Por Carlos Eduardo Petronilho Boiago
Há 61 anos, o Brasil acordou sob o som dos tanques que tomavam as ruas e o silêncio imposto pela cassação de vozes. O golpe de 1964 não foi apenas um rompimento abrupto com a ordem democrática, mas uma ferida profunda na história do país, cujas cicatrizes ainda sangram.
Aquele 31 de março marcou o início de uma ditadura militar que durou 21 anos, período em que a democracia foi substituída pela repressão, a censura e a violência institucionalizada. Hoje, ao olharmos para trás, não podemos nos limitar a uma mera recordação dos fatos, mas devemos refletir sobre as fragilidades da democracia e a importância da educação como antídoto contra a repetição de tragédias históricas.
O golpe de 1964 foi justificado por seus idealizadores como uma “revolução” necessária para salvar o país do “comunismo” e da “desordem”. No entanto, o que se viu foi a instalação de um regime autoritário que perseguiu, torturou e matou aqueles que ousavam pensar diferente. A democracia, ainda incipiente no Brasil, mostrou-se frágil diante de interesses políticos e econômicos que não hesitaram em usar a força para se manter no poder. A Constituição de 1946, que garantia direitos fundamentais, foi rasgada, e os cidadãos viram-se privados de liberdades básicas, como o direito de expressão e de organização.
Educação foi uma das primeiras vítimas
Nesse contexto, a educação foi uma das primeiras vítimas do regime. Escolas e universidades foram alvo de intervenções, professores foram perseguidos, e os currículos foram alterados para servir à propaganda do governo. A ditadura entendia que controlar o conhecimento era essencial para manter o poder.
Ao mesmo tempo, a falta de uma educação crítica e emancipatória contribuiu para que muitas pessoas não compreendessem a gravidade do que estava ocorrendo. A ausência de uma educação originária, que valorizasse a história, a cultura e os direitos humanos, deixou o terreno fértil para a aceitação passiva do autoritarismo.
Passadas seis décadas, o Brasil ainda convive com os resquícios da ditadura. A violência policial, a concentração de renda, a desigualdade social e a criminalização dos movimentos sociais são heranças desse período sombrio.
No entanto, o que mais preocupa é o avanço de discursos que relativizam os crimes da ditadura e defendem a volta de um regime autoritário. Nos últimos anos, vimos o crescimento de narrativas que glorificam o Golpe de 1964 e distorcem a história, alimentando a polarização e o ódio.
É fundamental destacar o papel da educação na construção de uma democracia verdadeira. Uma educação originária, que dialogue com as raízes históricas e culturais do povo, é capaz de formar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. Ela não se limita à transmissão de conteúdos, mas promove o pensamento crítico, a empatia e o respeito à diversidade. É por meio dela que se pode combater a desinformação, o preconceito e o discurso de ódio, elementos que, hoje, ameaçam novamente a democracia brasileira.
Educação em direitos humanos
Por isso, nesse cenário, a educação em direitos humanos surge como uma ferramenta essencial para fortalecer a democracia. Ela nos ensina que a memória é um direito e que esquecer o passado é abrir caminho para a repetição dos mesmos erros. Ao estudarmos os horrores da ditadura, compreendemos que a democracia não é um dado adquirido, mas uma conquista diária que precisa ser defendida.
A educação em direitos humanos também nos lembra que a luta por justiça, igualdade e liberdade é coletiva e que nenhum grupo deve ser deixado para trás.
Que os 61 anos do golpe de 1964 sirvam como um alerta e um chamado à ação
Hoje, mais do que nunca, é preciso dizer: um golpe como o de 1964 nunca mais. Mas essa afirmação não pode ser apenas um slogan; ela deve ser acompanhada de ações concretas. É necessário investir em políticas públicas que garantam uma educação de qualidade para todos, que valorizem a diversidade e que promovam a cultura da paz. É preciso fortalecer as instituições democráticas e combater qualquer tentativa de deslegitimá-las. E, acima de tudo, é essencial manter viva a memória daqueles que lutaram e deram suas vidas pela democracia.
A história nos ensina que a democracia é frágil e que sua preservação depende da vigilância constante de cada cidadão. Que os 61 anos do golpe de 1964 sirvam como um alerta e um chamado à ação.
Que possamos, por meio da educação, construir um futuro em que a liberdade, a justiça e a igualdade não sejam apenas palavras, mas realidades vividas por todos.
Como nos lembra o poeta Thiago de Mello, “faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”. E ela só chegará se estivermos dispostos a lutar por ela.
Carlos Eduardo Petronilho Boiago é doutor em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pesquisa na linha de História e Historiografia da Educação. Mestre em Ensino de Ciências e Matemática (UFU), com ênfase em Ensino e Aprendizagem de Ciências e Matemática. Graduado em Licenciatura em Matemática (UFU). É professor substituto no Instituto de Ciências Exatas e Naturais do Pontal (UFU) e professor efetivo na rede estadual de educação de Minas Gerais (SEE – MG). É membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – MG.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal