Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Pelo direito a ‘perder tempo’ com a vida

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Pelo fim da escala 6x1
Manifestação pelo fim da escala 6×1 | Crédito: Letycia Bond/Agência Brasil

Por que parece tão absurdo querer outro modo de estar no mundo que demande menos tempo de trabalho?

Por Marcelo Gomes da Silva

O mundo do trabalho, tal como o conhecemos hoje, constituiu-se, historicamente, por meio de complexas transformações que afetaram os trabalhadores e trabalhadoras. Ao longo dos anos, as disputas sobre o tempo despendido com a tarefa produtiva foram amplamente discutidas e reivindicadas pelo movimento operário.

De jornadas exaustivas que beiravam a quase 18 horas, chegamos à conquista da jornada de 8 horas diárias, mas à custa de muito sangue, suor e, literalmente, perda da vida de muitas pessoas que ombrearam nas trincheiras pelo direito de trabalhar menos.

Em uma época marcada tanto pela “subjetivação neoliberal”, conforme destacam Pierre Dardot e Christian Laval  no livro A Nova Razão do Mundo, as ideias neoliberais moldam nossa subjetividade e fazem com que adotemos valores, hábitos e costumes como se fossem inatos.

Do mesmo modo, a  “uberização do trabalho”, como nos ensina Ricardo Antunes no livro Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0, faz com que enfrentemos complexas interações no ambiente de trabalho que nos induzem a considerar cada vez mais que o único modelo  de vida possível é o atual.

Tempo é dinheiro, dizem! Mas e o tempo de vida, quanto vale? O que deixamos de experimentar como sujeitos cheios de vontades e de desejos por não termos tempo? Como foi possível nos convencer de que o ócio é algo que deve ser condenado? Por que encaramos o tempo do “não trabalho” como algo inútil? Quando passamos a encarar o desfrute da beleza do mundo e da vida como tempo perdido?

Em meio a tantas naturalizações, não paramos para nos indagar sobre quem definiu que a escala 6×1 era a única possível? Por que parece tão absurda a reivindicação de querer outro modo de estar no mundo que demande menos tempo de trabalho? Os discursos daqueles que detêm a dominação sobre a classe trabalhadora são sempre os mesmos. “Vai quebrar o país”, diziam, no momento em que se discutia a abolição da escravidão, no final do século 19.

As mesmas pessoas, os mesmos senhores, no momento pós-abolição, atuaram firmemente na ressignificação da categoria trabalho, construíram a Invenção do trabalhismo, como sinalizou Ângela de Castro Gomes, para atuar, também, no convencimento do disciplinamento da população para aceitar as condições da época. Felizmente, nunca tiveram pleno sucesso nessa empreitada, graças à consciência e resistência dos trabalhadores e trabalhadoras.

100 anos separam a greve geral de 1917 — considerada uma das mais importantes da nossa história, movimento que se iniciou no setor feminino de uma fábrica em São Paulo — e a reforma trabalhista de 2017, que desmontou grande parte dos direitos duramente conquistados. Quantas manifestações, atos, comemorações do 1º de maio, greves e tantas outras estratégias foram utilizadas para garantir que tivéssemos melhores condições de vida?

O debate sobre o fim da escala 6×1 segue o mesmo enredo de sempre no parlamento brasileiro, narrativas que entoam uma preocupação com a queda da produção, com a consequência para a economia, com o possível desemprego. São, muitas vezes, vozes cínicas de representantes que não sabem o que é ter grande parte do seu tempo e da sua vida dedicada ao trabalho. A média de deslocamento das pessoas para o local de trabalho no Brasil é cerca de duas horas. São quatro horas diárias, contando ida e volta. Que tempo nos resta?

É preciso desnaturalizar a ideia de trabalho e produção, por meio do estudo da história de sua construção.  É preciso construir uma subjetividade que valorize o lazer, os momentos que passamos com aqueles que importam em nossa existência, com o necessário contato com aspectos que nos humanizam. Que tenhamos mais tempo para a cultura, para a arte, para a coletividade, para os encontros, para o amor. Que tenhamos mais tempo para tudo aquilo que nos foi ensinado, ao longo da história, como sendo inútil ou perda de tempo. Que cada vez mais “percamos tempo” com todas as dimensões de uma cada vez mais digna vida.

Marcelo Gomes da Silva é professor da Universidade Estadual de Santa Cruz e membro do Portal do Bicentenário.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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