Por Everton Fargoni
A Teoria da Modernidade Dependente, formulada por João dos Reis Silva Júnior, representa uma inflexão teórica de grande alcance no interior da tradição crítica latino-americana, especialmente no campo da Teoria Marxista da Dependência (TMD).
Sua contribuição não consiste em um mero prolongamento interpretativo, mas em uma atualização estrutural que recoloca o problema da dependência em novas bases ontológicas. Ao fazê-lo, o autor desloca o eixo analítico das formas clássicas de exploração e transferência de valor para um nível mais profundo, no qual o tempo histórico se torna a principal mediação da dominação contemporânea.
O ponto de partida dessa reformulação é a interpretação da crise de 2008 como uma mutação ontológica do capitalismo. Diferentemente das crises cíclicas que marcam a história do sistema, essa crise não se resolve pela recomposição de seus mecanismos internos, pois altera o próprio modo de funcionamento da acumulação.
A predominância do capital fictício, sustentado pela antecipação do valor, redefine a relação entre tempo e produção. O valor já não depende de sua realização no circuito produtivo para operar socialmente; ele se projeta, se antecipa e se valida por meio de expectativas futuras. Essa antecipação reorganiza a totalidade social ao impor um regime temporal no qual o futuro se converte em exigência presente.
Controlar tempo histórico
É nesse contexto que a teoria de João dos Reis Silva Júnior propõe uma atualização decisiva da TMD. Autores como Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos formularam a dependência a partir de categorias como superexploração da força de trabalho, deterioração dos termos de troca e transferência de valor. Essas categorias permanecem relevantes, mas tornam-se insuficientes diante da nova configuração histórica.
A dependência, na modernidade contemporânea, não se limita mais ao plano produtivo ou comercial; ela se desloca para a capacidade diferencial de controlar o tempo histórico. Em outras palavras, o que distingue centro e periferia já não é apenas a posição na divisão internacional do trabalho, mas a forma como cada formação social se insere no regime de antecipação do valor.
Essa mudança implica uma redefinição do próprio conceito de dependência. Ela passa a ser compreendida como uma forma de bloqueio do tempo histórico, isto é, como a incapacidade de sustentar processos sociais, institucionais e subjetivos ao longo do tempo. Nas formações dependentes, o tempo é continuamente interrompido pela necessidade de responder a exigências imediatas impostas pela lógica financeira global. O resultado é uma dinâmica marcada por inícios sucessivos sem continuidade, por projetos que não se consolidam e por experiências que não se acumulam. Trata-se de uma forma de regulação temporal que impede a constituição de trajetórias históricas consistentes.
A universidade aparece, nesse quadro, como um espaço privilegiado de manifestação dessa nova forma de dependência. A produção de conhecimento, que exige duração, reflexão e continuidade, passa a ser atravessada por métricas de produtividade, prazos exíguos e avaliações constantes que antecipam resultados e fragmentam processos.
O estudante inicia sua formação, mas não consegue sustentar um percurso contínuo; o pesquisador produz, mas não consolida; a instituição funciona, mas não acumula. O problema não reside na ausência de atividade, mas na impossibilidade de duração — e é precisamente essa impossibilidade que expressa o bloqueio do tempo histórico.
Economia, política, cultura e subjetividade
A força da Teoria da Modernidade Dependente está em articular essa dimensão temporal com a totalidade das relações sociais. O controle do tempo histórico não é uma abstração, mas uma forma concreta de poder que atravessa economia, política, cultura e subjetividade.
Ao demonstrar que a dependência se realiza hoje por meio dessa forma de controle, João dos Reis Silva Júnior oferece uma chave interpretativa capaz de recolocar a crítica em um novo patamar. A questão deixa de ser apenas como o valor é produzido e apropriado, e passa a ser como o tempo é organizado, distribuído e bloqueado.
Dessa forma, a obra não apenas atualiza a tradição da dependência, mas a reinscreve em um horizonte histórico no qual o tempo se torna o elemento central da dominação. Ao identificar a mutação ontológica do capitalismo e suas consequências para as formações dependentes, o autor propõe uma teoria que não apenas explica o presente, mas também desafia as formas tradicionais de pensá-lo.
Trata-se, em última instância, de compreender que a luta pela superação da dependência passa, necessariamente, pela reapropriação do tempo histórico — isto é, pela possibilidade de sustentar processos, construir continuidade e produzir história.
Everton Fargoni é doutor em Educação e pós-doutorando na USP-Ribeirão Preto.
p.s.: O E-book Teoria da Modernidade Dependente, de João dos Reis Silva Júnior, pode ser baixado gratuitamente na página da editora.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

