Por Lino Santos
Os impactos socioambientais provenientes tanto das mudanças climáticas quanto das atividades antrópicas como a mineração e o agronegócio, não atingem todos os gêneros da mesma forma. Eles não são democráticos porque os maiores impactados têm em comum gênero, raça e classe social. Quando um desastre ocorre, como agora na região da Zona da Mata, de MG, as desigualdades sociais e de gênero se somam às crises ambientais ampliando vulnerabilidades.
Muitas vezes, o debate sobre a dimensão dos impactos foca apenas no aspecto econômico ou no dano ambiental mais visível (desmatamento, enchentes, escassez hídrica, poluição), ignorando como a estrutura social atua, especialmente sob a perspectiva de gênero. Porém alguns números deixam claro a dimensão da diferença dos impactos quando analisamos este recorte.
De acordo com dados do PNUMA, 80% das pessoas deslocadas em desastres climáticos são mulheres e meninas. Sob certas condições, elas têm até 14 vezes mais probabilidade de morrer em eventos extremos do que os homens, segundo a ONU.
Dados do UNICEF mostram que diariamente um total de 200 milhões de horas são gastas por mulheres caminhando longas distâncias em busca de água. Um tempo que poderia ser destinado à educação, geração de renda, lazer, cuidados pessoais e com a família.
Do mesmo modo, a respeito dos impactos trazidos pelas atividades agropecuárias, o Ministério Público do Mato Grosso trouxe um estudo realizado no cinturão agrícola do Sul do Brasil mostrando que o risco de desenvolver câncer de mama é quase 60% maior entre mulheres rurais expostas a agrotóxicos em comparação com mulheres urbanas não expostas.
Mineração e mulheres
Quando falamos de mineração, os impactos vão muito além da destruição ambiental. Neste contexto, comunidades inteiras são deslocadas, a água é contaminada, e as mulheres sofrem violências específicas, inclusive sexuais, além de perderem autonomia econômica.
A chegada de grandes empreendimentos de mineração traz um fluxo migratório majoritariamente masculino alterando a dinâmica local com significativo aumento dos índices de prostituição, violência sexual e tráfico de pessoas.
Após o rompimento da barragem em Mariana, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), com base em relatório de diagnósticos socioeconômicos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), notou um aumento nos registros de violência doméstica nas áreas atingidas.
O que frequentemente ocorre nestes casos é que o homem perde o emprego e seu status de provedor, sendo retirados de suas casas com sua família que passa a viver amontoada em hotéis ou casas alugadas pela empresa. Com isto, o aumento do consumo de álcool e de ansiolíticos disparou, e quem sofre a descarga dessa frustração masculina é a mulher.
Violência ambiental e mulheres
Impactos gerados em outros projetos de grande porte também são significativos. Durante o momento mais intenso da construção da Usina de Belo Monte, os casos de estupro em Altamira aumentaram em quase 40%.
O relatório da Missão de Investigação da Plataforma Dhesca Brasil mostrou que durante a construção das usinas hidrelétricas de Jirau e Mutum Paraná, em Rondônia, houve um aumento expressivo no número de bordéis e pontos de prostituição nas vilas de Jaci-Paraná e arredores das usinas. O relatório aponta que meninas de 11 a 14 anos foram aliciadas para “atender” a demanda dos canteiros de obra.
Para além da violência física, há também o que pode ser caracterizado como uma “violência ambiental” que atinge mais intensamente às mulheres e às meninas.
No Brasil, sabemos que mulheres, especialmente negras, indígenas e camponesas, estão na linha de frente da produção de alimentos e da defesa dos territórios. Um levantamento recente mostrou mais de 500 iniciativas agroecológicas espalhadas pelo país, muitas delas lideradas por mulheres negras. Essas iniciativas, que garantem soberania alimentar e modos de vida sustentáveis, estão ameaçadas pelo avanço do agronegócio e pelas mudanças climáticas.
As mulheres são, em muitas comunidades rurais, as gestoras da água e da segurança alimentar. Quando o rio morre ou a terra seca, a mulher precisa caminhar distâncias maiores para buscar água ou não consegue mais plantar o alimento da família.
Baixa representação pública
Entretanto, apesar de serem as maiores impactadas, as mulheres possuem pouca representação nas esferas decisórias. Basta ver que na composição das mesas durante as audiências públicas que tratam das questões relacionadas à mineração, a participação das mulheres é mínima. É a mesma situação que se reproduz nos cargos executivos e nas câmaras legislativas.
O relatório “Mulheres na Política: 2025” da ONU Mulheres e da União Interparlamentar revela um cenário de estagnação global, com a presença feminina nos parlamentos atingindo apenas 27,2%, um aumento ínfimo de 0,3% em relação ao ano anterior, enquanto o Brasil amarga a 133ª posição no ranking mundial de representação parlamentar, com apenas 18,1% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 19,8% do Senado ocupadas por mulheres.
O desempenho brasileiro no Legislativo é significativamente inferior à média das Américas (35,4%) e coloca o país atrás de nações como Arábia Saudita e Iraque, embora o cenário seja ligeiramente mais positivo no Poder Executivo, onde o Brasil ocupa a 53ª colocação global com 32,3% dos ministérios chefiados por mulheres.
No topo do ranking global, Ruanda lidera com 61,3% de parlamentares mulheres, seguida por Cuba e Nicarágua, evidenciando que o Brasil continua sendo um dos países com os piores índices de igualdade de gênero nos espaços de decisão política, apesar de ser a maior economia da região.
Enquanto o Brasil persistir em manter as vozes de mulheres à margem das decisões, as políticas públicas continuarão ignorando as violências específicas e as vulnerabilidades causadas a elas por grandes empreendimentos e desastres ambientais. Superar essa sub-representação é urgente, pois somente com a participação plena das mulheres será possível construir um modelo de desenvolvimento e de sociedade onde a diferença dos impactos sobre os gêneros não seja tão discrepante.
Lino Santos é Cientista Socioambiental pela UFMG e MBA em Gestão em Governança Socioambiental pelo IBMEC. É membro da Equipe da Arandu – Assessoria e Formação Continuada em Educação.
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Serviço: Os temas tratados neste texto serão aprofundadas em um webinar promovido pela Arandu – Assessoria e Formação Continuada em Educação no dia 12/05, quinta-feira, às 19:30, no canal de YouTube da instituição: https://www.youtube.com/@aranduassessoria
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

