Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

A arte de fabricar livros

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Livro aberto
Há sinais de que o livro vai perdendo cada vez mais a sua aura | Crédito: Freepik

A fabricação de um livro é, ainda hoje, obra de um coletivo de profissionais

Por Luciano Mendes

Para Jacimar Souza, uma artista do livro.

Toda a gente que lida com livro sabe, por experiência própria, por leitura e ou por ouvir dizer, que pessoas que escrevem não fabricam livro;  no máximo, como diria o historiador da leitura e do livro Roger Chartier, produzem texto. A fabricação de um livro é, ainda hoje, obra de um coletivo de profissionais, às vezes invisível, que trabalha para que possamos ter acesso ao texto em sua forma livro, um produto cultural dos mais importantes na modernidade.

Mas, ainda que seja, hoje, um produto cultural de certa importância, há sinais de que o livro vai perdendo cada vez mais a sua aura. E isso acontece por vários fatores, inclusive pela pouca importância que a própria indústria editorial tem dado aos artistas e às artistas do livro. E não estou falando, claro, do livro de artista, essa arte singular de produção de objetos-livros únicos e de raro encanto. 

Sei que há muitos estudos e tratados sobre o tema, mas não é por aí que eu vou enveredar essa conversa. Vamos por outro caminho, o da experiência, quem sabe. Outro dia, estava eu conversando com a Jacimar Souza, a capista e diagramadora do meu livro Prefácios: livros, leitura e mediação cultural (Editora Escola Cidadã,2025)  sobre o quanto as editoras têm negligenciado o trabalho dessas artes (da capa e da diagramação) na fabricação do livro. Em tempos de IA e de obsolescência do livro, parece até profissões em extinção.

A perda da aura do livro parece vir não apenas por sua massificação ou, pelo contrário, de sua pouca importância na atualidade, seja como objeto cultural de fruição, seja como fonte de conhecimento ou informações, dois fenômenos, aparentemente opostos, que se articulam perfeitamente na indústria editorial e produzem um não-lugar para o livro. Parece-me, no entanto, que o problema aponta também para outros fatores, igualmente importantes.

Boa parte da indústria editorial que não aquela relacionada – ou comandada – pela produção de livros de destinação escolar (didáticos e afins), é composta por pequenas editoras que buscam seu lugar ao sol atuando muito mais como prestadoras de serviços de edição do que como editoras, no sentido mais clássico da palavra. A verdade é que, boa parte dela não depende, por exemplo, da comercialização dos livros para ganhar o (pouco) que ganham, já que o seu serviço é pago, às vezes com antecedência, pela pessoa (física ou jurídica) responsável pelo texto. Nestas condições, a fabricação de um livro perde boa parte de seu caráter artístico – longe estamos do artesão do livro! – e atende tão somente à razão econômica, ou seja, ao custo do serviço a ser prestado. 

Óbvio que nem sempre é assim: há, por um lado, as centenas, talvez milhares de “oficinas” e “confrarias” do livro, que mantêm, em muitos casos, uma produção quase artesanal do livro, incluindo a impressão; assim como há os “livros obras de arte” das grandes editoras (e às vezes, poucas vezes, devido ao seu custo, das pequenas editoras também), em muitos casos financiados com recursos públicos das leis de incentivo  e para um público leitor bastante restrito. 

Mas, infelizmente, essas exceções confirmam a regra: os livros, cada vez mais, deixam de ser atrativos ao leitor e à leitora porque, também, deixam de ser objetos artísticos-culturais atraentes.

Há saída para isso? Eu não saberia dizer. Mas me atrevo a pensar que o problema não é, definitivamente, da falta de criatividade das pessoas artistas do livro ou, mesmo, do custo de sua remuneração. Mesmo que a IA possa inundar o mercado editorial com lindas produções artísticas artificiais – que arte não é artificial? – bonitas e de baixo custo, elas não serão incorporadas pela indústria editorial. 

Talvez o belo do/no livro não seja lucrativo ou atrativo para prestadoras de serviços editoriais e para elaboradores de textos cujos pretexto para um livro seja, quando muito, satisfazer o prazer (egóico) de performar em livro (ou seja, aparecer), ainda que não seja para ser lido.

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, entre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião, a visão da autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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