Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.
O carioca médio já não se assusta com barulho de tiro. Ele escuta e pensa: “isso é .45 ou 7.62?” – e volta a fritar o ovo. Cadáver na calçada virou ponto turístico da indiferença: “ali morreu um cara, mas olha esse quiosque, tem água de coco a cinco reais!”
A modernidade ali não constrói pontes, só covas rasas. Não conecta pessoas, exceto via frequência de rádio da PM. E, se alguém disser que somos uma nação pacífica, é porque ainda não viu o número de armas pesadas que entram no morro com mais facilidade do que um Uber na Zona Sul.
A política de segurança estadual virou uma espécie de reality show com eliminação ao vivo. Toda hora tem operação: helicóptero, tiro, sangue, coletiva. Faltam apenas o apresentador e os comerciais da Jequiti. No fim, morre alguém (geralmente preto, pobre e periférico), e algum deputado posta: “Bandido bom é bandido morto.”
Quase dá pra ouvir o amém ao fundo.
A direita cristã, sem dúvida, fez escola com Lázaro: transforma cadáver em voto. É um milagre reverso, a ressurreição da ignorância com uma pitada de marketing.
“Segurança se faz com coragem!”, gritam os fariseus enquanto o povo, se correr, a bandidagem pega; se ficar, o governo come.
O intendente, vestido de salvador, anuncia “MEGAOPERAÇÃO!” com o ânimo de quem propaga uma liquidação de Black Friday. O tradutor simultâneo deveria dizer: “campanha eleitoral em curso.”
E, no altar do medo, sacraliza-se a violência – em nome da ordem, da pátria e da fake news: o triângulo das Bermudas da razão.
O Cristo Redentor, de braços abertos, em breve levantará as mãos e dirá: “Perdi.”
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato.

