Carlos Castelo

Carlos Castelo é cronista, escrevinhador e sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

Casteladas, a coluna dos aforismos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço: a frase curta, de alegria instantânea, a serviço do humor refinado. A coluna também publica crônicas — histórias compactas e irônicas que vêm, cutucam e partem.

O Natal dos sem-tender

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Vamos fazer amigo secreto, Mito? — perguntou ele. Com ou sem emoção? | Crédito: Freepik

Na cela da Polícia Federal, a noite era quente, mas o clima tenso

Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.

Na cela da Polícia Federal, a noite era quente, mas o clima tenso. O ventilador do corredor não dava conta do cheiro de desodorante vencido e lutava bravamente contra o aroma de farofa improvisada.

— Companheiros de cela — anunciou Jair, sentado sobre o beliche inferior com um avental de “Mito Chef” feito de toalha de rosto costurada à mão com linha de sutura

— Eu preparei uma ceia patriótica. Nada de tender globalista, só comida raiz: farofa, leite condensado e Coca-Cola!

— Não tem arroz? — perguntou o ex-assessor que dividia o cubículo com ele, conhecido apenas como “Cezinha do Zap”.

— Arroz é coisa de chinês comunista! Aqui a gente celebra com fé, raça e paçoca do kit do Exército da Salvação!

Do lado de fora, um agente da PF observava a cena com um misto de curiosidade e vontade de dar uma gargalhada.

— Ô, capitão — disse o carcereiro – se continuar fazendo essa rabanada com bolacha Maizena e água da torneira, vou ter que te multar por crime contra a culinária. O Ministério da Saúde vai mandar intervir na cela.

— É tradição militar, meu jovem! Lá no quartel era assim. Uma vez quase comi um tênis pensando que era cuscuz. Saudade da caserna.

Do outro canto da cela, alguém colocou um chip de celular clandestino para tocar “Noite Feliz” em versão sertaneja, com solo de sanfona e berrante. Era o ex-coordenador de motociatas, que usava meia como gorro e uma cueca vermelha sobre a calça para dar mais espírito natalino.

— Vamos fazer amigo secreto, Mito? — perguntou ele. Com ou sem emoção?

— Sem livros, tá ok? Só aceito presente se for arma, Bíblia ou camiseta da Seleção.

— Então vai ganhar uma cueca nova, porque essa do Flamengo aí tá pedindo habeas corpus — respondeu Cezinha, apontando para o traje desgastado do ex-presidente.

— Ingratidão é o que mata! Eu trouxe o espírito do Natal pra cá! Tamo tudo junto, presos, mas livres no coração!

— E o indulto natalino, presidente? Vai rolar? — perguntou um detento da ala VIP, ex-secretário de alguma coisa.

— Já protocolei um ofício endereçado a mim mesmo e ao Comandante do Exército.

— Mas quem decide é o Lula agora, né?

Silêncio.

— Então pelo menos manda um chester, Lula! — gritou alguém do corredor.

À meia-noite, as luzes se apagaram. O clima se aquietou. Jair, com uma fatia de goiabada em punho, olhou para cima.

— Feliz Natal, Brasil. Mesmo preso, ainda sou o presente…

Cezinha suspirou:

— …de grego.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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