Brasil Popular

A coluna do Movimento Brasil Popular é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Escrita por militantes do movimento de todo o Brasil, ela aborda temas relacionados à política brasileira, luta ideológica e os desafios da esquerda na organização popular.

Misoginia organizada: o avanço red pill e seus impactos na violência de gênero

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Misoginia é a conduta que manifesta ódio ou aversão às mulheres | Crédito: Elineudo Meira @fotografia.75
Misoginia é a conduta que manifesta ódio ou aversão às mulheres | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

Assim, a misoginia organizada não apenas expressa a violência de gênero, mas atua diretamente na sua produção e sustentação.

Nos últimos anos, um conjunto de comunidades digitais têm ganhado visibilidade e influência ao redor do mundo — e também no Brasil. Conhecido como “red pill” (pílula vermelha), esse movimento, que se apresenta como uma espécie de organização masculina, estrutura-se como uma rede de disseminação de misoginia que vem sendo cada vez mais associada ao agravamento da violência de gênero.

A expressão, originalmente inspirada no filme Matrix, foi apropriada por grupos online que defendem a ideia de que os homens estariam vivendo sob um suposto “domínio feminino”. A partir dessa narrativa, constrói-se uma visão de mundo que reforça a hierarquia de gênero, a desconfiança, a domesticação e a submissão das mulheres e a valorização de modelos rígidos de masculinidade.

Embora frequentemente apresentado como um espaço de aconselhamento ou desenvolvimento pessoal, o universo red pill integra o que pesquisadores chamam de “machosfera” — uma rede de comunidades digitais que inclui grupos como incels e MGTOW (man going their own way – homens seguindo o seu próprio caminho), conhecidos por promoverem ódio, misoginia, ressentimento e discursos de superioridade masculina.

Esse crescimento não ocorre isoladamente. Ele está inserido em uma conjuntura marcada por transformações sociais profundas nas últimas décadas, como o avanço dos direitos das mulheres, mudanças nos papéis de gênero e a ampliação do debate público sobre desigualdades. Para parte desses grupos, essas mudanças são interpretadas como ameaças, o que alimenta reações organizadas e, muitas vezes, radicalizadas. Em contrapartida, nos últimos anos a extrema-direita e o conservadorismo têm crescido exponencialmente, assim como os conflitos, a disputa por hegemonia e, nesse sentido, esses grupos encontraram cenário frutífero para crescer. 

Em confluência, o ambiente digital, sua capacidade de projeção e de influência tem potencializado esse fenômeno. Plataformas online não apenas facilitam a circulação desses conteúdos, como também contribuem para sua amplificação e monetização. Esses influenciadores ligados aos discursos de ódio e subjugação das mulheres alcançam milhões de visualizações, transformando a misoginia em produto e estratégia de engajamento. O impacto, no entanto, vai muito além do ambiente virtual: esses espaços funcionam como catalisadores de violência, ao normalizar o ódio e legitimar práticas agressivas.

Nesse sentido, essa misoginia organizada que vem se fortalecendo permite compreender que a violência contra mulheres, no contexto contemporâneo, não se limita a atitudes individuais ou episódios isolados, mas se estrutura como prática coletiva, sistemática e socialmente produzida. Trata-se de um fenômeno que articula discursos, afetos e identidades em ambientes — especialmente digitais — que não apenas reproduzem, mas intensificam o ódio às mulheres, transformando-o em forma de pertencimento e ação. Nesses espaços, a desqualificação, a desumanização e a incitação à violência deixam de ser desvios e passam a operar como norma, criando condições para a legitimação e a escalada de agressões. Assim, a misoginia organizada não apenas expressa a violência de gênero, mas atua diretamente na sua produção e sustentação.

Diante desse cenário, o enfrentamento exige mais do que respostas individuais. É necessário fortalecer políticas públicas, educação crítica sobre gênero e estratégias de regulação das plataformas digitais, além de ampliar redes de proteção às mulheres. Ignorar esse fenômeno é permitir!

Nesse sentido, medidas importantes estão sendo construídas e pautadas cotidianamente pelas mulheres, tanto nos espaços institucionais, no âmbito legislativo, quanto nas mobilizações de rua, organizadas pelos movimentos sociais. No final, deste mês de março, tivemos uma importante vitória que foi a aprovação no Senado do Projeto de Lei 896/2023, que inclui a misoginia como crime de preconceito e discriminação. Para este tipo de crime, está prevista a pena de 2 a 5 anos de prisão acrescida de multa. Essa medida foi aprovada pelo Senado no dia 24 de março deste ano, representando uma importante vitória neste mês que aglutina várias lutas do movimento feminista.

Outra medida importante neste sentido foi o Projeto de Lei 6194/2025, da deputada federal Ana Pimentel (PT-MG), que aponta o conceito de misoginia digital e adota medidas de proteção às mulheres no meio digital. O projeto de lei propõe medidas como a retirada imediata de conteúdos ofensivos, o bloqueio de contas que propagam agressão, a limitação do alcance de publicações misóginas, como também a desmonetização destes tipos de perfis. O referido Projeto de Lei estabelece também a proposta da Política Nacional de Educação Digital para a Igualdade de Gênero, que prevê a promoção de medidas preventivas  que venham fortalecer a cidadania digital a partir da perspectiva de gênero, e cria o Sistema Nacional de Integridade Digital de Gênero (SNIDG), que seria um instrumento para monitorar e articular políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres nas redes sociais.

Cabe destacar também que o Ministério das Mulheres lançou em 2023 a campanha “Brasil sem misoginia”, uma mobilização nacional envolvendo diversos segmentos da sociedade civil, clubes esportivos e instituições privadas, com o objetivo de ampliar a conscientização sobre a necessidade urgente de enfrentamento à esse tipo de crime.

Para além das medidas institucionais, temos clareza que para enfrentarmos cotidianamente a misoginia é fundamental que esta pauta esteja presente também nas ruas. Por isso, nacionalmente nas lutas unificadas realizadas no 8 de Março deste ano, juntamente a várias outras pautas, o movimento feminista denunciou a misoginia presente no cotidiano da vida das mulheres, principalmente no meio digital.

E a mulherada segue firme na luta pela construção de uma sociedade livre de todas as formas de violência contra as mulheres. Afinal, “o mundo que a gente quer, não tem violência contra a mulher”.

*Ellen Araújo e Lízian Martins fazem parte do Setor Nacional de Mulheres do Movimento Brasil Popular

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


Editado por: Thaís Ferraz

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