Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche afirmava fazer filosofia às marteladas. Será que a história também tem sido feita na base do martelo? Para o pensador, a filosofia do martelo constituía uma forma de contestação das entidades e suas promessas que, criadas por nós, limitam nossas ações e efetivas realizações. Portanto, a destruição seria uma forma de afirmação da vida.
E nossa história recente? Tem sido feita com pancadas ao verdadeiro espírito nietzscheniano ou, pelo advento da espetacularização da política, temos nada mais que imagens performáticas, destituídas de caráter educativo, configurando outras estratégias de conformação e manipulação?
Após anos de debates, inclusive na Câmara de Vereadores, os passeios de charrete foram extintos nas vias urbanas centrais na cidade de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, com a assinatura de um decreto municipal. As principais alegações para a proibição referem-se ao atendimento do código de trânsito e ao cuidado com os animais.
Inegavelmente, as charretes puxadas por equinos, por ruas e avenidas movimentadas e barulhentas, trafegando ao lado de automóveis, ônibus, caminhões, motocicletas, em determinados dias sob calor intenso, agravado pela cobertura asfáltica, eram motivo de preocupação. Porém, chamou a atenção o modo como foi comemorado o fim dessa atividade ligada ao turismo local.
O prefeito municipal, acompanhado de funcionários públicos, secretários e de um grupo composto, majoritariamente, por mulheres ativistas da causa animal, se reuniram em um ato, com faixa, pronunciamentos, aplausos e marretas para quebrarem o cocho, em que os animais bebiam água, na praça em que se localizava o ponto dos charreteiros. Com marretadas, um tanto desajeitadas, prefeito e ativistas iniciaram a destruição do monumento entendido como símbolo de atraso e opressão. Os antigos charretistas receberão indenizações e novos veículos para esse tipo de passeio serão motorizados.
Esse caso local pode ser relacionado a outros eventos nacionais e internacionais de derrubada de símbolos de violência. No Brasil, o caso mais famoso é o da estátua do bandeirante Borba Gato, localizado na entrada do distrito de Santo Amaro, em São Paulo, incendiada em 2021 pelo grupo Revolução Periférica, liderado pelo militante Paulo Galo. Porém, o monumento segue de pé e integrantes do grupo foram presos, depois liberados, e hoje Galo é cobrado pela prefeitura em R$ 600 mil pelos danos causados, de acordo com reportagem recente da revista Carta Capital.
Podemos pensar que se outros tantos monumentos – e não estou dizendo exatamente sobre o que Borba Gato fez ou deixou de fazer, mas o que ele representa com um trabuco na mão – que simbolizam a barbárie contra negros e indígenas no Brasil, fossem destruídos naquele momento, o desfecho poderia ser outro. Fora do Brasil existiram numerosos casos de ícones derrubados ou danificados.
Para ficar somente em alguns exemplos de figuras identificadas como ligadas ao racismo, belicismo e à colonização, podemos citar as estátuas de Edward Colston, traficante de escravos, na Inglaterra, Cristovão Colombo, navegador e colonizador, na Colômbia, Robert Baden-Powell, militar e fundador do escotismo, em Portugal e Manuel Baquedano, militar e político, no Chile.
Acontece que, atualmente, temos reações muito distintas quando se trata de símbolos e ações de opressão. É certo que o cuidado com os animais precisa ser considerado, mas existe demasiada seletividade. E, como demonstra o caso de Poços de Caldas, com as marteladas no cocho, quando o ativismo que defende e realiza a destruição está envolto por uma aura conservadora, em termos políticos, como tem sido flagrante nos movimentos da causa animal, o ato destrutivo para gerar memórias pode ser feito sob aplausos e pretensa proteção da legalidade.
Quando temos atitudes de contestação, de caráter político progressista contra determinados monumentos, entendidos como expressões de tortura, estupro, fome, devastação cultural e ambiental e ao fim, morte, interpretação e as respostas repressivas têm outro tom. Tais atos passam a ser ressaltados como danos inadmissíveis ao patrimônio. Cadeia neles! Pesos e medidas diferentes.
Não é à toa que a cruel morte do cachorro Orelha, em Florianopólis, despertou imensa mobilização, mas não observamos tamanha comoção com bebês e crianças pobres, especialmente negras e indígenas, submetidas às mais diversas carências e perversidades. Definitivamente não temos o mesmo engajamento e deliberações. No momento em que escrevo chegam notícias afirmando que uma médica negra, Andréa Marins Dias, foi morta pela polícia no Rio de Janeiro, teremos ao menos uma lei com seu nome?
Cabe lembrar que a derrubada de estátuas e outros monumentos fazem parte das disputas no decorrer da história, desde a Antiguidade, entretanto, as descoordenadas marteladas em um coxo de animais parecem não ter o caráter educativo anunciado pelos iconoclastas do sul de Minas Gerais. Especialmente se esses mesmos não estiverem igualmente dispostos a se solidarizarem e firmarem compromissos com outras ocorrências brutais que circulam pela nossa sociedade, atingindo sobretudo as crianças.
Uma boa saída, como fizeram outros países, entre eles Angola, Indonésia, Bélgica, é recolher as peças que representam ideias e práticas de desumanização aos museus e outras instituições capazes de preservar esses bárbaros erros de nossa história, fazendo as devidas críticas, em um processo realmente educativo. Tanto pela retirada das homenagens aos agressores da praça pública, e isso também deve incluir nomes de ruas, escolas, viadutos, rodovias, etc., quanto pela possibilidade de estudo e reflexão a serem construídas.
Assim poderemos caminhar das encenações sensacionalistas às marteladas da consciência crítica em favor da vida e da realização da vida.
P.S.1: Um dia após escrever este texto visualizei a notícia de que a prefeitura de Poços de Caldas reconstruiu a estrutura do coxo, porém, como sabemos, na dinâmica das redes sociais e da mídia, a retratação e a reparação têm alcance diminuto.
P.S.2: Nos dias seguintes, enquanto o texto estava em processo de revisão, o caso ganhou alcance nacional por meio de matérias publicadas em meios de comunicação jornalísticos e perfis com muitos seguidores em redes sociais. Pelo que pude conferir, o principal destaque referia-se ao fato de o cocho ser tombado e, portanto, qualquer alteração deveria ser previamente autorizada.
Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

