Carlos Castelo

Carlos Castelo é cronista, escrevinhador e sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

Casteladas, a coluna dos aforismos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço: a frase curta, de alegria instantânea, a serviço do humor refinado. A coluna também publica crônicas — histórias compactas e irônicas que vêm, cutucam e partem.

Bestiário Político

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um polvo e seus tentáculos
Bestiário político | Crédito: Freepik

Respira fogo nas audiências, mas nunca queima ninguém

Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.

O Dragão da Comissão Parlamentar

Respira fogo nas audiências, mas nunca queima ninguém. Alimenta-se de relatórios inconclusivos e do medo de perder o foro privilegiado. Vive nas cavernas refrigeradas do Congresso, cercado de assessores que lhe abanam as escamas com papel timbrado.

Símbolo: da força descontrolada.

Fraqueza: o medo da imprensa.

O Grifo de Palanque

Metade águia, quando fala de pátria e soberania, metade leão, quando ruge por emendas. Gosta de voar alto em ano eleitoral e pousar manso em gabinetes climatizados logo após o pleito.

Símbolo: do poder divinamente autoconcedido.

Fraqueza: o esquecimento do eleitor.

O Basilisco da Base Aliada

Um olhar seu basta para petrificar qualquer tentativa de CPI. Soprando promessas, mata de tédio quem tenta resistir. Vive sorrindo em coletivas, com o hálito perfumado de verbas contingenciadas.

Símbolo: da soberba política.

Fraqueza: delação premiada.

A Quimera do Centrão

Cabeça de leão (fala alto), corpo de cabra (teimoso em permanecer no poder) e cauda de serpente (negocia por baixo da mesa). Alimenta-se de cargos e conchavos.

Símbolo: da monstruosa política de coalizão.

Fraqueza: o fim do orçamento secreto.

O Wyvern do Gabinete de Comunicação

Pequeno dragão de duas patas e muitas contas nas redes sociais. Cuspindo desinformação em jatos de 280 caracteres por segundo, sobrevoa o feed do cidadão incauto.

Símbolo: da propaganda disfarçada de verdade.

Fraqueza: verificação de fatos.

O Licantropo Eleitoral

De dia, servidor moderado; de noite, besta raivosa no debate. No começo do ano fala em diálogo democrático; no último trimestre, uiva promessas à lua das pesquisas.

Símbolo: da fronteira tênue entre o homem público e o animal de campanha.

Fraqueza: a urna eletrônica ao amanhecer.

O Centauro da Reforma

Meio homem, meio cavalo, que empaca em cada votação. Arrasta o país num trote lento, mas firme, em direção ao nada.

Símbolo: da eterna dualidade entre idealismo e fisiologismo.

Fraqueza: o calendário legislativo.

O Leviatã da Máquina Pública

Monstro colossal, invisível e cheio de tentáculos normativos. Dorme sobre pilhas de papel e acorda só para criar um decreto.

Símbolo: do caos administrativo.

Fraqueza: formulários preenchidos corretamente.

O Kraken da Corrupção

Do fundo do mar do erário, estende seus tentáculos até o topo do poder. Cada vez que um é cortado, dois novos Kraken emergem.

Símbolo: do abismo moral.

Fraqueza: o farol da transparência.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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