada 5 famílias – estão endividados. Neste terreno, reinam os juros estratosféricos e galopantes que Gabriel Galípolo se recusa a baixar. E tudo pode piorar com um possível desabastecimento de diesel no Brasil que o governo tenta conter. A grande aposta do Planalto para este ano, o fim da escala 6 x 1, pode não sair, e a mesma resistência dos empresários emperra o avanço do PL dos motoristas por aplicativo. Isso para não falar dos problemas estruturais, como o aumento na fila do INSS. Por outro lado, Lula talvez tenha subestimado a violência dos ventos que vêm de fora. Mesmo tendo superado a má fase do tarifaço de Trump, o pior não ficou para trás. Com o sequestro de Maduro na Venezuela, o aperto do cerco contra Cuba e agora a proposta de classificar facções criminosas como o CV e o PCC como terroristas, o fantasma de uma intervenção norte-americana cresceu, incluindo o temor de que Trump tente influenciar as eleições brasileiras. A desconfiança é reforçada pela chegada de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado norte-americano, ao Brasil para encontrar-se com Jair Bolsonaro e o filho candidato. Claro, o aumento no número de governos subservientes aos Estados Unidos no continente, que avança agora para uma aliança militar, o “Escudo das Américas”, torna a vida do governo Lula ainda mais difícil. E o único alento vindo dos países vizinhos é a possibilidade de uma reeleição de Gustavo Petro na Colômbia depois de uma importante vitória da esquerda nas eleições legislativas.

.Fiel da balança. Daniel Vorcaro conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, o inimigo público n.º1, o melhor amigo dos altos escalões do Judiciário e do Congresso e o personagem que poderá definir o rumo das eleições de outubro. Por enquanto, os estilhaços da bomba Master têm atingido principalmente o STF, inclusive na percepção da população, que relacionam o episódio diretamente com a Suprema Corte. Depois do afastamento de Dias Toffoli, todos os olhares se voltaram para Alexandre de Moraes, que ainda não conseguiu dar uma explicação contundente sobre as mensagens com o banqueiro, que é também empregador de sua esposa. Porém, como Xandão foi o protagonista da julgamento golpista, alçado a heróis por uns e vilão para os bolsonaristas, seu envolvimento com o Master acaba por jogar água no moinho da candidatura de Flávio Bolsonaro. Apesar de toda a alta cúpula do centrão estar envolvida carnalmente com o Master a ponto de tentar barrar um acordo de delação premiada de Vorcaro com a justiça, o esforço da extrema-direita é transferir a conta para o governo e o petismo. Parte da manobra é questionar a não-assinatura do PT ao pedido de CPI do Master. É improvável que a CPI saia do papel, por isso mesmo, Flávio Bolsonaro quer surfar com a crise, assinando o pedido depois que já havia assinaturas suficientes, sem ter o risco de questionarem as doações da família Vorcaro para as campanhas de Jair e Tarcísio. O que também joga contra a nova CPI é o fato das CPIs já existentes não terem conseguido abordar o escândalo. A CPI do INSS tinha no Master a última esperança de ganhar relevância, mas mal tem conseguido se reunir. Outro motivo para o Congresso pisar devagar é que todo ataque ao STF pode ter uma reação na mesma proporção no tema das emendas. A possibilidade de condenação de três deputados do PL é provável e deve servir de alerta aos demais parlamentares, tanto sobre o uso das emendas, quanto sobre o humor da Corte. Da parte do governo, a estratégia é lembrar que Vorcaro pintou e bordou durante a gestão de Campos Neto no BC. Porém, governo e oposição já perceberam que será difícil estancar a crise do Master até outubro e que isso pode abrir caminho para mais uma eleição com um discurso antissistema, anticorrupção, e que sempre favoreceu a extrema-direita.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Banco Master: a reconstrução completa de como uma fraude capturou a República. A anatomia do esquema fraudulento e das relações perigosas de Daniel Vorcaro. Na Agência Pública.

.Quando a imprensa conta mais sobre si mesma do que sobre os fatos. Eliane Brum critica o tratamento da imprensa à luta dos povos indígenas contra a privatização do Tapajós. Na Sumaúma.

.Sem orçamento e armazéns, recomposição de estoques de alimentos ‘patina’. A Conab retomou a compra de grãos, mas os estoques reguladores continuam muito aquém do necessário. Em O Joio e o Trigo.

.Culto a Israel, armas e Batman: quem é a idealizadora do ‘Ice de Floripa’. Criadora do Dia do Batman, adoradora de Israel e de armas, o ICL traça o perfil da vice-prefeita de Florianópolis, criadora do ICE local.

.Banda Black Rio e os 50 anos da fusão entre a música negra e o samba. A Carta Capital celebra os 50 anos da banda que juntou jazz, soul e samba.

Editado por: Nathallia Fonseca

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