Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.
O Dragão da Comissão Parlamentar
Respira fogo nas audiências, mas nunca queima ninguém. Alimenta-se de relatórios inconclusivos e do medo de perder o foro privilegiado. Vive nas cavernas refrigeradas do Congresso, cercado de assessores que lhe abanam as escamas com papel timbrado.
Símbolo: da força descontrolada.
Fraqueza: o medo da imprensa.
O Grifo de Palanque
Metade águia, quando fala de pátria e soberania, metade leão, quando ruge por emendas. Gosta de voar alto em ano eleitoral e pousar manso em gabinetes climatizados logo após o pleito.
Símbolo: do poder divinamente autoconcedido.
Fraqueza: o esquecimento do eleitor.
O Basilisco da Base Aliada
Um olhar seu basta para petrificar qualquer tentativa de CPI. Soprando promessas, mata de tédio quem tenta resistir. Vive sorrindo em coletivas, com o hálito perfumado de verbas contingenciadas.
Símbolo: da soberba política.
Fraqueza: delação premiada.
A Quimera do Centrão
Cabeça de leão (fala alto), corpo de cabra (teimoso em permanecer no poder) e cauda de serpente (negocia por baixo da mesa). Alimenta-se de cargos e conchavos.
Símbolo: da monstruosa política de coalizão.
Fraqueza: o fim do orçamento secreto.
O Wyvern do Gabinete de Comunicação
Pequeno dragão de duas patas e muitas contas nas redes sociais. Cuspindo desinformação em jatos de 280 caracteres por segundo, sobrevoa o feed do cidadão incauto.
Símbolo: da propaganda disfarçada de verdade.
Fraqueza: verificação de fatos.
O Licantropo Eleitoral
De dia, servidor moderado; de noite, besta raivosa no debate. No começo do ano fala em diálogo democrático; no último trimestre, uiva promessas à lua das pesquisas.
Símbolo: da fronteira tênue entre o homem público e o animal de campanha.
Fraqueza: a urna eletrônica ao amanhecer.
O Centauro da Reforma
Meio homem, meio cavalo, que empaca em cada votação. Arrasta o país num trote lento, mas firme, em direção ao nada.
Símbolo: da eterna dualidade entre idealismo e fisiologismo.
Fraqueza: o calendário legislativo.
O Leviatã da Máquina Pública
Monstro colossal, invisível e cheio de tentáculos normativos. Dorme sobre pilhas de papel e acorda só para criar um decreto.
Símbolo: do caos administrativo.
Fraqueza: formulários preenchidos corretamente.
O Kraken da Corrupção
Do fundo do mar do erário, estende seus tentáculos até o topo do poder. Cada vez que um é cortado, dois novos Kraken emergem.
Símbolo: do abismo moral.
Fraqueza: o farol da transparência.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

