Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza
A cena é conhecida. Em um cenário litorâneo tropical, com árvores, palmeiras, céu azul, a praia e a serra ao fundo, um clérigo com vestes brancas e douradas, ao pé de uma cruz de madeira, cercado por outros membros da igreja e expedicionários colonizadores, com suas espadas, elmos, malhas e outros apetrechos, levanta o cálice em um momento de devoção, o ponto alto da fé.
Ao redor, uma comunidade indígena circunda o local central do acontecimento. Curiosos, indecisos, agitados, amedrontados, acompanham o marco inicial da invasão. Essa é a imagem da Primeira Missa no Brasil, eternizada por Vitor Meireles, em tinta óleo sobre tela, com base na Carta de Pero Vaz de Caminha, pintura que hoje está no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro.
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No entanto, melhor dizendo, essa imagem está na memória coletiva do povo brasileiro e, com gradações, segue acontecendo, em um processo de continuidade do colonialismo.
Corta para 2025. Em uma escola pública, composta majoritariamente por estudantes pretos e pardos, vários deles com feições indígenas, Dona Joana de Lourdes, cristã, branca, 45 anos de magistério, com expressões sérias e passos curtos e rápidos, grita com os alunos para que façam as filas corretamente. Ameaça, se não demonstrarem respeito.
Em seguida, vindo à frente do pátio repleto de estudantes, com um crucifixo atrás de si, no alto da parede, inicia a oração do Pai Nosso. Segundo ela, a “oração universal”, a “oração que o Senhor nos ensinou”: “Quem não quiser rezar, que abaixe a cabeça!”
Dona Joana de Lourdes, nossa personagem fictícia, temente a deus, está espalhada pelas escolas brasileiras. Em nome do que ela aprendeu e se apegou, reproduz o primeiro ato da colonização, aquele que deu início à barbárie. Em nome do rei, da Igreja, da riqueza: epidemias, guerras, estupro, escravidão, desenvolvendo a empresa colonial.
Saio da cantina de uma faculdade pública. Curvado, para descartar uns objetos no lixo, olho para frente e vejo um grupo de jovens reunidos, dez ou doze talvez, uma garota fala de maneira apaixonada enquanto os outros assentem.
Eu olho fixamente, um tanto incrédulo, mas compreendendo. Trata-se de uma célula, um grupo de oração de caráter missionário. Saio incomodado. No dia seguinte, logo de manhã, a primeira notícia que chega ao meu celular em caráter providencial, por meio das redes sociais, é de um culto evangélico no campus da Universidade de São Paulo.
Acesso o site para ler a matéria completa: “nós oramos para que o fogo santo desça sobre a USP e consuma todos os falsos deuses”; “Você está na guerra. Acho que você não entendeu, mas você está na guerra”; “A USP pertence ao senhor Jesus Cristo”; “A USP não pertence a Karl Marx nem ao comunismo”.
O evento, realizado em 29 de agosto, de acordo com o Jornal do Campus, sem autorização, reuniu centenas de jovens na Praça do Relógio no Butantã, com som alto, banda, fervor e divulgação de curas. Atrás, a grande torre, de um lado elementos da fantasia e de outro da realidade, com a inscrição de Miguel Reale na base: “No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Será mesmo?
É preciso diferenciar. Uma coisa é levar uma manifestação cultural de cunho religioso para o ambiente escolar ou universitário com objetivos educativos, para que se possa conhecer e considerar, compreendendo os direitos e as diversidades.
Outra coisa são as manifestações fundamentalistas que atacam os conhecimentos científicos, como os advindos do marxismo, em nome da continuidade da violência colonizadora, que aprisiona para obter poder e explorar, eliminando os dissidentes. Será possível tolerar os intolerantes?
Será possível que as instituições, acadêmicos e movimentos, especialmente aqueles que se afirmam como democráticos, decoloniais, antirracistas, continuem retraídos diante de atos frequentes nos espaços formais de ensino, que explicitam toda violência colonial, que segue castigando a população e as possibilidades reais de emancipação do povo brasileiro?
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Cleiton Donizete Corrêa é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de história nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC) e tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião, a visão da autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

