Carlos Castelo

Carlos Castelo é cronista, escrevinhador e sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

Casteladas, a coluna dos aforismos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço: a frase curta, de alegria instantânea, a serviço do humor refinado. A coluna também publica crônicas — histórias compactas e irônicas que vêm, cutucam e partem.

Meu nome é Pão de Queijo

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Pão de queijo, tradição de Minas Gerais
Pão de queijo, tradição de Minas Gerais | Crédito: Pinterest

E o pão de queijo, uai?

Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.

§ Se tem uma coisa que o século 21 está ensinando pra gente é que, se você mexer numa gaveta empoeirada, vai sair de lá um nome improvável.

E se, vamos supor, no meio desses arquivos do Jeffrey Epstein aparecesse um nome inesperado. Por exemplo: o doutor Enéas Carneiro? Sim, ele mesmo. O homem do “Meu nome é Enéas!”, dito com a convicção daqueles líderes messiânicos.

A essa altura, o brasileiro já nem diria “como assim?”, mas “vou começar a fazer terapia imediatamente”.

Imaginem vocês a cena: alguém abrindo um arquivo, lendo “Woody Allen, Noam Chomsky, Stephen Hawking, Luciana Gimenez e… Enéas?”.

Não! Isso deve ter sido erro do corretor. Ou é outra pessoa que também falava rápido, gesticulava muito, era calvo. Pode ser tudo, tudo, menos o Enéas.

No Brasil, teoria da conspiração já virou esporte. Se surgisse o nome de Enéas junto ao de Jeffrey Epstein, já apareceriam três podcasts e uma tia no WhatsApp explicando tudo, nos mínimos detalhes, sobre o caso.

Por outro lado, a gente sabe: o Brasil não quer saber se é verdade. Quer saber é se vai virar série. E, Enéas com Epstein, nas Ilhas Virgens, sem dúvida alguma, superaria até a do ET de Varginha.

§ O rádio chia, a tarde desce preguiçosa sobre as montanhas, e alguém anuncia que Nikolas Ferreira pode aparecer como candidato ao governo de Minas. O ouvinte mineiro, com a xícara de café tremendo na mão, não pergunta sobre PIB, mas sobre o essencial: e o pão de queijo, uai?

Imagino o Palácio da Liberdade tomado por discursos inflamados contra a gordura saturada subversiva. O pão de queijo, antigamente redondo e inocente, passaria por sabatina moral. A cachaça mineira, coitada, teria de provar que é patriota antes de descer rasgando a goela do contribuinte. O ora-pro-nóbis — essa planta que parece latim mas está mais pra feijão — seria acusado de esquerdismo botânico.

E os botecos de BH? Esses verdadeiros parlamentos etílicos onde a democracia se decide no palito de dente. Talvez fossem regulamentados por decreto: “Artigo primeiro: toda saideira deverá vir acompanhada de hino nacional e respeito à bandeira.”

Mas Minas é teimosa como mula em ladeira. Sobreviveu ao Império, a governadores reacionários e a modas dietéticas. Sobreviverá também a qualquer um que ouse administrar-lhe o fogão. Porque, no fim, meu caro leitor, governo passa; torresmo fica.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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