Por Luciano Mendes
Outro dia eu estava conversando com uma amiga querida, a Eliane Marta, sobre o lugar da melancolia como um certo impulso para a escrita. Eu dizia que precisava de uma certa melancolia para escrever certas coisas, não todas, mas certamente algumas. Aí, ela se lembrou da escritora Mariana Carrara que dizia: “eu preciso fabricar uma certa melancolia” para escrever.
Nesse mesmo nosso encontro, ela me entregou um livro que trouxe para mim de recente viagem ao Rio de Janeiro: a biografia do grande e querido Osmar Fávero, uma referência de intelectual e ativista da educação brasileira.
Passei os dias seguintes lendo o livro – sobre o qual falarei aqui em algum momento – e me sobreveio uma certa melancolia e, com ela, uma vontade de escrever. É um certo comichão, uma coceira nos pensamentos, uma vontade de expressar em palavras, no meu caso, ideias de origens diversas que parecem obedecer ao mesmo comando. No entanto, era domingo e uma pilha de vasilhas na pia interpunha-se peremptoriamente como necessidade mais vital.
Estava eu na casa da minha mãe e do meu pai, um casal de idade quase centenária que está junto há mais de 72 anos. Uma lindeza! Apesar de ainda muito independentes, os filhos e filhas se revezam às noites e nos finais de semana para acompanhar o casal nas lides cotidianas. E esse era o meu fim de semana.
A casa é daquelas em que a cozinha é a metade da casa, literalmente, porque, sendo uma família imensa, sempre vai chegar alguém para almoçar, jantar, tomar um cafezinho mineiro ou, mesmo, para pousar. Há sempre panelas de comida sobre o fogão de lenha e, lembrando Adélia Prado, muitos copos por lavar sobre a pia. E, quem conhece sabe, não apenas copos. Uma profusão de panelas, talheres e outros apetrechos que, às vezes, a gente se pergunta de onde surgiu.
O certo é que, trazida por um certo estado de espírito e embalada pelas conversas com a Eliane e a leitura da biografia do Osmar, a melancolia se instalou e, embaladas pelos clássicos de Gal Costa e afins, permaneceu. E a latência da escrita também. No entanto, da pia ao fogão e do fogão à pia, havia centenas de pequenos pulos a dar, sempre sob o olhar vigilante da matriarca, para que saísse o almoço de domingo. Mas a coisa estava ali, adiada, mas presente.
No final da tarde de domingo, o céu escureceu e o vento soprou por aquelas bandas, e sobreveio a chuva, forte, rápida, trazendo novas lembranças. Na cozinha, tendo por companhia biscoitos de polvilho e uma garrafa de café, eu ouvia minha mãe contar histórias. Muitas histórias; suas histórias.
Falava das dificuldades das primeiras décadas – isso mesmo, décadas, e não anos – do casamento e da criação dos filhos; da falta do que comer e da comida pouca, regrada, quase mirrada; das mudanças tantas e das escolas dos filhos e das filhas.
Curiosa, minha mãe perguntava também “como é ficar em uma casa sozinho, como é dormir sozinho?”. Lembro que essa não é a primeira vez que ela pergunta isso. Foi há pouco tempo que me dei conta, a partir das perguntas dela, que minha mãe, uma mulher de 92 anos, nunca dormiu sozinha, nunca passou uma noite apenas em sua própria companhia.
Quando nasceu, a casa já era habitada e, daí pra frente, sempre teve companhias, várias, muitas. Marido, filhos e filhas, sobrinhos, sobrinhas, sogros, cunhados e cunhadas, pessoas conhecidas e desconhecidas sempre pousaram em sua casa por uma noite, algumas noites, meses e anos inteiros.
Embalado por minha melancolia – a saudade do que poderia ter sido, segundo Carlos Heitor Cony – me peguei pensando que minha mãe é praticamente da mesma idade do Osmar Fávero – ele é de 1933 e ela de 1934 –, mas como são diferentes as suas histórias! Diferenças, e desigualdades, de gênero, de raça, de território, de classe. Me vejo perguntando até se habitam o mesmo mundo!
Claro, tive que adiar a escrita, e acabei metamorfoseando o texto que eu queria ter escrito neste que agora o leitor e a leitora têm diante dos olhos. Acho que não era sobre isso que eu queria escrever, lá no início da comichão, no amanhecer do dia e das vasilhas sobre a pia. Mas o desejo, e a escrita, operam por desvios, encontram desvios no corpo e no pensamento.
Terminei pensando no quanto as experiências são feitas, ou abortadas, pelos adiamentos. Muitas mulheres com quem eu convivo, divido a vida e/ou o trabalho sempre falam disso: adiar a escola, a escrita, a leitura, a viagem… para depois do almoço, dos filhos crescidos, da pia de vasilhas ou da aposentadoria, isso quando não para depois da separação de seus companheiros.
Entre a comichão e o papel branco, ou o teclado e a tela, a vida se impõe. E nesta, para muitos e, sobretudo, para muitas, a escrita ou, no limite, a própria palavra é quase um luxo que pode ser adiado indefinidamente.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG.
—
Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
—
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

