Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Educação contra a violência policial

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Observando a história, sabemos como o discurso de que o militarismo é moralmente superior, anticorrupção, não é verdadeiro | Crédito: Arquivo pessoal

Militarismo é incompatível com a educação libertadora

Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza

“A função da educação pública é criar um povo insubmisso e difícil de governar.” – Condorcet

O excelente filme O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho, tem cenas que provavelmente entrarão para a história do cinema. Uma delas é aquela, tão esperada, que ocorre durante um jantar. Esperada porque até boa parte do filme não se sabe exatamente como Armando Solimões/Marcelo Alves, personagem de Wagner Moura, acabou em uma condição de clandestinidade em seu próprio país, durante o regime cívico-militar. 

Nessa parte do filme, o empresário Henrique Ghirotti, acompanhado de seu filho, desmonta o departamento universitário chefiado naquele momento por Armando. Isso aconteceu devido ao embate entre sua função enquanto pesquisador de uma universidade pública brasileira, desenvolvendo ciência e tecnologia, e a ação do governo militar de subordinar a pesquisa e a geração de riquezas no país aos interesses imperialistas internacionais. 

A cena explicita didaticamente como governos ditatoriais liderados por empresários e militares podem prejudicar o desenvolvimento nacional, sobretudo em relação a atividades econômicas com finalidades sociais, para impor interesses particulares e externos condicionados por ideologias coloniais. 

O filho de Ghirotti, desenhando no guardanapo um esboço de mapa, traçando em seguida a divisão abissal entre norte e sul, “nós e vocês”, constitui o ápice da dramática preleção, que gera uma reação de Armando e sua companheira, Fátima Nascimento, interpretada por Alice Carvalho. 

Autoritarismo nos espaços de educação

Esse exemplo da cinematografia expõe a truculência contra a universidade brasileira durante o período ditatorial, que tantas consequências negativas promoveu. As interdições e perseguições não ocorreram somente contra os intelectuais comunistas declarados e atuantes, mas contra a própria educação e a universidade pública em suas funções mais básicas. Hoje, com a extrema direita desavergonhadamente em ascensão, essa prática persiste. Alguém entendeu e aprendeu com o passado?

Henri Lefebvre, um autor do século XX, retomando a obra marxista, especialmente as contribuições de Friedrich Engels, um pensador do século XIX, contribui para entendermos nossa realidade nessa quadra de século XXI, ao discutir, no livro A Cidade do Capital, a continuidade da barbárie na civilização: “‘Nessa guerra geral, a guerra de todos contra todos, é declarada abertamente.’ As pessoas consideram-se reciprocamente apenas sob a relação de utilidade; cada um explora outrem. Os mais fortes, os capitalistas, apropriam-se de tudo. Nessa guerra geral, o capital, propriedade direta ou indireta das subsistências e meio de produção, é a arma de luta”. 

Essa disputa generalizada, de caráter desumanizante, expõe o que é função máxima das forças policiais, que de modo algum significa a segurança pública com vistas ao bem-estar da população. Tal engodo está mais para uma narrativa próxima de um remendo, em um lençol ideológico curto e surrado, que o tempo todo, ao menor movimento social dos populares, desnuda o real motivo dos contingentes militares diante dos civis no Estado Moderno capitalista: 

“Aquele que não tem capital nem dinheiro, ninguém se preocupa com ele. Se não encontra trabalho, pode roubar ou morrer de fome. ‘A polícia vigiará para que ele morra de fome de uma maneira tranquila, sem ferir de nenhuma maneira a burguesia.’ Assim, o espaço urbano com seus contrastes, suas liberdades e suas fatalidades, é o espaço repressivo: àquele do ‘crime social’, que os operários ingleses pensam que sua sociedade comete continuamente”. 

As bombas nas greves de professores, o desmonte de departamentos em tempos de exceção escancarada, os tapas na cara de estudantes em manifestações, os tiros em pessoas “suspeitas” nas periferias, os corpos asfixiados no camburão ou jogados de uma ponte qualquer são partes de um corpo social fraturado, abandonado, deixado para morrer ou diretamente assassinado pela violência que não pode ser tapada com o fino lençol de mentiras dos uniformes aparentemente limpos, diante de uma realidade adoecida na produtividade, na competição, no consumo, com imensas dificuldades de reconhecer o poder da coletividade e da solidariedade para a continuidade da existência.

Observando a história, sabemos como o discurso de que o militarismo é moralmente superior, anticorrupção, não é verdadeiro. A sério, não faltam provas do oposto, desde regimes comandados por militares que serviram para enriquecer suas próprias famílias, a tecnocracia e o empresariado parasitário até a propina cotidiana na esquina.

E nesse mundo cada vez mais ditado pela (des)funcionalidade técnica, é preciso ressaltar a postura tecnocrata, que se utiliza de todo aparato possível para dizer que as coisas só podem ser como são e que qualquer alternativa que escape da determinação de um memorando ou coisa que o valha é impossível, com força para fazer desabar tudo. E talvez seja isso mesmo. 

Afinal, o que dizer daqueles que defendem a democracia, no máximo, como um sistema de enquetes e eleições sazonais? O que dizer daqueles que, com frequência, apresentam pseudo justificativas para os conflitos e a necessária desobediência, dizendo da “maldade da natureza humana”, negando, assim, todo o conhecimento produzido para chegar ao nível do “pecado original”? E assim o fazem com os estudantes? Fazem deles criminosos desde a infância, repetidas vezes, mesmo antes que tenham qualquer ideia do que é um código jurídico? 

Ao mesmo tempo, não produzem assim algozes e mais algozes, sem qualquer respeito pelas instituições de ciência e educação, sem qualquer apreço por vernizes democráticos maculados de decoro e eficiência?

Tanto o militarismo quanto o comportamento político burocrático, sempre político, incessantemente político, travestido de objetividade técnica, pela truculência dos cacetetes, das bombas ou dos formulários e metas, são contraeducativos. E, outra vez, a história já demonstrou em diversos contextos no tipo de circuito e esfera política isso “termina”.

Não há possibilidade de meias palavras: o militarismo é incompatível com a educação libertadora (sim, um pleonasmo). Tangenciar ou defender a presença de policiais militarizados dentro das instituições de ensino, seja em atividades de gestão, docência ou qualquer outra, está na contramão de um processo formativo com vistas ao exercício da autonomia, com base na crítica e na capacidade de reconhecer e considerar as diversidades e as contradições. 

Desse modo, o discurso em defesa da presença de agentes de força para a garantia de direitos e princípios democráticos não passa de uma moral autoritária internalizada, especialmente pela tecnocracia, em um movimento de compressão da realidade social. Ou os verdadeiros crimes são discutidos por aqueles que estão ao lado dos aparelhos de repressão? 

A educação enquanto processo formativo integral dos cidadãos envolve dimensões éticas, políticas, afetivas, teóricas, além de diretrizes disciplinares, habilidades técnicas e procedimentos de conduta, porque somente essas últimas são insuficientes para a humanização. 

Por isso é preciso questionar as linhas traçadas no mapa, como fez a personagem no filme, denunciando o quão é diminuto o espaço da autonomia, da democracia, da crítica, portanto, da própria educação, e o tamanho do abismo entre uns e outros. Dizer e repetir o óbvio. 

Educação não se faz por meio de organogramas, enquetes, ofícios, fardas, viaturas e armas. Educação implica o desenvolvimento da autonomia e da crítica radical.

Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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