Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.
E, nos últimos dias da grande confusão, se levantará um juiz de peruca, cujo nome terá o sinal do X, e os povos tremerão, não por justiça, mas por pura perplexidade.
Pois virá montado não sobre cavalo branco, nem sobre camelo, mas sobre um sedã oficial, dizendo: “Eis que venho para julgar, porém antes, deixai-me ajustar a peruca.”
E quando ele ajeitar a peruca pela terceira vez, e o galo cantar, haverá ranger de dentes e as leis regredirão.
Então os escribas do tribunal murmurarão: “Quem é este homem de madeixas postas? Quem ousa julgar com tanto laquê?”
E responderá o povo: “É aquele de nome impronunciável, que contém o X misterioso, símbolo do voto que se inclina mais ao aliado que à balança.
E será conhecido por seus vereditos longuíssimos, que farão os réus envelhecerem antes da sentença.
E muitos buscarão refúgio em pedidos de vista, mas não haverá lugar seguro, pois o juiz de peruca já terá aberto a sessão eterna.
E dirá ele: “Em verdade, em verdade vos digo: quem não ouvir meu voto até o fim, nem o tribunal dos céus o reconhecerá.”
E cairá um grande silêncio sobre os fóruns, e as rotinas processuais cessarão, pois todos aguardarão o parecer final do Excelso X.
E então se cumprirá a profecia: “Quando o justo não entender o despacho, e o injusto disser ‘amém’, então saberás que o fim está próximo.”
E a terra será dividida entre os que dizem “sim, Excelência” e os que apenas clicam em “concordo com os termos”.
E haverá grande balbúrdia entre advogados e teólogos, pois ninguém saberá onde termina o Código Penal e começa o Apocalipse.
Assim, até o fim dos tempos muitos serão os que seguirão ouvindo a fala do juiz de peruca. Que o Senhor se apiede deles.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
