Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Milton Santos: centenário e imprescindível!

No audio source provided.
Milton Santos, um intelectual comprometido com as causas populares
Milton Santos, um intelectual comprometido com as causas populares | Crédito: Acervo IEB/USP

Milton Santos sabia ao lado de quem precisava estar

 Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza

“Todo dia acorda cedo pro trabalho / Bota seu cordão de alho

E segue firme pra batalha / Olho por olho / Dente por dente / Espalha / Lei da Babilônia é diferente (…)

Deixa eu falar pra você / Divi-divi-divi-dividir Salvador / Diz em que cidade que você se encaixa

Cidade Alta / Cidade Baixa / Diz em que cidade que você…”  (Duas cidades, Baiana System, 2016).

Lembro-me bem de ler sobre as contribuições de Milton Santos nos livros didáticos, enquanto eu cursava o ensino fundamental II, com ele ainda vivo. Lembro-me de, mais tarde, adentrar uma sala que tinha o seu nome, já como uma homenagem póstuma, em uma instituição de ensino numa cidade vizinha, no período em que eu finalizava o ensino médio. 

Durante a graduação, voltei a estudá-lo; após me formar, li Por uma outra globalização, mas minha vontade de estudar a obra daquele homem negro, elegante, de sorriso enigmático, um tanto jocoso, exaltado como um dos maiores geógrafos do mundo, teve que ser sempre adiada, devido às minhas muitas obrigações enquanto cidadão trabalhador, militante, que teimava seguir estudando em âmbito acadêmico.

Retomei rapidamente esse desejo ao ingressar na Universidade de São Paulo como docente, especialmente ao propor a disciplina Espaço escolar e lutas por reconhecimento e, a partir de meados do ano passado, junto às prezadas e prezados integrantes do Grupo de estudos e pesquisas sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC), sob minha coordenação. 

E, neste ano de seu centenário, em conjunto com parceiros de outras instituições, organizaremos um ciclo de encontros intitulado Espaço, educação e crítica à desigualdade racial: 100 anos de Milton Santos, para o qual escolhi o livro resultante de sua tese de doutorado como material central de minhas intervenções e, neste texto, apresento a obra de forma resumida e compartilho algumas considerações sobre ela, sem descartar a historicidade, isto é, o homem em sua época, com as influências, preocupações e recursos do seu tempo.

Cidade de Salvador

O Centro da Cidade de Salvador: Estudo de Geografia Urbana, defendido na Universidade Strasbourg, na França, em 1958, foi publicado pela Universidade da Bahia em 1959 e, atualmente, compõe a Coleção Milton Santos da Editora da Universidade de São Paulo. 

O estudo é organizado nos seguintes capítulos: Formação da Cidade e Evolução da região, As Funções do Centro de Salvador, A Paisagem Urbana e a Vida do Centro da Cidade e A Estrutura Urbana dos Bairros Centrais; além da introdução e da conclusão da pesquisa.

Na introdução, Milton Santos enunciou que o centro não é tudo, não abriga todos os conjuntos urbanos, mas é uma síntese das tendências, das disputas e das estruturas. 

Já no primeiro capítulo, retomou a história de Salvador analisando o desenvolvimento da cidade em seus aspectos econômicos mais importantes (produtos agrícolas: fumo, cacau, cana, sisal e comércio) e a relação com as dinâmicas do Brasil e dos fluxos migratórios. No capítulo seguinte o geógrafo pormenorizou as características e as atividades econômicas de Salvador, que concentrava a maior parte dos recursos e serviços do estado da Bahia e, por sua vez, o centro aglutinava expressivamente a maior parte dessas movimentações e produtos.

O penúltimo capítulo é provavelmente o mais importante do trabalho, porque apresenta as relações entre espaço e a vida cotidiana. 

A paisagem, primeira parte do capítulo, do centro de Salvador, revelava a convivência e sobreposição dos tempos (as igrejas, os sobrados coloniais, as casas de meia-idade, os novos, altos e modernos prédios, as ocupações, os automóveis, o bonde, os elevadores, as ladeiras, os lotes vazios – da falha geológica, que provoca a divisão Cidade Alta e Cidade Baixa, e das ordens religiosas – os armazéns e os depósitos) enquanto a cidade crescia. 

A vida, segunda parte do capítulo, trata dos trajetos, dos movimentos e meios de transporte, em uma cidade que já sofria com o tráfego intenso.

O último capítulo tem início com uma assertiva fundante sobre a fisionomia dos bairros, no caso, o centro de Salvador, em que as atividades criam, aproveitam, adaptam, destroem, considerando forma e função. Pesquisando a praça do Pelourinho, foi realizada uma incursão em uma escola primária e, como escreveu o próprio Milton Santos, as respostas dos estudantes constituíram “uma fotografia bem nítida do conteúdo e das condições sociais”.

Ao final, Milton Santos concluiu que as estruturas e as movimentações econômicas, especialmente o comércio e a especulação, definiram o quadro do centro de Salvador. 

Ou seja, a compreensão de Salvador, especialmente do centro, implica considerar que a cidade é condicionada pela produção agrícola do interior do estado e os mercados internacionais industrializados, de modo que se estabeleceu uma situação de subalternização marcada pela carência, pela pobreza, em que as transformações ocorrem devido às necessidades urgentes e aos interesses financeiros (mutatis mutandis).

Mesmo sendo uma obra cuidadosa e bem fundamentada, elaborada por um homem pelo qual tenho profundo respeito e admiração, é possível apontar algumas limitações, como os deslizes com palavras e construções de frases, em determinados trechos, que, provavelmente no intuito de desvelar e denunciar a miséria, abrem possibilidades para reforço de preconceitos e culpabilização dos mais pobres. 

Outro ponto é a compreensão, ainda em construção, do espaço, da organicidade do espaço, por isso, possivelmente, a divisão sem maiores considerações, de paisagem e vida, entendendo espaço basicamente como local circunscrito. E as compartilho não em caráter de desqualificação do jovem Milton Santos, com pouco mais de 30 anos de idade, mas no sentido até de um alento para nós, diante da grandeza do autor, que teve também seu processo de desenvolvimento.

Nada do que socializo neste brevíssimo texto suprime a importância da leitura de uma obra central na construção da geografia brasileira e no processo de edificação de um grande intelectual. 

A leitura me fez mais uma vez atentar para aspectos indispensáveis nas pesquisas sobre o espaço urbano, sempre complexo, retalhado e confluente, com composições históricas sobrepostas e conflitantes, entrelaçando características e movimentos locais com estruturas macroeconômicas e políticas globais.

Além disso, entre os diversos elementos que venho aprendendo com Milton Santos, com sua produção, mas também com sua postura no debate público, exalto dois que considero muito significativos. O primeiro é a sua dedicação à ciência, de maneira que não se reduziu às efemeridades, dedicando-se a questões fundamentais de seu tempo. Depois, recusou a constrição a um determinado lugar e representação, sem, contudo, negar suas origens e seu corpo. 

Milton Santos sabia muito bem com quem precisava debater e ao lado de quem precisava estar, com a inteligência e a firmeza de um intelectual humanista crítico, profundamente comprometido com o desvelamento das injustiças e a construção estendida da cidadania. 

Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

|

Newsletter