Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Professores e alunos como inimigos: incompreensão do processo e suas consequências 

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A relação pedagógica se compõe de três elementos: professor, aluno e o objeto da cultura que os coloca em relação | Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Uma das atribuições dos docentes é despertar o interesse dos alunos

Por Rodrigo Gil e Natália Gil 

Outro dia nos deparamos nas redes sociais com a postagem de uma professora que lamentava que em sua turma de alunos poucos querem aprender e o resto só pretende atrapalhar a aula.  

Nós, que juntos temos experiência acumulada nos dois lados desse tipo de cena (como professora e como aluno), não pudemos deixar de considerar o quanto de absurdo tem nessa reclamação. 

Antes de passarmos à análise ponto a ponto, vale dizer que não se trata das lamúrias de uma única professora aleatória partilhando angústias ou destilando preconceitos nas redes sociais. Há décadas circula uma aparentemente inofensiva piadinha de escola em escola: perguntado se a escola em que dá aulas é boa, o professor responde: “A escola até que é boa, os alunos é que atrapalham”.

Engajar os alunos é parte do fazer docente

Mas voltemos ao trecho inicial. Quando uma professora diz que, de todos os seus alunos, muito poucos querem aprender, é porque assume ser papel dos alunos ter gosto pela matéria que ela ensina. Ora, é evidente que não é! Ninguém tem que gostar de álgebra, de antiguidade clássica, de globalização ou de qualquer outro tema vigente no currículo escolar. É bom lembrar que na escola básica o aluno não tem opção de escolha. 

Uma coisa é, como sociedade, concordarmos que tais conteúdos são importantes na formação de crianças e adolescentes. Outra, bem diferente, é querermos que gostem de toda essa diversidade de temas.

Aqui tem algo incontornável: uma das atribuições dos docentes é despertar o interesse dos alunos pela sua área de ensino. Isso pode não chegar ao ponto de fazer “gostar” do assunto, mas o processo passa, ao menos, por se empenhar numa ação de conquista intelectual. Como diz Vitor Paro: “Dizer ‘a educação foi muito boa, mas o aluno não aprendeu porque não quis’, é mais ou menos dizer que a cirurgia foi um sucesso, mas o paciente morreu”. Parte do trabalho do professor é engajar os alunos na sua aula. Não dá para ficar de braços cruzados esperando que eles venham com olhinhos brilhando para aprender sua matéria.

E que outra coisa seria uma professora? Qual seria a especificidade de seu trabalho? Porque na concepção da professora que se lamenta o trabalho do professor seria passar a matéria, da qual o aluno tem que gostar ou, no mínimo, absorver silenciosamente. Se assumirmos que é isso que faz o docente, não haveria motivo nenhum para não defendermos a substituição dos professores pelos recursos de Inteligência Artificial (IA), por livros para atividades de autodidatismo, pela Internet como repositório infinito de informações. 

Em termos de mera transmissão de conteúdo, é fácil notar que esses recursos funcionam melhor do que um ser humano professor. 

Se o aspecto humano e as relações interpessoais deixassem de fazer parte do processo educativo, a substituição de professores por recursos de IA seria indiferente. É, no entanto, uma inversão da ordem e um profundo desconhecimento do que se passa na educação escolar considerar que os e as alunas já devam estar engajados antes mesmo do começo do processo de ensino-aprendizagem. 

A relação pedagógica se compõe de três elementos: professor, aluno e o objeto da cultura que os coloca em relação (biologia, linguagem, matemática etc.). Nessa relação, uma das funções dos professores é, a partir de sua própria relação com o conhecimento que ensina, favorecer boas relações dos alunos com essa área do saber. Nunca se trata de apenas “transmitir” conhecimentos. 

Professores e alunos em campos opostos?

É preciso considerar, ainda, um segundo problema na formulação da professora que se lamenta: “o restante dos alunos tenta atrapalhar o tempo todo”. Difícil saber se isso seria simples expressão de uma percepção ou se a própria postura é o que gera a situação. Fato é que assumir os alunos como inimigos pessoais constitui um tremendo erro. 

Primeiro, é difícil conceber que a descrição corresponda ao que efetivamente ocorre. Se um aluno conversa, raramente o faz deliberadamente para atrapalhar a aula. Faz porque quer conversar, simples assim. Os alunos têm razões próprias, mais interessantes e também mais autocentradas, para conversar, distrair-se ou dormir em aula. Atrapalhar ou agradar os professores (talvez essa seja uma verdade dura para alguns) não está entre as principais preocupações dos alunos. 

Veja, ninguém aqui está dizendo que esses comportamentos disruptivos da ordem devam ser permitidos em aula. É preciso reestabelecer o bom andamento dos trabalhos e prezar por um ambiente propício ao estudo. Mas até para corrigir o comportamento dos alunos, é importante que os professores entendam que em geral não se trata de um ataque pessoal. 

Também não estamos ingenuamente imaginando que a prática docente seja uma atividade isenta de desafios e que seja fácil conseguir engajamento, interesse e participação dos alunos em aula. Mas, não é de hoje que sabemos que a postura assumida pelo professor e o modo como ele compreende seu papel educativo tem efeitos sobre os alunos. 

Muitos pesquisadores já se debruçaram sobre o tema e a literatura especializada acerca da questão é vasta. Na impossibilidade de citar todos eles, vale a pena remeter ao lindo relato etnográfico que escrutina como a professora Pam exercia autoridade, obtinha o respeito dos alunos e conseguia o engajamento deles num contexto social especialmente difícil. Sua postura de cuidado e acolhida, associada à firmeza com que conduzia o trabalho pedagógico sem perder de vista o propósito, era decisiva para o envolvimento dos alunos.

Por fim, sobretudo no que se refere aos adolescentes, cabe acrescentar que a contestação ou o teste dos limites de autoridade não tem nada de estranho. O fundamental, então, é como cada professor lida com esse confronto. 

Pode-se assumir que se trata de um aluno que não está conseguindo situar-se naquele ambiente de forma adequada e, portanto, precisa ser ajudado. Ou, por outro lado, pode-se entender esse aluno como um inimigo que precisa ser combatido. Nesse caso, caberia a pergunta: por que alguém deveria esperar que um aluno que se percebe colocado na posição de inimigo vá querer colaborar ou aprender com esse professor?

Rodrigo Gil é estudante do ensino médio em Porto Alegre (RS) & Natália Gil é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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