Carlos Castelo

Carlos Castelo é cronista, escrevinhador e sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

Casteladas, a coluna dos aforismos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço: a frase curta, de alegria instantânea, a serviço do humor refinado. A coluna também publica crônicas — histórias compactas e irônicas que vêm, cutucam e partem.

Até tu, Zé Gotinha?

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Zé Gotinha apontando o dedo
Zé Gotinha não falava. Não precisava. Ele apenas aparecia, sorria e pingava. Era um argumento líquido e certo | Crédito: IA Freepik

Tudo começou quando decidiu acompanhar política. Primeiro como espectador, depois como comentarista

Durante décadas, Zé Gotinha foi um raro exemplo de unanimidade nacional. Num país onde até fila de padaria gera debate ideológico, ele era aceito por todos: esquerda, direita, centro e até por aquele tiozão que só acredita em corrente de WhatsApp.

Zé Gotinha não falava. Não precisava. Ele apenas aparecia, sorria e pingava. Era um argumento líquido e certo.

Até que começou a mudar.

Tudo começou quando decidiu acompanhar política. Primeiro como espectador, depois como comentarista e, finalmente, como alguém que escreve “minha humilde opinião” antes de dizer algo nada modesto.

Foi nesse momento que ele apoiou a candidatura errada.

Nada para se estranhar. No Brasil, apoiar candidato tosco está virando quase um esporte. O esquisito foi o efeito colateral. Em poucos dias, Zé Gotinha começou a desconfiar de vacinas.

Sim. A gota.

Contra.

Vacina.

É como se o despertador começasse a defender o sono.

– Precisamos discutir isso aí – disse Zé Gotinha, num vídeo com iluminação ruim e opinião pior.

Ninguém levou a sério no início. Afinal, todos sabem que as redes sociais têm esse poder de transformar especialistas em comentaristas e comentaristas em peritos: dependendo da quantidade de CAPS LOCK.

Mas Zé Gotinha insistiu.

– E se a imunidade natural for melhor?

O país ficou estarrecido. Foi um segundo curto, mas suficiente para um epidemiologista derrubar o café na calça.

A partir daí, a coisa escalou. Zé Gotinha criou um movimento chamado “Gotas Livres”. A proposta era simples: cada pingo decide se quer cair ou não.

A Física, até onde se sabe, não foi consultada.

Seus antigos colegas tentaram intervir. A seringa chamou para uma conversa:

– Zé, você está virando negacionista, você…

– Eu evoluí – respondeu ele. – Hoje, eu penso fora da caixa.

– Mas você é uma gota. Sua caixa é um frasco.

Mas Zé já estava em outro nível de argumentação: aquela em que quanto menos sentido faz, mais engajamento gera.

Começou a dar entrevistas. Em uma delas, declarou:

– Fui manipulado durante anos.

– Por quem? – perguntou o jornalista.

– Pela ciência.

As campanhas de vacinação ficaram confusas. As crianças olhavam para o cartaz:

– Mãe, ele não era do bem?

– Era, filho. Só que agora virou um radical.

Especialistas tentaram entender. Alguns falaram em “efeito algoritmo”. Outros disseram que Zé Gotinha passou tempo demais exposto à internet. O que sugere que nem todo contágio precisa de vírus para acontecer.

Acabou ficando uma lição importante: no Brasil, até as coisas que funcionam podem deixar de operar quando resolvem trocar evidência por palpite.

Principalmente, se abrirem um canal.

E Zé Gotinha abriu o dele.

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* Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Katia Marko

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