Carlos Castelo

Carlos Castelo é cronista, escrevinhador e sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

Casteladas, a coluna dos aforismos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço: a frase curta, de alegria instantânea, a serviço do humor refinado. A coluna também publica crônicas — histórias compactas e irônicas que vêm, cutucam e partem.

Notas da vida incomum

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Daniel Vorcaro: um pavão abrindo a cauda diante de um público perplexo | Crédito: Freepik

Os artistas desfilaram como constelações

Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.

§ Em 2023, Daniel Vorcaro não ofereceu apenas uma festa de noivado, mas a demonstração de um pavão abrindo a cauda diante de um público perplexo. Durante cinco dias, Taormina foi submetida a uma tempestade de notas musicais, taças tilintando e cifras tão gordas que deviam ter CEP próprio.

Os artistas desfilaram como constelações: Coldplay cantando para uma plateia que talvez estivesse ocupada demais calculando o preço por refrão; Bocelli soprando emoção sobre convidados blindados contra qualquer sentimento que não rendesse dividendos; David Guetta convertendo euros em decibéis com a eficiência de um banco suíço.

Todos esses 222 milhões de reais gastos num evento, claro, em nome do amor. Enquanto isso, o Mediterrâneo observava em silêncio milenar, como um garçom cansado que já viu impérios inteiros lhe deixando gorjetas.

No fim, resta a pergunta: foi uma celebração do romance ou apenas a prova definitiva de que o dinheiro, quando entediado, começa a cantar?

§ Trump acordou naquela manhã com o cabelo mais ereto que de costume. Ligou a TV, esperando as habituais loas à sua genialidade, mas o que viu foi o preço do petróleo explodindo como mísseis atacados pelo Domo de Ferro. “Fake news!”, gritou para a tela, mas o gráfico subia, subia, mais alto que suas torres em Nova York.

Ele se levantou, tropeçando no taco de golfe, e pensou: “Eu avisei que o Oriente Médio era um barril de pólvora, e agora olha aí, é barril mesmo, mas de petróleo, custando o dobro do meu último divórcio”.

Imaginou os sheiks árabes rindo com seus camelos elétricos, enquanto os americanos enchiam o tanque do SUV com lágrimas e dólares. “Melania, liga pro Putin!”, berrou, mas ela estava no spa, ignorando o apocalipse energético.

Trump vestiu o terno vermelho (cor de alerta máximo) e tuitou: “Petróleo BOMBA! Culpa dos democratas! EU vou perfurar o Alasca e a Groelândia inteira!”.

Mas, no momento seguinte, pensou melhor: ele acabara de despertar, ainda mais rico, com a crise petrolífera que criara.

§ Há ideias ruins. Há ideias muito ruins. E há a proposta do jornalista da Globonews, Fernando Gabeira, de extinguir o STF.

Gabeira, figura respeitável da paisagem televisiva e ocasional produtor de frases que fazem o espectador engasgar-se com o biscoito, aparentemente decidiu que o Brasil resolveria seus dilemas institucionais com a elegância de um sujeito que, irritado com o relógio, decide quebrar o tempo.

A proposta tem uma lógica curiosa: se uma instituição incomoda, apaga-se a instituição. Pelo mesmo raciocínio, poderíamos extinguir o Congresso quando ele irrita (o que sempre ocorre), ou abolir eleições quando o resultado desagrada metade do país. É uma filosofia política baseada no botão delete.

Extinguir o STF para melhorar a democracia é, no fundo, como serrar a perna da mesa para corrigir o desnível. O chão não melhora, mas cria-se um factoide para aumentar o Ibope da Globo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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